A dose certa diferencia o veneno do remédio


Começo hoje os posts de encerramento da série Virtudes escrevendo sobre a Temperança. {imagem: Isis Tarot of Marseilles}

Algum engraçadinho talvez diga: “do jeito que demorou para sair, só poderia ser a Temperança mesmo”, mas este é um dos equívocos que espero desfazer, pois o Arcano XIV não é a carta das coisas insossas e das demoras desnecessárias, como muitos acreditam.

A frase utilizada como título é atribuída a Paracelso. Se ele não disse exatamente isso, passou perto, pois são muitas as variações disponíveis na rede e escolhi a que me pareceu mais próxima do que eu me lembrava.

Ela cai muito bem quando observamos as primeiras representações da Temperantia, que traz uma mulher que dilui o vinho de uma taça com um pouco de água de uma ânfora.

A figura da Temperança, inicialmente, é um apelo à moderação que surge junto com a preocupação relativa aos excessos associados, principalmente, à comida, à bebida e ao sexo.

Não se trata, contudo, de uma proposta de abstinência. Como pregava Aristóteles, “tanto a deficiência como o excesso de exercício destróem a força”, logo, antes de qualquer outra coisa, é o reconhecimento do que é saudável e o trabalho para permanecer dentro destes limites.

Temperança deriva de temperar e entendemos que o tempero realça um sabor quando, na verdade, temperar tem por objetivo suavizar (tornar mais brando) aquilo que é temperado.

O vinho diluído em água tem o seu teor alcoólico reduzido, diminuindo, também, o risco da embriaguez. Talvez sirva de ícone por ser o elemento com possibilidade de “maior estrago social”. Desde de Noah (Noé) que o vinho tem má fama, mas entre os judeus é revelado que o valor numérico de yayin (“vinho”) e sod (“secredo”) é o mesmo (70), sendo sod um nível de profundo conhecimento dos códigos presentes na Torá.

Tomado na dose correta, “o vinho entra e os segredos [do Universo] emergem”, ditado muitas vezes alterado com uma conotação negativa para “o vinho entra e as palavras saem” exatamente porque as pessoas se perdem no torpor do álcool.

Água e vinho, contudo, compartilham de outra referência simbólica: na tradição judaica (me esquivo de usar o termo Cabalá pelo que Cabalá se tornou na cabeça das pessoas) a água está associada à Chessed (Misericórdia) e o vinho à Guevurá (Severidade), de modo que colocar água no vinho também pode ser interpretado como adição de Amor ao Julgamento.

Se na Severidade a lei é “bateu, levou”, quando há Misericórdia, existe um estado de latência entre causa e efeito, dando oportunidade ao aprendizado/evolução do intemperante. Muitas vezes não se trata de evitar a punição, mas permitir até que esta semente de karma negativo seja purificada antes que ecloda.

Escrevi no outro dia sobre a necessidade de sermos mais compassivos para melhorar a qualidade de nossas relações e isso pode ser feito também – ainda como uma expressão de compaixão – quando refreamos o nosso impulso de agir sem reflexão, daí termos, em alguns casos, a mulher que, com água (Amor) tempera o fogo (Paixão). {imagem: Ancient Tarot of Bologna}

É neste ponto, o da Paixão, que consciência e autocontrole se fazem mais necessários, pois com a primeira se determina a dose certa e com a segunda dominamos o impulso de querer mais e mais, o que pode ser difícil – você sabe que é errado, mas se deixa levar pela busca do prazer imediato, pela vaidade e/ou pela ira ainda que se martirize com culpas depois.

É importante lembrar, no entanto, que a Fortitude, inicialmente, tinha a ver com a coragem que domina o medo (a mulher e sua coluna de mármore), evoluindo para os conceitos que conhecemos hoje com o ingresso do leão à cena. A Temperantia, por sua vez, destacava os atributos da alma sobre os do corpo – ou a razão que domina os instintos – ganhando conotações mais espirituais/alquímicas com o passar do tempo.

Vale, para o nosso estudo, a referência do adequado dentro de qualquer circunstância. Na definição clássica de virtude, tanto a ausência como o excesso são considerados vício (aquele que tem modéstia demais é tímido; o que tem de menos é desavergonhado). Algumas pessoas, por exemplo, não gostam da carta da Temperança para relacionamentos porque falta paixão, mas paixão é fogo morro acima – é rápido e consome tudo ao redor. O fogo bem regulado – podendo ser mais intenso quando necessário – é aquele que se faz útil por muito mais tempo.

Se uma taça de vinho pode nos levar às alturas, 4 podem nos lançar no inferno – ne quid nimis!

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.