Combatendo a raiva: aprendendo com a Força

The Tarot of the New Vision | Combatendo a raiva
The Tarot of the New Vision

Não sou fã de previsões nesta época do ano. Acho complicado avaliar, através das cartas,  o que vai acontecer no mundo. Muito menos me proponho a analisar a vida de quem não tenha solicitando uma consulta – questão de ética.

Para 2008 eu escrevi um texto sobre a Roda da Fortuna dizendo que a “energia do ano” tem a ver com o contexto no qual estaremos envolvidos (individualmente e em grupo) e o que temos a aprender com isso.

Posso até falar de minha própria experiência. Tive uma situação recente de Torre e estar consciente da Roda me ensinou a entrar no clima keep walking. Fui fazendo o que estava ao meu alcance certo de que tudo passa. Também me coloquei receptivo, ao invés de revoltado, para entender para que lado a vida estava me levando.

“Todas as coisas mudam, e nós mudamos com elas”, escrevi na ocasião.

Força, e não Justiça

O ano de 2009 será regido, astrologicamente, pelo Sol. Numerologicamente, 2+0+0+9 resulta em 11. Associar a redução do ano a uma das lâminas do Tarot não é um processo perfeito. É para se considerar, por exemplo, que nem sempre as lâminas tiveram os números que conhecemos hoje. Também que não há uma ligação íntima entre os atributos da lâmina e o seu valor numerológico. Por fim, especialmente com relação ao número 11, há quem considere a carta da Força e há quem considere a carta da Justiça. Eu, particularmente, não concordo com a sequência do Rider-Waite, daí a minha escolha.

A ira (raiva) do Sol

Tarot des Alchimistes | Combatendo a raiva
Tarot des Alchimistes

O que proponho aqui é um exercício com base em algumas reflexões pessoais. Se pudermos trabalhar todo um ano aprimorando, ao menos, uma qualidade da alma, com certeza não teremos qualquer desperdício de esforço ou tempo.

O ano é regido pelo Sol, na Astrologia, e pela Força, no Tarot.

A dama segura um leão e Leão é a constelação associada ao Sol. Não resisto à tentação de ir além: para os judeus (sim, pode pensar “lá vem ele…”), um dos nomes dados ao Sol é Chamah. Esta palavra associada à chemah, que significa “ira”. Com alguma flexibilidade de tradução, podemos englobar “raiva”, “cólera”, “indignação”, “fúria”, “agitação”, “furor”, “envenenamento” (da mente), etc.

Olho ao meu redor e percebo o quanto esta energia está exacerbada no mundo. Pessoas discutem por qualquer coisa. As opiniões deixaram de ser respeitadas. A violência se faz presente em cada casa, cada esquina. Quando não é exercida pelo próprio indivíduo, chega a todo instante pelos meios de comunicação.

Balas perdidas, guerras, intolerância, porradaria em estádios, no trânsito e dentro de casa. Também incestos e abusos sexuais dos mais variados. Enquanto alguns questionam “que mundo é este?”, outros consideram tudo normal e até justificam. Muitos acham que é o único caminho. Uma coisa é fato: a raiva não pode ser superada pela raiva. Quanto mais raiva no mundo (a minha, a sua, a do seu vizinho), mais difíceis são as coisas.

Só existe um único inimigo, e ele está dentro de você

Mulher de vermelho - Matrix
Mulher de vermelho – Matrix

Shantideva ensina que toda a vez que a mente se distrai (a “Mulher de Vermelho”, em Matrix, lembra?), os kleshas (aflições/contaminações mentais) dominam as circunstâncias. Na estrofe 5:12 do Bodhicharyavatara (”O Caminho da Iluminação”), temos que:

As hordas de malfeitores são tão vastas quanto o próprio espaço –
Que chances há de que venham todas a ser suplantadas?
Basta que a mente raivosa seja derrubada,
E todos os inimigos serão, por este ato, destruídos.

Pema Chödrön resume com a frase: “sem raiva, não há inimigos”. Observo diariamente pessoas que vêem inimigos por toda parte e, logicamente, reagem à altura. Uma, no outro dia, disse que tinha vontade de matar velhinhos na rua porque eles atrapalham nos ônibus e nos bancos, sem contar os indecisos que a irritam nas fila dos restaurantes a quilo. E tudo isso dito com passionalidade, face rubra, olhos arregalados. Se pudesse, talvez matasse mesmo.

Para alguns (muitos?) a vida é algo que alterna ataque e defesa, nada mais. O leão desequilibrado (sem a Dama para lhe conter) geralmente indica pessoas autocentradas e dominadas pela impulsividade. Seus desejos necessitam ser satisfeitos na hora que eles emergem. Leão é o signo dos reis, mas estas pessoas não são reis, são tiranas. Elas não querem sofrer, mas o sofrimento é uma condição permanente. Em complemento, ainda causam sofrimento nos outros. Não há quem saia ileso quando o tornado passa por perto e eles, de alguma forma, sentem um prazer perverso nisso.

A cura está na meditação. A meditação que atrai as irmãs Paciência e Serenidade para nossas vidas. A meditação que nos dota de plena atenção (trenpa) e estado de alerta (sheshin). Quando Pema Chödrön nos apresenta trenpa e sheshin no livro “Sem Tempo a Perder” – estava lendo sobre isso esta semana – diz que estas qualidades estão sempre presentes em nós, mesmo que adormecidas, e a meditação as revigora. Precisamos das duas para termos consciência dos mecanismos internos de sabotagem, pois “os kleshas e a distração andam juntos”, afirma.

Gentileza ainda gera gentileza. A raiva não leva a nada

Tarot Grand Belline | Combatendo a raiva
Tarot Grand Belline

“Gentileza gera gentileza”, escrevia José Datrino pela cidade – ele é mais conhecido como Profeta Gentileza. As pessoas repetem a frase, estampam camisas, mas não trazem este sentimento para si mesmas.

Se vale algum conselho como se conduzir em 2009, faça disso um mantra, lembrando que esta gentileza começa consigo mesmo. A carta se chama Força, mas o leão é dominado pelo amor, não pela brutalidade.

A gente, de modo geral, exterioriza o que rola internamente de forma inconsciente. A raiva que o outro promove ou o desejo que alguém (mesmo um objeto) desperta deve ser percebido como sinal para o que precisa ser observado dentro, não fora. “De onde vem isso?”. “Por que estou reagindo dessa maneira?”. São medos, carências e mágoas que se não são tratadas com autodisciplina, devem receber o acompanhamento de um profissional qualificado.

A agressividade é vista por muitos como uma expressão de poder, por isso o destemperado se orgulha de suas ações. “Ai de quem fica na minha frente”, esbraveja. Mas este leão, antes de qualquer outra coisa, vive em um mundo de ilusão tentando proteger suas feridas com orgulho. “Violência não é um sinal de força. É um sinal de fraqueza e desespero” – palavras do Dalai Lama.

Akshobhya e a raiva da “matadora de velhinhos”

Olho para a “matadora de velhinhos” e outras figuras quase folclóricas que passam pela minha vida e vejo pessoas com muito medo de perder algo que, na verdade, nunca tiveram e nunca irão conseguir por este caminho.

A carta da Força é o ponto central do Tabuleiro. Tanto a carta quanto o Sol astrológico falam de vitalidade. Se bem trabalhados, tudo corre bem. Se tendem para o excesso ou deficiência, o sistema fica imediatamente comprometido.

Buda Akshobhya – www.alamy.com

Ao atualizar este post (maio/20017), estou particularmente envolvido com a prática budista de Akshobhya. Akshobhya é um dos cinco Dhyani Budas (“Budas da Meditação”), regente da direção leste e líder da família Vajra.

Akshobhya é um nome sânscrito. Em tibetano, é conhecido como Mitrugpa (“Imperturbável”) porque a sua mente não é agitada por nenhuma das emoções afligidas. O 17º Karmapa, Ogyen Trinley Dorje, ensina que Akshobhya é a encarnação da coragem para superar a raiva.

Diferente das “armas de (São) Jorge”, a armadura de Akshobhya é a paciência. O Karmapa destaca que, especialmente em função do desenvolvimento tecnológico, a nossa capacidade de causar danos é inconcebível. O homem sempre matou outros homens em disputas e animais para se alimentar, mas hoje faz isso (ou tem a capacidade de fazer) em uma proporção enorme e com o mínimo de esforço. A nossa consciência (responsabilidade) deveria ser muito maior, mas não parece ser essa a realidade dos fatos.

Ele também aconselhou: “Precisamos alcançar um estado sem agitação que não responde a violência com mais violência. A meditação não deve ser apenas para buscar proteção para nós mesmos, mas para encontrar a coragem necessária para responder sem raiva à violência neste mundo”.

Precisamos urgentemente encontrar recursos em nossas mentes para lidar com situações estressantes de forma mais eficaz do que as emoções aflitivas fazem. Sem esses recursos superiores, não nos atrevemos a renunciar às emoções aflitivas porque elas sempre parecerão ser o nosso melhor recurso em tempos de dificuldade.

O Karmapa encoraja budistas a desenvolver “qualidades surpreendentes” em suas mentes através da prática de Akshobhya. E quem não é budista? Quem não é budista deve (é a minha sugestão) se conectar com o que tem de mais precioso para despertar em si o amor, a compaixão e a sabedoria. Comece a mudar a si mesmo e verá mudanças extraordinárias no mundo ao seu redor.

Cuidemos de nossas feras como elas devem ser tratadas, elevando a sua natureza não apenas para termos um bom ano, mas, principalmente, para sermos melhores pais, filhos, companheiros de trabalho, maridos/esposas… enfim, melhores seres humanos.

Bom 2009 para todos.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.