Perdão e Liberdade: a (difícil) arte de deixar para trás

Perdão e Liberdade. Este texto foi originalmente escrito em 6 de abril de 2009 e estava perdido. Há um mês ou dois, no entanto, ganhei um presentão da Soraia, do Arcano 19. Ela mandou para mim a cópia de vários textos que publiquei antes do blog ser hackeado. Obrigado, Soraia, pelo carinho!  Lembrei desse texto mais cedo e fui buscar para ver se estava entre os resgatados. Por acaso, completou  6 anos esta semana!! Que possa ser útil para muitos.

‘Vambora’ desse Egito

Estamos no mês judaico de Nissan desde último o dia 25. O período que traz consigo a energia que precisamos para “sair do Egito em direção à Terra Prometida”. Esta semana, na noite do dia 8, celebra-se Pessach. “Egito” e “Terra Prometida”, aqui, não são localizações geográficas, mas estados da mente – que fique bem claro isso. “Egito” é uma palavra-código que representa tudo aquilo que nos escraviza. Lembre-se que os hebreus foram escravizados pelos egípcios ao longo de 400 anos.

Pensando nos caminhos que nos levam para fora do Egito, me ocorreu de escrever sobre o perdão. O tema já foi abordado (de leve) antes e continua aparecendo para mim over and over again. Ser capaz de perdoar pode ser muito fácil para um e um verdadeiro desafio para outro. O que diferencia os dois, muito provavelmente, é a presença de uma “consciência atribuidora de culpas”. Quanto mais forte esta inclinação, mais complicado sair deste emaranhado de sentimentos de perda, mágoa, vergonha e falta de confiança. Confiança na humanidade e em si mesmo.

Perdão, essa coisa estranha

Ser capaz ou incapaz de perdoar, contudo, não classifica uma pessoa como boa ou má, por favor. Temos, todos nós, feridas que nos acompanham desde a infância e elas se manifestam de diferentes formas. São como um tipo de defesa burra. O objetivo é nos proteger da dor, mas dor é exatamente o resultado final de sua atuação.

Perdão é um assunto delicado. De modo geral, quanto mais a pessoa precisa trabalhar o perdão, mais resiste é em compreendê-lo corretamente. Tolice tentar convencer alguém disso em uma conversa – ou dez! A gente lança as sementes e espera que elas caiam em solo fértil. No tempo certo elas germinam, sem pressão.

Já ouvi pessoas que terminantemente se recusam a perdoar porque acham que quem erra uma vez, erra duas; pessoas com vivências pesadas que esperam que uma Justiça Divina prevaleça para que se sintam “vingadas” (com ou sem aspas); pessoas espiritualizadas que, no entanto, pedem para que seus mentores “perdoem no lugar delas”, dando o assunto por resolvido; e pessoas que perdoam sem avisar que existe um script. Nesses casos, se “o perdoado” não segue um roteiro preciso (intervenção do ego) a situação azeda de novo.

O Diabo | Zephyrus Tarot
Detalhe d’O Diabo, do Rider-Waite Tarot

O perdão não é para o outro

Duas citações não poderiam ficar de fora deste post:

A primeira, extraída de um episódio de Eli Stone (S02E09). É nele que um pastor afirma que “Perdão não é um presente para os outros, é para nós mesmos”. A segunda, do Osho. Ele diz que nos equivocamos ao pensar que perdão é para quem merece. Se fosse o caso, você não estaria fazendo nada mais do que a sua obrigação. O desafio é perdoar/ser compassivo justamente com quem “não merece”.

Um problema no discurso pró-perdão é que ele tende a possuir um cunho religioso. Isso resulta em revolta ou sentimento de autocondenação por parte de quem deveria estar perdoando. É preciso ter em mente, antes de qualquer outra coisa, que perdoar não é esquecer, mas deixar para trás – ponto. Não se trata de absolver ou se ver obrigado a reconciliar. Também não faz de você um fraco ou, do contrário, mostra a sua superioridade – olha o ego aí de novo!

Entenda que no estado de não-perdão somos sempre prisioneiros de histórias mal-resolvidas. É inevitável o impacto negativo nossas vidas, de uma forma ou de outra, mesmo que não tenhamos consciência disso. Por vezes até achamos ter perdoado. Afirmamos ao mundo não pensar mais no assunto, mas, no íntimo, algo permanece ativo, sabotando pensamentos, palavras e ações.

Perdão, por sinal, não tem a ver apenas com o outro. Considere também a forma que digerimos (ou não!) os erros que cometemos no passado. E aí ficamos ruminando isso, repassando o que fizemos e o que deveríamos ter feito inúmeras vezes. Vem daí a ideia de ressentimento, que é “sentir novamente”. A pessoa fica estacionada naquele momento de dor como um disco arranhado – para quem ainda sabe o significa esta expressão. Quando se lembra ou conta para alguém, a emoção transborda porque ela não está no aqui-agora, mas ainda no momento em que tudo aconteceu.

O apego existe tanto no desejo quanto na aversão

Certamente por causa disso que Leslie Temple-Thurston fala sobre a necessidade de “abandonar a maneira como contamos uma história para nós mesmos”. Ela diz que aquilo que criamos pode ser reescrito. Não, não se trata de uma fórmula do tipo O Segredo, mas de uma liberação de energia mal-qualificada.

The Psychic Tarot for the Heart | Zephyrus Tarot
A Estrela, do Psychic Tarot for the Heart

Dentro da Cura Prânica trabalhamos na identificação e rompimento de elos psíquicos desta natureza. Quando o grilhão se rompe, a percepção muda, a ferida cicatriza, resgatamos o nosso poder – o pleno exercício do livre-arbítrio.

“Como assim? Não faz parte do livre-arbítrio não querer perdoar?”

Sim, claro. Mas, impregnados por sentimentos negativos, as vibrações mais baixas interferem na forma como absorvemos informações e atuamos no mundo. Para muitos, este sofrimento chega a ser a razão de suas existências, tal o grau de envenenamento em que se encontram.

No livro Retornando à Unidade, Leslie Temple-Thurston desenvolve uma teoria interessante. Ela fala de pontos entre chakras que permitem (ou inibem) o pleno funcionamento dos mesmos. Entre o Plexo Solar e o Cardíaco, temos um ponto ligado às traições. Vale para as traições reais e as que acreditamos existir, não faz diferença. Ele fica bem em cima do diafragma, dividindo o abdômen e o tórax. Enquanto este portal permanece fechado, as energias inferiores não alcançam o Cardíaco, que é a sede das emoções superiores.

Neste nível, para a consciência distorcida, o mundo se divide em vítimas e tiranos – nada mais. A traição é o registro mental/emocional permanente de que não tivemos nossas necessidades atendidas por algum motivo “injusto”. Não consideramos nessa hora que somos imperfeitos como são (foram) imperfeitos nossos pais, amigos, afetos, chefes e subalternos. Todos querem ser felizes e julgam fazer o que é melhor dentro das limitações que possuem. No entanto, nem sempre as coisas saem como deveriam ser. A questão não é entrar no mérito de certo ou errado, mas observar a marca que isso deixa na alma. Existem discussões mais profundas, como a consciência da responsabilidade por tudo o que vivenciamos, mas não vou avançar neste território.

O que eu quero é ser feliz

Você pode achar que tem toda a razão do mundo e estou escrevendo um monte de bobagens. Vai alegar que só você sabe o tamanho do mal que lhe fizeram. Também pode considerar que este sentimento tem realmente um efeito nocivo e precisa ser eliminado. Qual a sua escolha? Se você é do segundo time, pode não ter a menor ideia de como fazer isso, mas já fez um enorme progresso.

O perdão pode ser exercitado diariamente de diferentes formas, por vezes quase como uma doutrinação. Os judeus, seguindo o livro de orações, encontram uma prece que considero muito especial para ser feita antes de dormir:

“Eu perdoo a todo aquele que me magoou e me zangou, ou que me fez mal, tanto ao meu corpo quanto à minha propriedade, à minha honra e tudo que eu possuo; tanto contra a sua vontade ou com a sua vontade, tanto sem querer quanto premeditadamente, tanto com palavras quanto com ações; enfim, peço para que nenhum ser humano seja castigado por minha causa”.

O Hareni Mochel pode ser um grande desafio quando estamos irritados com alguém. Como prática diária (e sincera), é um exercício transformador. Ela nos leva a buscar  a consciência da liberdade, pois cultivar o não-perdão é permanecer no Egito. Não queremos isso para nós, e sim a “terra que emana leite e mel”. Acredite, este é um estado da mente que pode ser alcançado neste exato instante.

Dentre os óleos essenciais, é dito que o Cedro, em especial, trabalha o perdão. Não tenho nenhum depoimento com relação a isso, mas confio nas fontes. Use óleo 100% natural e aplique, diluído no carreador, 2 gotas no diafragma. Mentalize a dissolução de qualquer nó que exista ali.

Gorethi Moura, aromaterapeuta de Recife, sugere outros óleos e indica fortemente o floral Dagger Hakea.

Antes disso, havia escrito para a Carol, do blog Terapia Floral, pedindo uma ajuda. A resposta dela reproduzo a seguir:

Alguns florais podem ser de grande ajuda no exercício do perdão, como o Willow, de Bach, indicado para quem guarda ressentimento e amargor e é incapaz de perdoar os erros alheios, sempre achando que os outros são os culpados por todos os seus problemas. Com este floral, a pessoa passa de espectador a ator principal e aprende a olhar a vida de maneira positiva, com a consciência de que não são os outros que lhe causam contratempos mas ela que permite que as coisas o incomodem tanto. A essência suaviza o ressentimento e a postura de eterna vítima das circunstâncias. A pessoa assume a responsabilidade por suas situações na vida escolhendo atitudes positivas e, portanto, colhendo resultados positivos também. Fluindo de maneira mais suave com o desenrolar dos acontecimentos é mais fácil ceder e perdoar.

Beech, também de Bach, é a essência dos muito críticos, ideal para quem projeta o tempo todo imagens negativas dos outros ou defeitos por questões preconceituosas. São pessoas desaprovadoras e intolerantes. A essência desperta nelas o amor, a aceitação incondicional e a capacidade de perdão, abrindo o coração para perceber o lado positivo de cada pessoa e situação. É preciso conhecer antes de julgar. Na verdade, o ideal é não julgar mas compreender que as pessoas são diferentes e únicas e cada uma delas pode trazer algo de muito construtivo para nós. Basta abrir a cabeça e o coração.

Como ainda estamos em Pessach, Chag Pessach Sameach a todos. Que cada um possa sair de seu Egito que nos oprime em direção à liberdade que nos torna plenos.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.