Lenormand: a Serpente de Cobre e a Exaltação da Santa Cruz

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” – Mateus 11:15. Soa profético, mas só veio a calhar porque estava pensando no Lenormand durante uma missa. E é assim mesmo: a gente aprende sobre uma linguagem codificada e vai juntando as peças aqui e ali.

Participei de uma missa de sétimo dia que aconteceu no dia 14 de setembro. A data é dedicada à Exaltação da Santa Cruz e o padre aproveitou a falar a respeito. A paróquia onde a cerimônia aconteceu é uma velha conhecida da minha infância. Na parede do fundo podemos ver a imagem de Cristo de braços erguidos sobre uma parede que simula o céu. Gosto disso.

Bom Pastor
Altar da Paróquia do Bom Pastor, em Campo Grande (RJ)

Os eventos da última ceia, crucificação e sepultamento de Jesus Cristo fazem parte do enredo da “Sexta-feira da Paixão”. Rememorar essas passagens cumpre uma função, mas, a meu ver, não deveria ser o que primeiro vem à mente. É o que, na maioria das vezes, acontece comigo e talvez aconteça com você também. Todo o martírio é repetidamente citado no discurso cristão. A cruz como emblema do sacrifício. “Ele morreu por você”, enfatizam, como quem vende culpa.

No dia 14, no entanto, o foco é somente a cruz como expressão da salvação e da vitória. Há textos que voltam aos últimos dias e eu vou ignorá-los. Me parece falta de repertório. Gostei mais das coisas que o padre disse, lembrando que Jesus não está na cruz. A exemplo da representação na paróquia, deveríamos fechar os olhos e visualizar a Sua ascensão – penso eu.

Pesquisando no Google, encontrei duas referências que justificam o culto. Vamos a uma delas:

A Batalha da Ponte Mílvia

No ano de 312, Constantino I se preparava para combater o exército de Magêncio na Ponte Mílvia, perto de Roma. Quem quiser saber do contexto histórico, confere o link. A desvantagem numérica era expressiva. Na noite anterior à batalha, contudo, teria surgido nos céus uma revelação que mudou tudo. Alguns autores dizem que foi um sonho de Constantino, não importa. O fato é que uma cruz apareceu iluminada com a inscrição latina in hoc signo vinces” (“com este sinal vencerás”). Isso fez com que ele ordenasse a pintura da cruz em todos os escudos. Seja por milagre ou motivação dos soldados, Constantino obteve uma vitória surpreendente sobre o inimigo e unificou o Império Romano.

Ele mesmo não era e e nem se tornou cristão após este evento. Entrou para a História, contudo, como o primeiro imperador a apoiar o estabelecimento do cristianismo em Roma. Podemos ressaltar aqui tanto a vitória do homem quanto da comunidade cristã da época.

Visão de Constantino
Visão de Constantino – Rafael Sanzio

Talvez alguns tenham pensado, neste ponto, na mesma coisa que eu: a cruz do sofrimento x a cruz da vitória. Onde já ouvimos (lemos) sobre isso antes?

Lenormand: Escola Europeia x Escola Brasileira

Hoje temos clareza que o Lenormand nasceu como um jogo de salão, a exemplo de outros tabuleiros da época. Nas regras do Jogo da Esperança, o sucesso era assegurado a quem alcançasse a casa 35, a Âncora. Se o participante fosse conduzido à última posição, a Cruz, era penalizado.

Não por acaso, na visão mais antiga da carta a Cruz está associada aos sofrimentos, dores, perdas e sacrifícios. Os atributos fazem sentido com a imagem do Cristo na cruz, embora nenhuma carta traga esta ilustração.

Eu aprendi o Lenormand, há mais de 20 anos, ainda com o nome de “baralho cigano”. Tanto na ilustração do baralho quanto na explicação da instrutora o indicativo era de sucesso e superação das dificuldades. No começo eu lia assim.

Quando se adota o critério de distâncias, encontramos clara a diferença entre escolas na figura do Urso, por exemplo. Perto da carta do consulente, o Urso indica força, recursos materiais e proteção de um aliado poderoso (escola europeia). Longe, alerta para inimigos invejosos e, talvez, com grande influência dentro do contexto (escola brasileira).

Com relação à Cruz, no entanto, o discurso não muda: o sofrimento é apenas atenuado quanto mais longe do consulente a carta se encontra. Trabalhar com um atributo ou outro depende da escola que se adota ou do insight do momento.

A Serpente de Cobre

O padre não parou aí e mencionou uma passagem do Velho Testamento – a Torá para os judeus. Ao longo do ano os cinco livros da Torá são divididos em 52 porções semanais chamadas parashiot. Cada parashá tem um nome. A parashá de Chukat, em especial, parece final de temporada de série americana e nela acontecem várias coisas, o que é um tanto incomum. Morrem Miriam e Aaron. Moshé faz brotar água da pedra, mas é condenado a não entrar na Terra Prometida. Temos também o ritual de purificação com as cinzas da Pará Adumá, a “vaca (toda) vermelha” e a cura promovida pela Nachash HaNichoshet, a “serpente de cobre”. Este é o ponto que nos interessa.

Bamidbar (“No deserto”) – Números 21:4-9

4 Então partiram do monte Hor, pelo caminho que vai ao Mar Vermelho, para rodearem a terra de Edom; e a alma do povo impacientou-se por causa do caminho. 5 E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para morrermos no deserto? pois aqui não há pão e não há água: e a nossa alma tem fastio deste miserável pão. 6 Então o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que o mordiam; e morreu muita gente em Israel. 7 Pelo que o povo veio a Moisés, e disse: Pecamos, porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor para que tire de nós estas serpentes. Moisés, pois, orou pelo povo. 8 Então disse o Senhor a Moisés: Faze uma serpente de cobre, e põe-na sobre uma haste; e será que todo mordido que olhar para ela viverá. 9 Fez, pois, Moisés uma serpente de cobre, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, tendo uma serpente mordido a alguém,  quando esse olhava para a serpente de cobre, vivia.

Os hebreus, basicamente, reclamavam de tudo. A primeira geração ainda era pior do que a segunda. Com as mortes de Mirim e Aaron, a água e o alimento (na forma de maná) desapareceram. Tudo era entregue, até então, de mão beijada. Eles alegaram, antes do trecho acima, que tinham “perdido o apetite”, que nunca tinham nada (para comer) além de maná. A palavra usada para “apetite” é nefesh, que também se aplica à vitalidade e à alma corpórea, mais rudimentar.

Eles não tinham justificativa para reclamar de fome, pois alimento não lhes faltava, mas eram conduzidos pelo desejo de carne, alho, pepinos e melancias – assim está escrito. Eles estavam “pensando com a barriga” e, neste momento, D’us libera serpentes que os atacam, seres que rastejam sobre os seus ventres.

Alguns rabinos dizem que, por todo tempo que vagaram pelo deserto, não tinham encontrado serpentes no caminho, sendo que este é o habitat natural delas. D’us não faz com que as serpentes apareçam, mas retira a proteção as mantinham longe do acampamento. Elas surgem em grande quantidade e provocam muitas mortes. “Eu era feliz e não sabia”. Quando reconhecem o seu erro, clamam pela intervenção de Moshé e D’u ordena que ele coloque no alto de uma haste uma serpente de cobre. Aqueles que foram picados olham para a Nachash HaNichoshet e são curados.

Nachash e nichoshet possuem a mesma raiz. São palavras correlatas. Alguns textos dizem que a serpente era de bronze, mas nichoshet se refere ao cobre de cor reluzente e avermelhada. Há vários códigos no texto.

Serpente de Bronze
Moisés cura os hebreus aflitos com a serpente de bronze – Julius Schnorr von Carolsfeld

Nachash é uma palavra que nos acompanha desde o Pecado Original. Serve para “serpente” de forma genérica e “a serpente” do Gan Eden. É um dos nomes dados ao Satan. Também se refere a uma fala sibilante, sedutora ou de encantamento. É a nossa má inclinação, o nosso egoísmo. A pessoa não se sente má, não acha que está fazendo algo errado, mas a sua lógica é distorcida (pela serpente) para a realização da sua vontade.

E por que a serpente no alto da haste era de cobre? Existe um código para ouro, prata e cobre na Torá. Não quero me estender sobre isso para não perder (ainda mais) o rumo das coisas. O cobre equivale ao rashá, o “perverso”, aquele que não respeita à D’us e nem ao próximo. De novo, nachash e nichoshet são palavras correlatas. O cobre iria funcionar como antídoto para a picada da serpente ao ser erguido em um haste. A alma animal, nefesh, é literalmente elevada. Tira a barriga (e órgãos sexuais) do chão.

O padre não falou nada disso que escrevi como explicação. Citou esta passagem porque, em algum momento, Jesus se comparou à Serpente de Cobre. Por que isso? Porque se “alcança a cura” ao olhar para cima, seja para ver a serpente na haste ou Jesus na cruz. Encarar a Serpente de Cobre é olhar para a raiz da sua dor, da sua vergonha. É constatar que a situação atual é fruto de escolhas imprudentes. Escolhas guiadas pela sua “fome”.

Lenormand: a Serpente é sempre o outro

Temos o (mau) hábito de só ver o que é ruim no outro. As leituras do Lenormand onde aparece a Serpente (7) nos alertam sempre que existe uma ameaça que “vem de fora”. É sempre “alguém” que nos prepara uma armadilha. É interessante observar se não somos nós a Serpente ou se a Serpente não está do outro lado da mesa pedindo um conselho.

Ovo Órfico
Ovo Órfico

Como anda o nosso apetite? E o nosso senso de urgência? O quanto não estamos distorcendo os fatos para justificar nossas atitudes? Algumas pessoas tentam extrair algo de bom da carta falando da Kundalini, mas isso soa muito abstrato. Parece bonito, causa algum efeito, mas é abstrato. Falar de uma energia espiritual adormecida tem hora e lugar.

Penso em algumas pessoas que atendo e as necessidades imediatas que precisam ser saciadas. Discutem comigo como se dependesse de mim mudar o que as cartas indicam. Muitas vezes não seguem a orientação pela qual pagaram para receber e depois voltam com um “putz, bem que você falou”. O impulso, o apego, o ego, os medos e o apetite são fortes. A gente não eleva a Kundalini se, antes disso, não eleva a consciência. O inimigo não está fora, mas dentro.

A combinação das cartas

De um modo geral, se um jogo traz a combinação de Serpente + Cruz ou Cruz + Serpente, a mensagem é pesada de qualquer maneira.

Deixando claro que estou fazendo um exercício simbólico dentro de perspectivas não-ortodoxas, é interessante pensar que a Serpente seguida da Cruz possa ser indicativo de ameaça à santidade.

“Santidade”, em hebraico, é kedushá. O estado de kedushá é uma condição de “separação” ou “distinção” – outras duas traduções possíveis. Isto significa ser capaz, mesmo fazendo parte deste mundo repleto de ambivalências,  de distinguir entre o santo e o profano, entre o puro e o maculado, entre o que eleva e o que rebaixa, fazendo escolhas que preservam a nossa integridade.

Apesar das expressões, a interpretação não se prende a um aspecto espiritual, tenha isso em mente. Quando a Serpente se aproxima, devemos redobrar nossa atenção, observando com cuidado as nossas queixas e como reagimos ao desconforto. Não olhe para o efeito, mas para a causa: o que, de fato, está errado nesta equação? Até que ponto o consulente é responsável pela situação em que se encontra?

The Blue Owl Lenormand
The Blue Owl Lenormand

E o contrário? Ok, me chame de louco, mas lembrei de São Patrício enquanto escrevia. Um dos seus feitos foi o de expulsar as serpentes da Irlanda. Isso é contestado porque dizem que elas não existiam por lá, mas vamos tomar como verdade para os nossos propósitos. Por outro lado, serpentes eram uma forma de se referir aos celtas e seus cultos pagãos.

São Patrício e as serpentes
São Patrício e as serpentes

Trazer a Cruz na frente da Serpente pode ser um sinal de exorcismo. O curioso disso é que as forças malignas não temem a cruz por si só: é preciso portá-la com convicção.

Vale para qualquer tipo de ameaça, qualquer tipo de abuso. Muitos buscam por soluções talismânicas, mas a força está parcialmente nos objetos. É preciso acreditar em si mesmo e no alinhamento de seus pensamentos e atitudes a um propósito.

A vida parece que vai carregar você em um tsunami. Mantenha o foco e faça o que precisa ser feito sem sucumbir aos venenos da mente ou ao caos coletivo. Lembre das palavras da sua mãe: “você não é todo mundo”.

A cruz não surgiu no céu e o exército de Magêncio foi imediatamente fulminado. Constantino acreditou no sinal e teve que lutar. Sem empenho não haveria vitória.

Algumas meninas mal conhecem o cara e fazem mil planos, mesmo que as cartas não apontem afinidades e sentimentos de afeição – delas, inclusive. Parecem querer “abraçar a oportunidade”. As histórias se repetem (e são desastrosas) porque depositam a solução no outro. Temem que se não pegar este ônibus (que nem vai para onde desejam), outro pode demorar para passar – ou nem isso. Sentem o cheiro de roubada, mas se jogam.

Tudo isso é Serpente + Cruz. “A Cruz sagrada seja a minha Luz. Não seja o Dragão meu guia. Retira-te Satanás! Nunca me aconselhes coisas vãs. É mal o que tu me ofereces. Bebe tu mesmo do teu veneno!” – Oração da Medalha de São Bento.

A disposição inversa protege o consulente dos erros e enganos. Faz a Serpente recuar. A Serpente de Cobre cura o indivíduo da picada da serpente comum.

Os estudiosos da Torá dizem que o Pecado Original não foi Adam e Chavá terem comido do fruto proibido, mas terem jogado a culpa de um para o outro quando questionados a respeito. Às vezes a gente faz as perguntas certas dentro de uma consulta e desconstrói fácil todo o discurso na linha “a vida me odeia”.

Assuma responsabilidade (diferente de “culpa”) pelos seus atos. Encare de frente os seus desafios. Faça suas escolhas com sabedoria. Tenha fé em si mesmo e seja fiel a seus propósitos. Estas são as armas (a Cruz) para enfrentar o Adversário. Boa sorte! :)

The New York Lenormand
The New York Lenormand

Possam todos se beneficiar!

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.