Gampopa: A Perfeição da Paciência

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O texto a seguir é uma tradução do capítulo 14 do livro O Ornamento da Preciosa Liberação, A Joia que Realiza Desejos dos Nobres Ensinamentos, de Gampopa.

Gampopa (1074 – 1153 D.C.), obteve realização completa dos ensinamentos e práticas do budismo,por volta de 560 A.C. Ele estudou o sistema de treinamento dos sutras na linhagem Kadampa e recebeu o treinamento tântrico de Milarepa. Desta forma, por ter corporificado a forma completa do budismo, Gampopa estabeleceu com sucesso o budismo completo no Tibete. Sua linhagem de discípulos se espalhou por toda Jambudvipa e se tornou a joia da coroa de todo o budismo.

Chagdud Khadro | A Perfeição da Paciência
Chagdud Khadro, Diretora Espiritual do Chagdud Gonpa Brasil

Dia desses eu estava assistindo uma palestra da Chagdud Khadro, em Juiz de Fora, e ela disse que Maitreya, o próximo Buda, virá para ensinar uma única coisa: PACIÊNCIA. Paciência ou khanti (tib) é uma das seis paramitas (“perfeições”) que devemos desenvolver nessa existência.

Compartilhei esta sentença no Facebook e a reação foi a que se espera. É curioso como, de certa forma, a gente se orgulha por ser impaciente. É como ser “melhor” diante de situações e pessoas que contrariam a nossa vontade ou simplesmente desprezamos.

Eu tinha o hábito de escrever sobre coisas não associadas (diretamente) ao tarot na primeira versão do Zephyrus (anterior ao ataque hacker). Quando fiz o resgate do que foi possível, deixei algumas dessas publicações de fora – a maioria perdi mesmo. No entanto, como o propósito aqui é trabalhar o desenvolvimento pessoal, vale a pena disponibilizar este texto, que não deve ser conhecido por muitos. Sobre Tarot e Paciência, tenho dois posts: leia o primeiro aqui.

Pensei em editar e ir direto ao ponto, destacando os trechos mais relevantes com alguma interpretação pessoal. Pessoas impacientes talvez achem a estrutura do texto uma perda de tempo, mas garanto que vale o esforço de ler e refletir como deve ser feito. Talvez nos ajude ter (um pouco mais de) paciência compreendendo a natureza do que nos deixa impacientes.

Na verdade, é como se o ensinamento estivesse sendo transmitido pelo próprio Gampopa. Isso não é dito por mim, mas foi profetizado por ele mesmo.

CAPÍTULO 14

A Perfeição da Paciência

O sumário:

Reflexões sobre as falhas e as virtudes,
Definição, classificação,
Características de cada classificação,
Ampliação, perfeição e resultado –
Esses sete itens compreendem a prática da perfeição da paciência.

I. Reflexões sobre as Falhas e as Virtudes.

Mesmo realizando as práticas da generosidade e da ética moral, se não for desenvolvida a prática da paciência a raiva se manifestará. Com o surgimento da raiva todas as virtudes que foram acumuladas anteriormente através da generosidade e da ética moral serão destruídas em um instante. O Cesto dos Bodisatvas afirma:

Aquilo que é chamado de raiva destruirá as raízes de virtude
Acumuladas através de centenas e milhares de kalpas.

Engajando-se na Conduta dos Bodisatvas coloca:

Quaisquer ações virtuosas,
Tais como venerar os budas e a generosidade,
Que foram acumuladas ao longo de mil éons,
Serão todas destruídas em um momento de raiva.

Reiterando, se você não possuir paciência e a raiva entrar em sua mente, isso é como uma flecha envenenada perfurando seu coração. Você não experimentará alegria, felicidade ou paz devido à dor mental. Você não conseguirá nem mesmo dormir bem. Engajando-se na Conduta dos Bodisatvas afirma:

Minha mente não experimentará a paz
Se promover pensamentos dolorosos de raiva.
Não encontrarei alegria ou felicidade,
Incapaz de dormir, permanecerei inquieto.

E:

Resumindo, não existe ninguém que viva feliz guardando raiva.

Enfatizando mais uma vez, se você não possuir paciência o ódio e a raiva penetrarão em sua mente e sua face ficará desfigurada, fazendo com que seus amigos, parentes e servos fiquem cansados e tristes. Mesmo se você lhes oferecesse alimento e riquezas eles não se aproximariam. Assim se diz:

Assim, parentes e amigos ficarão desconsolados.
Apesar de atraídos por minha generosidade eles não confiarão em mim.

Se você não possuir paciência os maras irão alcançá-lo e criarão obstáculos. O Cesto dos Bodisatvas afirma:

Os maras irão alcançá-lo e criarão obstáculos se você possuir uma mente cheia de ódio.

Se você não possuir paciência, uma das seis paramitas do caminho para a iluminação estará incompleta e, assim, você não atingirá a iluminação insuperável. O Sutra Condensado da Perfeição da Sabedoria afirma:

Aquele que possui ódio e não possui paciência, como poderá atingir a iluminação?

Por outro lado, aquele que possui paciência tem uma das virtudes supremas dentre todas as raízes de virtude. Como se diz:

Não há mal como o ódio,
Não há fortaleza como a paciência.
Assim, devo me esforçar de diversas formas
Para meditar sobre a paciência.

Se você possuir paciência, mesmo no estado convencional encontrará toda a felicidade. Como se diz:

Aquele que, consistentemente, suplanta o ódio
Encontrará a felicidade agora e nas próximas vidas.

Se você dominar a prática da paciência atingirá a iluminação insuperável. O Sutra do Encontro do Pai e
do Filho afirma:

A raiva não é o caminho para a iluminação. Portanto, ao meditar
Sobre a bondade amorosa a iluminação será produzida.

II. Definição.

A definição de paciência é um sentimento de tranquilidade. Os Bhumis dos Bodisatvas afirmam:

Uma mente livre de confusões e permeada por um sentimento de tranquilidade
Acompanhada de compaixão – em resumo, deve-se compreender que esta é
A definição da paciência de um bodisatva.

III. Classificação.

A paciência possui três classificações:

A) A paciência de sentir-se tranquilo com alguém que o prejudica,
B) A paciência de aceitar o sofrimento e
C) A paciência para compreender a natureza do Darma.

O primeiro tipo é a prática da paciência ao investigar a natureza daquele que nos prejudica. O segundo tipo é a prática da paciência ao investigar a natureza do sofrimento. O terceiro tipo é a prática da paciência ao investigar a natureza inequívoca de todos os fenômenos. Colocando de outra forma, os primeiros dois tipos são praticados no estado convencional e o terceiro tipo é praticado no estado último de compreensão.

Buda Maitreya | A Perfeição da Paciência
Buda Maitreya

IV. Características de Cada Classificação.

A) A Primeira Classificação. Pratiquem a paciência com aqueles que trazem obstáculos a vocês e a
suas famílias agredindo, machucando, odiando e abusando de vocês, e assim por diante. O que significa
praticar a paciência? Não se deixar perturbar, não retaliar e não guardar ressentimento na mente são
chamados de paciência.

De acordo com Shantideva deveríamos investigar:

1) que aqueles que nos prejudicam não possuem liberdade,
2) que esse mal é a falha de nosso próprio carma,
3) que ele é uma falha de nosso corpo,
4) que ele é uma falha de nossa mente,
5) que ambos estão igualmente errados,
6) o benefício,
7) o sentimento de gratidão,
8) que todos os budas ficarão satisfeitos e
9) que ele traz grandes efeitos benéficos.

1. Investigando que aqueles que o prejudicam não possuem liberdade. Por exemplo, tome alguém como Devadatta que não tinha a liberdade de evitar o mal devido ao poder do ódio. Quando o ódio está presente não somos capazes de gostar do objeto de nosso ódio. Portanto, visto que essa pessoa está fora de controle não há razão para revidar. Como se diz:

Portanto, tudo é governado por outros fatores
E, dessa forma, nada governa a si mesmo.
Tendo compreendido isto eu não deveria ficar com raiva
De fenômenos que são como aparições.

2. Investigando que esse mal é uma falha de seu próprio carma. Em minhas vidas anteriores eu prejudiquei outros seres da mesma forma que estou sendo prejudicado agora. Portanto, visto que essa é uma falha que vem de meu próprio carma negativo não há razões para retaliar. Como se diz:

Anteriormente eu devo ter causado um mal similar
Aos outros seres sencientes.
Portanto, está correto que esse mal seja retribuído
A mim, que sou uma causa de sofrimento para os outros.

3. Investigando que esse mal é uma falha de seu corpo. Se eu não possuísse este corpo a outra pessoa não teria um alvo para atirar suas armas. Portanto, visto que é por possuir um corpo como este que estou sendo prejudicado, não há razões para retaliar. Como se diz:

Tanto a arma quanto meu corpo
São as causas de meu sofrimento.
Visto que o outro deu origem à arma e eu ao corpo,
De quem eu deveria ter raiva?

4. Investigando que esse mal é uma falha de sua mente. Não vejo esse corpo excelente como algo que possa tolerar facilmente o mal infligido pelos outros; pelo contrário, eu o vejo como um corpo frágil e inferior. Portanto, ele é suscetível ao sofrimento. Visto que esse mal é causado pela minha mente não há razões para retaliar. Como se diz:

Se, em cego apego, eu me agarro
A esse abscesso sofredor da forma humana
Que não suporta ser tocado,
De quem eu deveria ter raiva quando ele é ferido?

5. Investigando que ambos estão igualmente errados. Como se diz:

Se alguém, por ignorância, fizer o mal,
E outro, por ignorância, ficar com raiva dele,
De quem é o erro?
E quem estará livre do erro?

Portanto, seja cauteloso com as falhas e erros e pratique a paciência.

6. Investigando o benefício que se recebe. Ao praticar paciência com alguém que me prejudicou, minhas ações negativas serão purificadas através desta prática. Eu irei aperfeiçoar as acumulações ao purificar as ações negativas e alcançarei a iluminação por aperfeiçoar as acumulações. Portanto, essa pessoa que me prejudica é, na verdade, um grande benfeitor, portanto, eu devo praticar a paciência. Como se diz:

Devido a eles eu irei purificar minhas negatividades,
Aceitando pacientemente os males que eles me causaram e assim por diante.

7. Investigando a gratidão. Sem a perfeição da paciência a realização da iluminação não é possível. Sem os seres que me prejudicam eu não poderei praticar a paciência. Portanto, esse malfeitor é um amigo do Darma a quem eu devo ser muito grato, e, portanto, eu praticarei a paciência. Assim se diz:

Eu deveria ficar feliz em ter um inimigo,
Pois ele me auxilia em minha conduta para o despertar.
E por eu ser capaz de praticar paciência com ele,
Ele é digno de receber
Os primeiros frutos de minha paciência,
Pois, desta forma, ele é a causa da mesma.

8. Investigando que todos os budas ficarão satisfeitos. Como se diz:

Além disso, de que forma melhor podemos retribuir aos budas
Que concedem benefícios incomensuráveis
E que cuidam do mundo sem pretensões,
Do que satisfazendo os seres sencientes?

9. Investigando que ele traz grandes efeitos benéficos. Como se diz:

Pois muitos que os satisfizeram
Alcançaram, desta forma, a perfeição.

Os Bhumis dos Bodisatvas afirmam:

Pratique a paciência cultivando as cinco atitudes: a percepção de sentir-se
próximo àquele que o prejudica; a percepção de que tudo se dá através de
condições interdependentes; consciência da impermanência; percepção do
sofrimento e a percepção de abraçar completamente os seres sencientes em seu
coração.

Primeiro, a percepção de sentir-se próximo àquele que o prejudica. Esse ser senciente maléfico em outras vidas foi um de seus pais, um parente ou professor e você recebeu benefícios incontáveis dele. Portanto, nesse momento, devido a esse tipo de dano, não é razoável retaliar. Portanto, pratique paciência trazendo-o para o seu coração.

Segundo, a percepção de que tudo se dá através de condições interdependentes. Essa pessoa que o prejudica é dependente de condições, apenas um fenômeno projetado. Pratique a paciência contemplando que não há um “eu”, ser senciente, vida ou pessoa que agride, bate, abusa ou critica.

Terceiro, a consciência da impermanência. Por natureza, os seres sencientes são impermanentes e estão sujeitos à morte. Portanto, pratique paciência contemplando que não é necessário matar porque os seres sencientes irão, naturalmente, morrer.

Quarto, a percepção do sofrimento. Todos os seres sencientes são torturados pelos três tipos de sofrimento. Eu deveria dissipar esse sofrimento, e não levar os seres a ele. Portanto, devo praticar paciência com suas ações ao perceber o seu sofrimento.

Quinto, a percepção de abraçar completamente os seres sencientes. Quando cultivei bodicita eu o fiz pelo benefício de todos os seres sencientes; portanto, ao praticar paciência abraçando-os completamente não é apropriado retaliar por pequenos danos.

Gampopa | A Perfeição da Paciência
Gampopa

B) A Segunda Classificação, a Paciência de Aceitar o Sofrimento. Com a mente cheia de alegria e sem tristeza pelo seu sofrimento, aceite voluntariamente o sofrimento da prática que leva à iluminação insuperável. Os Bhumis dos Bodisatvas citam:

… aceitando voluntariamente os oito diferentes tipos de dificuldades como o
sofrimento relativo aos lugares, e assim por diante.

De modo geral, os sofrimentos são estes: ao se tornar um monge ou uma monja você deve passar pelo sofrimento de esforçar-se para conseguir os mantos do Darma, provisões e assim por diante; fazer oferendas, seguir e honrar as Três Joias e os mestres espirituais; ouvir os ensinamentos; oferecer ensinamentos do Darma; recitar orações; meditar; esforçar-se em sua prática de meditação avançando à noite e cedo de manhã sem dormir. Sem ficar triste, cansado, exausto, com calor, com frio, com fome, com sede, perturbado e assim por diante, aceite voluntariamente o sofrimento do esforço para beneficiar os seres sencientes através das onze formas mencionadas anteriormente (no capítulo 13).

Além disso, aceitar o sofrimento voluntariamente é como, por exemplo, passar por uma cirurgia, um
tratamento, para curar-se do sofrimento de uma doença virulenta. Engajando-se na Conduta dos Bodisatvas
afirma:

Ainda assim, o sofrimento envolvido em meu despertar é limitado,
É como o sofrimento de deixar que uma incisão seja feita
Para remover e destruir uma dor maior.

Praticando a paciência você é vitorioso na batalha do samsara; ao aniquilar o inimigo das emoções aflitivas você se torna um verdadeiro guerreiro. Neste mundo, os guerreiros tornam-se renomados por matar inimigos comuns, que possuem a natureza da morte. Mas, eles não são guerreiros – sua ação é como enfiar uma espada em um cadáver. Engajando-se na Conduta dos Bodisatvas afirma:

Os guerreiros vitoriosos são aqueles que,
Desprezando todo o sofrimento,
Vencem os inimigos do ódio e assim por diante;
Os guerreiros comuns massacram apenas cadáveres.

C) A Terceira Classificação, a Paciência para Compreender a Natureza dos Fenômenos. Os Bhumis dos Bodisatvas afirmam:

A aspiração pelos oito temas, tais como as qualidades positivas das Três Joias e assim por diante.

Deseje e pratique pacientemente a realização da vacuidade inerente dos dois tipos de identidade na natureza última.

V. Ampliação.

A paciência será ampliada através de sabedoria primordial, sabedoria discriminativa e dedicação, conforme explicado anteriormente (no capítulo 12).

VI. Perfeição.

A perfeição da paciência é suportada pela vacuidade que tudo permeia e pela compaixão, conforme explicado anteriormente (no capítulo 12).

VII. Resultados.

Devem-se compreender os resultados da paciência nos estados absoluto e convencional. No estado absoluto a iluminação insuperável será atingida. Os Bhumis dos Bodisatvas colocam:

Ao apoiar-se em vasta e ilimitada paciência para produzir o resultado da iluminação,
Um bodisatva irá alcançar a iluminação insuperável, perfeita e completa.

No estado convencional serão conquistadas uma compleição agradável, fama, uma vida longa e será alcançado o estado de um monarca universal em todas as diferentes vidas, mesmo não desejando estes resultados.

Engajando-se na Conduta dos Bodisatvas afirma:

Durante a existência cíclica a paciência causa
A beleza, saúde e renome.
Desta forma viverei por um longo tempo
E conquistarei os vastos prazeres dos reis universais chakra.

Este é o décimo quarto capítulo, que explica a perfeição da paciência, de O Ornamento da Preciosa Liberação,
A Joia que Realiza Desejos dos Nobres Ensinamentos.

Possam todos se beneficiar!

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.