A arte de tomar decisões certas


Foi Tomás de Aquino que disse recta ratio agibilium, definindo a  virtude da Prudência como “a reta razão do nosso agir”.

A Prudência é representada no Tarot pelo Eremita, arcano emblemático de muitos profissionais que desejam passar a ideia de terem alcançado a verdadeira sabedoria. Ainda assim, não são poucos os que torcem a cara e a vêem como a carta do homem velho, lento, ultrapassado, rabugento, solitário e depreciações afins – com certeza algo de origem cultural, pois os anciãos no oriente são extremamente valorizados por tudo o que já viveram e são capazes de transmitir para as novas gerações. {imagem: Mantegna Tarot}

Na iconografia clássica, Prudentia é vista como uma jovem que segura um espelho em uma das mãos e uma cobra agitada na outra. Variações podem apresentá-la com duas faces (uma feminina na frente e uma masculina atrás), com um espelho também de duas faces, com a cobra enroscada no seu braço ou no chão aos seus pés, ora dominada ora em posição de bote – ok, o Mantegna colocou um pequeno dragão, mas cobras e dragões são correlatos.

Com o espelho ela olha para si mesma, representando o ”conhece-te a ti mesmo” do Templo de Apolo, em Delfos, na Grécia. Quando o espelho tem dupla face, a ideia é que qualquer um que se aproxime para pedir conselho também se veja refletido e descubra que a solução/resposta não está no outro. Isto também me lembra a uma frase que o povo do calendário maia usa, In lake’ch (”Eu sou outro você”), e o pensamento budista de que somos todos Buda.

A mão que segura firme a cobra ou a tem enroscada no braço mantém o animal sob controle. Fundamentos bíblicos justificam que a cobra é o animal mais astuto sobre a terra (Bereshit – Gênesis 3:1) e aqui pode representar tanto o instinto primitivo e a má inclinação como os mecanismos da mente que tentam burlar o bom senso com argumentos que parecem fazer todo o sentido do mundo, mas não passam de engodo.

Os gnósticos preferem a cobra no chão e dizem que ela representa uma iniciação pela qual Prudentia deve passar. Há inclusive uma imagem em que ela parece levantar a saia de forma convidativa para a cobra (palavras da Gnose, não minhas), mas acho que cada um vê o que quer e isso para mim é coisa de tarado… ;)

A cobra reaparece no Eremita do baralho idealizado por Oswald Wirth. Em seu livro, The Tarot of the Magicians, descreve a imagem com um grau a mais de sofisticação simbólica. A cobra, de fato, está associada ao que chama de “desejos egoístas” e ele censura a alusão bíblica da mulher alada que esmaga a cabeça da serpente com o pé e se julga capaz de domar a animalidade humana através da força. {imagem: Oswald Wirth Tarot}

O Eremita de Wirth, em sua sabedoria, prefere “lançar um encantamento sobre a cobra” – seja lá o que ele entenda por isso – para fazer com que ela suba enroscada pela vara. O texto fala do bastão de Aesculapius, deus romano da saúde, que virou símbolo da medicina, mas sabemos que ele descreve o despertar e elevação da serpente Kundalini pela coluna vertebral, trazendo vitalidade para todos os chakras – por isso o cajado, em alguns baralhos, é uma vara de bambu com 7 nós – até a plena iluminação ao alcançar a Coroa.

Vamos combinar que não se trata de uma tarefa para calouros. Muitos enlouqueceram tentando fazer isso. Somente a maturidade (que não tem necessariamente a ver com a idade) e a disciplina permitem a prática do Tantra, por exemplo, que é uma técnica que converte a força do desejo em sabedoria espiritual.

Prudência não é cautela

É muito comum atrelarmos a lâmina do Eremita ao conselho de cautela, até porque a temos como sinônimo de prudência nos dicionários, mas é preciso fazer algumas distinções importantes.

Acautelar-se implica em ter a garantia do resultado desejado, prevenindo-se de surpresas, inconveniências e/ou danos. O cauteloso é desconfiado, tem receios e reluta em correr riscos. Não seria exagerado dizer que a sua atenção é maior no que pode dar errado do que no que espera que dê certo.

O prudente, por sua vez, é aquele que vive o momento – o “aqui e agora” – plenamente consciente de si mesmo e da realidade ao seu redor, atuando de acordo com as contingências, ou seja, o que pode dar certo e o que pode dar errado. Agir com consciência é saber o que está fazendo e porque o faz (sua real motivação), assumindo total responsabilidade pelos resultados.

Pensei muito sobre isso em um jogo recente com o conselho de Eremita + 8 de Paus. Parecia uma tentativa de misturar água e óleo. “Não há nada que se possa fazer ao mesmo tempo com cautela e com rapidez”, dizia minha  avó, mas o que a combinação sugeria era um estado de atenção e presteza para não ser apanhado desprevenido.

Cada coisa tem o seu tempo. Existe uma diferença entre o lento e o lerdo, mas a gente, de modo geral, trata os dois como se fosse a mesma coisa. O que geralmente ocorre em uma consulta de Tarot é que a reação ao tempo varia muito de acordo com a expectativa de quem faz a pergunta.

É preciso tomar muito cuidado ao rotular o Eremita como um arcano moroso, pois a sua idade avançada representa, principalmente, sabedoria, maturidade e experiência, não necessariamente falta de vigor ou de capacidade de realização.

Uma luz na escuridão

O Eremita caminha à noite portando uma lanterna que lhe dá firmeza com relação aos seus passos para que não pise em falso. A limitação deste instrumento reforça a ideia do aqui-agora, pois a luz não se estende muito além para qualquer direção. Ele é muitas vezes tido como uma referência para outros, inclusive, porque ainda que não consiga ver longe, ele é visto por outros à distância, tal qual um farol.

A noite é domínio da lâmina da Lua, o Arcano 18, com forte ligação simbólica e numerológica com o Eremita, pois seus números não apenas se reduzem a 9 (1+8) como é o seu dobro – seria Prudentia se olhando no espelho?

Eremita e Lua são forças antagônicas. Temos o arcano do discernimento e da visão das coisas como elas são de um lado e o dos enganos e das ilusões do outro. Mal-entendidos, fofocas, situações obscuras? Para lidar com situações desequilibradas da Lua, desperte o Eremita que traz dentro de si. Ele não tem a força do Sol para banir a escuridão, mas serve como um Fio de Ariadne no labirinto, resolvendo uma coisa de cada vez.

Confesso que vivi

A carta do Eremita exalta a sabedoria, mas não exatamente a sabedoria da Papisa ou do Papa, obtida através de livros e ensinamentos transmitidos de geração a geração, mas algo que se revela pela vivência e introspecção – na verdade, este revezamento entre “fora” e “dentro”. Não existe nele nada de acadêmico ou filosófico, ainda que muitos o vejam assim. {imagem: Dame Fortune’s Wheel Tarot}

Que fique bem claro que Eremitas, Papas e Papisas coexistem em nós. Não é uma questão de um ser melhor que outro – cada coisa tem o seu momento e densidade.

O Ermitão mistura “sabor” e “saber”, duas palavras que derivam de sapere e indicam que a gente só pode falar de verdade daquilo que experimentou. Ele pode ser uma pessoa sem qualquer cultura e isso não o impede de ser sábio. Efetivamente, representa alguém que digere a vida.

Na Árvore da Vida judaica, Sabedoria e Inteligência estão no ponto mais alto de duas colunas diferentes. Quando as duas se combinam, temos o Conhecimento que, curiosamente, é uma sefirah que existe mas não é graficamente traçada.

Algumas tradições descrevem o processo de iluminação como algo que se constrói através de muitos ensinamentos, mas só acontece depois que você abre mão de todos eles – o que às vezes pode ser muito difícil. Há também os que recomendam a meditação constante para que a compreensão teórica efetivamente integre à nossa mente e ao nosso coração, convertendo-se em ação natural. De nada vale passar o dia pregando a compaixão se na primeira oportunidade de demostrá-la nos deixamos dominar pela raiva, por exemplo.

Quando escrevi sobre a Roda da Fortuna, coloquei que, no Tarot de Marseille, o Eremita fica de costas para a Roda não porque a evita, mas porque passou por ela e está de volta para compartilhar suas experiências.

Religião x Espiritualidade

A espiritualidade, como princípio, deveria permear todas as atividades humanas, manifestando-se na forma como lidamos com a vida  (suas oportunidades e desafios) e, principalmente, na forma como lidamos com o outro.

As coisas não se tornam mais fáceis para que melhoramos, mas, a partir do momento que melhoramos, se tornam mais fáceis.

É muito comum achar que a espiritualidade depende de uma religião, mas isso não é verdade. A espiritualidade tem a ver com a consciência de si mesmo e da vida que flui através de nossos pensamentos, palavras e ações; um estado de receptividade e atenção, se é possível resumir assim.

A espiritualidade (ou a religiosidade, para resgatar a expressão religare) é uma vocação natural do Eremita, que segue a frase de António Machado “caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao andar”.

O Papa, por sua vez, representa uma instituição e seus dogmas. Ele é o Pontifex Maximus, que serve de intermediário entre os homens e a divindade que estes têm por referência e (re)transmite as regras que precisam ser respeitadas para que o canal permaneça aberto e a bênçãos cheguem continuamente. Dei um exemplo disso no post da Justiça com relação à alimentação.

A imagem tradicional do Papa é do sacerdote diante de dois acólitos, que pedem a sua bênção e conselho. A imagem tradicional do Eremita é de um homem sozinho com o seu cajado e sua lanterna.

Quem me acompanha há algum tempo já teve ter lido minha crítica, por exemplo, ao Eremita do Connolly Tarot. Primeiro porque, ao colocar mais de uma pessoa na ilustração, você tem que refletir qual o seu papel: o que busca ou o que oferece uma resposta; segundo, porque a imagem reforça, como um todo, a ideia de que a resposta está fora, e não dentro – o que é um erro. {imagem: Connolly Tarot}

A religião não vive sem a espiritualidade, mas o inverso não verdadeiro.

A espiritualidade não requer, necessariamente, porta-vozes, livros, ídolos ou templos. Nós somos o templo que guarda toda a sabedoria do mundo e a vida oferece todo o ensinamento que necessitamos se soubermos identificar os sinais. Ocorre que esta sabedoria esta encoberta por muitos obscurecimentos da mente – medos, raivas, falsas crenças, etc – que precisam ser removidos um a um através da contemplação que leva ao autoconhecimento e à harmonia com o Todo.

Solidão x Solitude

O Osho Zen Tarot, muito apropriadamente, adota o nome Solitude para o Arcano IX e explica que a solidão – um atributo freqüentemente associado ao Eremita – “é uma solitude mal interpretada”. Você pode estar só e se sentir plenamente preenchido ou se sentir vazio próximo a outras pessoas – mesmo as muito queridas. Nas suas palavras, “a solidão é pobre, negativa, escura, melancólica”, “é ausência do outro” – no sentido da falta que o outro lhe faz.

É preciso ter cuidado quando se identifica ou se aconselha o isolamento através de um jogo. Uma coisa é dedicar um tempo para ouvir a si mesmo; outra coisa é a fuga “das dores do mundo”. Como escrevi antes, é preciso intercalar o dentro e o fora. Vida é relacionamento. Quando nos isolamos do mundo de forma radical, algo de saudável deixa de acontecer. Mais que isso, o Eremita nos ensina que para se relacionar bem com o  outro é preciso se relacionar bem consigo mesmo. É preciso gostar da própria companhia.

O cerne da questão é que não precisamos do outro para sermos  felizes. Os relacionamentos devem ser estabelecidos pelo prazer que eles, eventualmente, podem vir a oferecer, não pela necessidade de tê-los; não pela expectativa de que eles irão lhe suprir em alguma coisa .

“Um dia você aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou” — William Shakespeare.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.