Kipper 19 – 27

Reproduzi no post passado o que se conta da origem do Kipper, dizendo que Susanne, a autora, era versada no Lenormand e criou seu próprio oráculo com imagens que evocassem características de seus compatriotas. Como também afirmei na parte 2, não seria correto, no entanto, dizer que o Kipper é uma versão alemã do oráculo francês.

E apesar de não ter dados históricos para identificar o que é fato e o que é lenda, é fácil fazer uma rápida comparação e reconhecer que o Kipper possui muito mais elementos da Sibila Italiana do que do Lenormand, lembrando que havia outros oráculos à disposição na mesma época e que muitos possuem similaridades, logo, não tem nada de absurdo nisso.

À grosso modo, quatro conceitos se repetem nos três oráculos, a saber: Casa, Caixão, Criança, Carta e Aliança (no Kipper, a carta 3, Matrimônio). A lâmina do Amor no Kipper, por sua vez, agrega dois elementos que encontramos separados nos outros oráculos: amor (Coração no Lenormand e Cupido na Sibila) e amizade/fidelidade (Cão). Forçando (ou não) um pouco a barra, a carta 17 do Kipper, Receber um Presente, pode  ser equiparado ao Buquê do Lenormand, assim como a carta 10, Uma Viagem, traz alguns aspectos do Cavaleiro – a Sibila tem a sua própria lâmina para viagem curta no 3 de Paus.

Na montagem acima, reuni apenas 5 pares que só existem no Kipper e na Sibila Italiana, mas há outros, como Notícia Triste (14), Dinheiro Inesperado (27), Expectativa (28), Prisão (29), Doença Curta (31) e  Pensamentos Sombrios (33), passando rapidamente as cartas pelas mãos – certamente deixei escapar outras.

19. Uma Morte (Ein Todesfall)

É uma carta que estimula conclusões precipitadas em qualquer oráculo, então vamos com calma. São raros os casos em que a carta da Morte aponta para a morte de alguém – e nunca com a carta lida isoladamente.

De qualquer modo, algo chega ao fim, como um processo ou relacionamento. Um objeto perde sua funcionalidade. Tenha em mente, no entanto, que na maioria das vezes não se trata de um fim abrupto, como se algo fosse cortado precipitadamente da sua vida, mas de um processo natural de deterioração que leva à conclusão de um ciclo. Um espaço se abre para outra coisa se manifeste.

A boa notícia é que, diante de uma condição negativa, sabe-se que ela não vai adiante.

A lâmina também revela um clima pesado, carregado de negatividade. Pessoas e/ou ambientes drenam as forças do consulente, alimentam seus medos, tiram o seu sono, seu equilíbrio. Pode ser algo de magia feito para prejudicar o consulente? Pode. Mas nada de paranoias. Pessoas chatas, resmungonas, infelizes e pessimistas também causam este efeito e por vezes a gente nem percebe. Pode ser, inclusive, uma pessoa muito querida que a gente tenta tirar do buraco (mental/emocional/financeiro) sem perceber que está afundando com ela.

É preciso estar consciente do que acontece para se resguardar. Se Ein Todesfall se refere ao próprio consulente, ele deve procurar ajuda psicológica/psiquiátrica ou espiritual. É como um quarto escuro e abafado durante o dia: alguém precisa abrir a janela para deixar a luz entrar e o ar ser renovado.

Sustos estão na pauta. Com a carta 10, por exemplo, cuidado para não se ver envolvido em um acidente de carro – nada fatal, apenas um susto. De forma literal, indica lugares que podem ser associados à morte, como um funeral, cemitérios, matadouros, etc.

20. Casa (Haus)

A Casa está presente em diferentes oráculos com o mesmo significado. De um lado, identifica a residência do consulente, a sua família e/ou aqueles que frequentam a sua casa, como amigos e empregados.

Do outro lado da moeda, temos o aspecto emocional que a carta desperta, como equilíbrio, estabilidade, conforto e segurança.

Com a carta Encontro (4), temos uma certa variedade de leituras, como um festa/reunião que acontece em casa, amigos muito queridos que são como parte da família (ou com quem nos sentimos confortáveis/acolhidos/seguros) ou um grupo fechado, como uma sociedade secreta.

21. Sala de Estar (Wohnzimmer)

Gosto de imaginar as cartas 20 e 21 como aquilo que eu permito que o mundo perceba (20) versus aquilo que eu guardo apenas para mim (ou para poucos) – 21.

Wohnzimmer é muito específica. Pode falar de um espaço reservado em que o consulente se sente seguro ou um pedaço de si que guarda à sete chaves. Esta é uma carta de privacidade e de pessoas com quem possui uma conexão de alma. Dependendo da situação, podendo ser uma boa ou uma má notícia, alguém que conhece um segredo do consulente – ou vários.

Quando falamos de família, também é possível estabelecer uma diferença com a carta anterior, cabendo à 20 os parentes de modo geral e à 21 aqueles que vivem com o consulente.

Dependendo do contexto, entenda como algo que é para poucos olhos e ouvidos. No Mystiches encontrei uma referência extra:  “um período de 24h a 4 semanas”, ou seja, que ocorre em um curto intervalo de tempo. Se é válido ou não, só testando (ou condicionando a carta para este tipo de resposta, em oposição à carta 35, Longo Caminho).

22. Militar (Militärperson)

Achei estranho algumas fontes descreverem esta carta como um homem jovem, talvez um filho, um irmão ou um amante do consulente. Isso não faz sentido para mim. Reicher Guter Herr (13) cumpre perfeitamente este papel. Se é para identificar uma pessoa, prefiro a designação clássica de “alguém de uniforme”.

Mas a figura do Militar vai além da aparência, sendo mais efetiva em descrever um padrão de comportamento. É a cartas das pessoas disciplinadas, honradas, formais, responsáveis, que talvez funcionem melhor dentro de regras rígidas e/ou recebendo ordens, quer seja de um superior imediato ou seguindo as diretrizes estabelecidas de uma instituição, por exemplo.

Como alguém que é treinado para o combate, o raciocínio precisa ser estratégico, o corpo precisa responder à altura do desafio.  O senso do dever talvez o afaste de outras atividades, incluindo as mais prazerosas.

Se a carta vem como conselho, foco na missão. Familiarize-se com as regras e cumpra-as à risca. Quando o Militar está contra o consulente, processos podem se perder em meio à muitas exigências e a inflexibilidade por parte de pessoas e/ou instituições.

23. Tribunal (Gericht)

A interpretação óbvia envolve questões legais levadas à juízo, mas o principal atributo da lâmina é o julgamento que o próprio consulente se vê obrigado a realizar, fazendo escolhas e/ou assumindo claramente seu posicionamento com relação a uma questão. A carta que a acompanha ajuda a indicar em que aspecto/assunto este veredito se faz necessário.

Por ser ilustrada com referências à justiça, o consulente deve ser muito criterioso, avaliando diferentes perspectivas, buscando embasamento e definindo com imparcialidade a sua decisão final, não importa o teor a questão. Aliás, se é algo que o consulte nem está dando muita atenção, é melhor que ele leve (muito) a sério.

O Malkiel não fala nada disso e coloca o Tribunal como uma carta que identifica instituições públicas ou privadas. Com a carta 11, Ganho de Muito Dinheiro, seria um banco, por exemplo.

24. Roubo (Diebstahl)

Carta de perda, sendo que esta pode ocorrer realmente pela ação de alguém (roubo/furto/fraude) ou pela imprudência do consulente (esquecimento de um objeto, investimento equivocado em um projeto, etc.). De acordo com a carta que a acompanha, identificamos se a perda é financeira, material, de relacionamento (amor/amizade) ou de vitalidade.

Malkiel estabelece diferenças quando a carta está acompanhada. Se a outra carta estiver à direita da Diebstahl, este tema está seguro; se estiver à esquerda dela, é o que está para ser perdido/roubado.

Há quem afirme que, junto à carta Matrimônio (3),  possa indicar que o consulente está perdendo a parceira, talvez por sua desatenção com relação a ela (o que não descarta qualquer outra condição em que ele não tenha nada a ver com isso), ou porque ela trai o consulente com outro “pois se trata de um ato de desonestidade” com ele. Eu entendo que “ato de desonestidade” possa envolver algumas outras coisas, por isso teria muito cuidado antes de fazer uma afirmação dessas.

25. Grandes Honrarias a Caminho (Zu Hohen Ehren Kommen)

A princípio, a carta mostra duas realidades, a do castelo e a do casebre, sendo o castelo a meta a ser alcançada pelo consulente. O sucesso parece estar garantido (promoção no trabalho, aprovação no concurso, um projeto que é bem executado, etc.) contanto que haja dedicação, aprimoramento e perseverança. Ainda que tudo pareça difícil, acredite, você pode fazê-lo.

O movimento é sempre ascendente. O consulente deve procurar aquilo que tenha este sentido, que seja mais refinado. Há melhoras em todos os aspectos. Também reconhecimento e recompensa(s).

Outra referência é quando a carta se refere a algo, e não a um processo. Considere sempre algo de grande valor, como um item caro, sofisticado, delicado. Talvez uma obra de arte. Os lugares também são frequentados por formadores de opinião, pessoas famosas e/ou de alto poder aquisitivo.

Outra indicação é um pessoa/grupo da alta sociedade ou pessoa/grupo que integre a cúpula de uma empresa, como acionistas, presidente e diretores do primeiro escalão.

26. Grande Fortuna (Großes Glück)

Antes de qualquer outra coisa, entenda fortuna como “boa sorte”, “felicidade”, “destino” e “ventura”, e não apenas “riqueza”.

É uma carta mágica: reforça as positivas e atenua as negativas que a acompanham. Como é de se esperar, fala de sucesso, conclusão bem sucedida, reconhecimento, abundância, etc. Desejos se realizam.

Algumas fontes falam da carta à direta ou à esquerda da Pessoa Principal (1/2), mas elas olham para direções diferentes, logo, prefiro considerar que se está nas costas do consulente, ele está pensando na felicidade como algo que procura ou está na expectativa de concretizar, mas sem maiores certezas; se está à sua frente, ele se encaminha ao seu encontro,  quer saiba disso ou não.

27. Dinheiro Inesperado (Unverhofftes Geld)

Esta carta pode gerar dúvidas com relação à carta 11, Ganho de Muito Dinheiro. Então vamos lá: podemos considerar a carta 11 como representativa de “grande dinheiro” e a 27 de “pequeno dinheiro” – esse é um ponto.

O outro é que a carta 11 fala de um dinheiro onde não houve esforço algum ou que, proporcionalmente, foi muito mais dinheiro do que o esforço empreendido. A sorte do consulente, por assim dizer, é um fator predominante. Na carta 27, apesar do “inesperado” do título, existe algo que justifique a entrada do recurso.

Malkiel fecha com o atributo de contrato assinado, informação que também encontrei em outros lugares. O consulente deve esperar por melhorias graduais, não importa o tema da previsão. Alguns autores também falam de dinheiro encontrado nos bolsos e gorjetas, o que também acho legal.

No trabalho, a carta 25 promete promoção (mudança de cargo), a 27, aumento de salário e gratificações ocupando a mesma função.

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