A Casa: Blogagem Coletiva

French Lenormand
French Lenormand

Depois de participar da blogagem coletiva sobre as Figuras da Corte, com o Rei de Paus, volto em outra campanha, agora explorando as lâminas do Lenormand. Pedi para escrever sobre a carta de número 4, A Casa. Aproveite e comente.

Ok, dificilmente este é o seu primeiro texto sobre o Baralho Lenormad (aka Baralho Cigano), logo, as palavras-chaves de cada lâmina não lhe são de todo desconhecidas.

Sim, eu sei que você estranha que o Trevo em alguns lugares seja descrito como “sorte” e, em outros, como “paus e pedras no caminho”, mas os atributos da Casa permaneceram inalterados ao longo do tempo e independente das escolas, o que facilita bastante a vida.

A Casa, por sinal, está presente em outros oráculos, como o Kipper alemão, a La Vera Sibilla italiana e a La Sybille des Salons francês, entre outros, guardando sempre os mesmos significados.

A Casa em diferentes oráculos
A Casa em diferentes oráculos

Em resumo, encontramos nesta imagem muito simples quatro grandes linhas de interpretação:

· O espaço físico que o consulente entende como sendo a sua casa, incluindo todas as questões de ordem doméstica (cuidados com relação a conforto, segurança, manutenção, etc.) e as pessoas que dividem este espaço – parentes ou não.

· A família (núcleo familiar, antepassados, parentes, etc.) como identidade e elemento de formação, exercendo influência constante na vida do consulente.

· A casa como ponto de apoio emocional, oferecendo segurança, equilíbrio e estabilidade.

· Espaços físicos específicos, quando combinada com outras cartas, como escola de ensino fundamental (com Livro), pequeno negócio ou home office (com Peixes) e templo religioso (com Estrela ou Cruz), por exemplo – para ensino superior, grandes organizações e mosteiros, considere a Torre no lugar da Casa.

Acrescento à lista a Casa associada ao corpo físico, morada da alma, tanto nas pautas de saúde (Árvore) quanto no aspecto espiritual, como algo que não deve ser preterido em nome daquilo que o consulente considera mais elevado, pois o corpo é a sustentação do ser, seu veículo nessa existência. Obviamente, para cada opção é preciso analisar o contexto.

Então, se é isso, poderíamos parar por aqui, não?

Poderíamos, mas vou além.

A segunda letra do alfabeto hebraico, e a primeira da Torá, é Beit, que significa “casa”. Na sua primeira representação, Beit possuía a forma de uma tenda e, com ela, temos dois grandes ensinamentos: o primeiro faz referência à tenda do patriarca Avraham, que possuía três lados abertos (exceto o Norte, por “onde entra o Mal”), representando a hospitalidade.

Avraham recebe os Três Anjos
Avraham recebe os Três Anjos

A hospitalidade, para o judeu, tem tamanha importância, que você pode se recusar a fazer parte de um minyan (quórum mínimo de dez homens adultos necessários para a realização de algumas liturgias) ou pode se abster/interromper o estudo da Torá para ser hospitaleiro com outra pessoa – em especial, desconhecidos, o que aumenta o mérito da ação.

Letra Beit
Letra Beit

Trazendo para o Lenormand, esta hospitalidade pode ser vista como acolhimento em diferentes sentidos. Não apenas a generosidade que auxilia quem precisa, desprovido de interesse, como a receptividade para o novo. O famoso “pensar fora da caixa” só é possível se você se arrisca por caminhos que não são familiares, logo, fora da zona de conforto que a Casa, simbolicamente, representa.

O segundo ensinamento é a clara distinção entre “dentro” e “fora” – Beit, como prefixo, sempre indica o movimento para dentro daquilo que a precede. Saber o momento certo de se voltar para dentro e quando se voltar para fora ou como se preservar internamente das influências (nocivas) do mundo exterior são alguns desdobramentos deste atributo. Por ter valor numérico 2, Beit se refere às dualidades, de modo geral, mas vou me ater à principal para o que nos interessa com relação à carta.

Neste sentido, a Casa fala de privacidade e de recolhimento estratégico (diferente de isolamento, que é coisa de Torre), por vezes necessário para recuperar as forças ou botar o foco no lugar certo.

Chagall, David with his harp (M. 133), 1956
Chagall, David with his harp (M. 133), 1956

Esta dualidade “dentro” e “fora”, por sinal, é curiosa, pois o homem íntegro, ainda com base em ensinamentos judaicos, é tido como aquele que “fora” de casa não é diferente de como é “dentro” dela ou aquele que não expressa (fora) algo diferente do que traz dentro de si, mostrando que, na verdade, dentro e fora são conceitos ilusórios da nossa percepção limitada.

Esta integridade está presente na expressão “voltar para casa”, que muitas vezes ganha contornos religiosos, como “voltar-se para D’us” depois de um descaminho qualquer, mas, em especial, se refere ao resgate do Eu Autêntico, livre de máscaras e idealizações.

Fico imensamente tentado a falar do Rei de Copas como representação de David haMelech, o pastor, rei e poeta de Israel, por ele ser reproduzido em diferentes baralhos com uma harpa, mas a associação de naipes e imagens é um tema controverso, mesmo que seja muito mais simples escrever sobre uma figura da corte, por isso fica para uma próxima oportunidade.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.