A Estrela: Deixai toda esperança, ó vós que entrais!

Tarot Linocut
Tarot Linocut

É assim mesmo: parece que algumas cartas nos fazem falar um dia inteiro, enquanto outras nos emudecem. Eu sou um pouco assim com a Lua, mesmo depois de tantos anos de estudo e prática

No outro dia, no grupo dos alunos do Tabuleiro, alguém disse ter esta limitação com relação à Estrela, que é uma carta que eu gosto muito, então resolvi encarar como dica escrever sobre ela.

Omen

Posso começar, inclusive, deste ponto: preste atenção aos sinais. A vida nos conduz para situações favoráveis e nos afasta dos perigos se estamos atentos para perceber algumas sincronicidades do dia a dia.

Os antigos, quando faziam uso de oráculos, não se limitavam à ferramenta em questão, mas permaneciam integrados com tudo ao seu redor. Se aparecia um pássaro escuro ou claro, se uma criança chorava ou ria ao longe, se as nuvens assumiam uma forma particular, e por aí vai. Procure por “omen” no Google. Os sinais, presságios ou insights da Estrela podem surgir na lombada de um livro vista ao acaso, numa conversa despretensiosa com um amigo, em uma sensação física ou sentimento que surge do nada. O que os deuses estão tentando lhe dizer neste momento?

Esta dica me preocupa, confesso. Cuidado para não cair no extremo oposto, que é tentar ver sinal em tudo (“o final da placa do carro da frente é o mesmo do ano em que ele nasceu, logo, ele vai voltar”) ou tomar atitudes insensatas com base em uma interpretação equivocada. Por exemplo, você não tem religião alguma e sonha que está em uma cerimônia budista. Durante o dia, passa em frente a uma loja com uma estátua de Buda na vitrine por R$1.200 e acha que o sonho queria dizer que você precisa ter aquela estátua porque isso vai mudar, de alguma forma, a sua vida. Não, não vai – a não ser pelo dinheiro que talvez faça falta no seu orçamento. Nosso impulso para ter é extremamente perigoso. Coloque o seu foco no ser, que é muito mais relevante.

Como diferenciar o omen do devaneio? Exercite o bom senso.

Influências planetárias

Você já deve ter lido ou ouvido alguém associar a Estrela à prática da astrologia, certo? Sabemos que os astros exercem, em maior ou menor grau, algum tipo de influência em nossas vidas, trazendo oportunidades ou limitações, por um determinado período, em alguma área da experiência humana. Sem maiores fanatismos – e pautado em fontes confiáveis – observe se os seus projetos (sejam eles quais forem) são favorecidos ou ameaçados pelos astros.

No curso do Alef-Beit do Tarot eu conto que Moshé (Moisés) levou 5 meses entre receber a ordem de D’us de libertar o hebreus do Egito (a sarça ardente, lembra?) e convencer o povo disso – fora os dias que ele mesmo precisou para assimilar a ideia. Quando estava tudo certo, D’us lhe disse que era para esperar outros 7 meses para procurar o faraó, pois  seria a ocasião mais propícia para isso (o ingresso do Sol em Áries). Esse é o espírito da coisa (e se D’us mandou esperar para algo que Ele queria, quem sou eu para desconsiderar determinadas configurações?). Apesar do exemplo astrológico, qualquer outro oráculo pode ser utilizado para mapear as forças invisíveis que estão atuando no momento.

Lembrando sempre que as cartas indicam tendências, e não decretam sentenças, reflita com imparcialidade quando o jogo lhe diz “agora não” ou “é prejudicial continuar adiando” (por mais que você alegue não estar pronto… blá-blá-blá). Tudo o que existe está interligado. Em alguns momentos as peças se encaixam perfeitamente. Em outros, é preciso aguardar com paciência um novo giro da Roda.

Connolly Tarot
Tudo “errado” no Connolly Tarot

Nudez e acolhimento

A primeira coisa observada é que a carta retrata uma mulher nua. Por que uma mulher, e não um homem? Porque o feminino representa a receptividade.

Cinicamente rezamos “que seja feita a Vossa vontade”, mas, de modo geral, a nossa resignação é falsa. Nós rezamos pedindo uma intervenção divina para que a nossa vontade prevaleça. Queremos porque queremos que aquela pessoa nos ame de forma incondicional, que o imóvel seja vendido (pelo preço que pedimos) ontem, que a promoção (ou um determinado emprego) preencha todas as nossas necessidades financeiras e de reconhecimento social, e por aí vai. Essa é uma expressão masculina de homens e mulheres – não tem nada a ver com gênero, por favor. A inclinação do feminino é acolher. É a terra que se abre (e se doa) para que a semente se desenvolva sem perguntar o que vai brotar dali.

E por que estaria nua? Dois comentários a esse respeito: o primeiro é sobre  ato de se desnudar. Desnudar, mais do que tirar a roupa, tem a ver com remover as máscaras. Denota autenticidade e transparência. Sugere que o indivíduo seja verdadeiro consigo mesmo e com o outro (a Estrela revela, a Papisa oculta, a Lua dissimula). Por isso mesmo a Estrela também pede vulnerabilidade, que é “botar a armadura, espada e escudo de lado”. Alguns processos simplesmente não acontecem se não fazemos isso e para algumas pessoas isso pode ser realmente muito difícil.

Exemplo? Um clássico: a pessoa que viveu experiências de abuso (de qualquer tipo) em relações afetivas pode se colocar em guarda porque não deseja sofre de novo. A carta da Estrela como conselho poderia evocar Heráclito, que dizia que “ninguém cruza o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que correm nele”. Em outras palavras, a carta pede para que a pessoa se abra para novas possibilidades sem medo. O que aconteceu ficou para trás.

Confiança e leveza

A jovem está sozinha à noite, na beira de um rio. A gente mal vai ao centro da cidade, preocupado com a possibilidade de tomar uma facada num ponto de ônibus cheio, e ela está ali de boa, concentrada nas ânforas. Trata-se de um um estado de entrega que lhe permite fazer que o que precisa ser feito com a alma leve (guarde esta palavra-chave), sem apreensão.

Em uma entrevista, Tulku Lobsang Rinpoche afirmou que o medo é o assassino do coração humano porque, com medo, é impossível ser feliz e fazer os outros felizes. “E como enfrentar o medo?”, lhe perguntam. “Com aceitação. O medo é resistência ao desconhecido”. Não seria por isso que a Estrela antecede a Lua? Uma coisa é ter um medo justificável (alguém diante de um perigo real). A outra é ter medo do que só existe em nossas cabeças. Esvazie-se como as ânforas que deixam seu conteúdo ser levado pelo rio e viva cada momento como único.

Fé e Esperança: cuidado com isso

Fé e esperança fazem parte do “bingo do Tarot”: a carta aparece e as pessoas gritam (exagero meu) “fé e esperança!” como se isso explicasse tudo. Não, não explica. Pior: mal apresentadas, as irmãs Fé e Esperança podem agravar alguns problemas em nossas vidas.

De modo geral, entendemos fé como a crença em algo sem evidências. Como deriva do latim fides, implica em não apenas crer, mas ser fiel a esta crença (princípios e preceitos) por afeição genuína àquilo que se tem como verdade. Perceba: se há coação ou é motivada pelo medo, é doutrinação, e não fé.

Fé e Esperança são duas virtudes teologais que se misturam na cabeça das pessoas. Ter fé é acreditar que tudo tem um propósito (divino) e que parâmetros não comprovados guiam nossas vidas, por isso somos fiéis ao pacto, aos ensinamentos e às “regras do jogo”. Para mim faz sentido quando alguns falam que fé tem a ver com o tempo presente (a fé trazendo resignação em momentos difíceis, por exemplo) e esperança se aplica ao futuro. É comum que digam “tenha fé que as coisas vão melhorar” quando o certo seria “tenha esperança”, mas a expressão foi incorporada à linguagem cotidiana e aceita por todos.

Art Deco Gypsy Oracle
Art Deco Gypsy Oracle

Esperança vem do latim spes, que significa “confiança em algo positivo” (ou dias melhores). Podemos ver também como o sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja. No contexto religioso, se refere à espera (do latim sperare, que deriva de spes) pela recompensa em um Mundo Vindouro.

Em algumas sibilas, a jovem aguarda o retorno do seu amado, que partiu no navio que observa ao longe. Espera que ele realmente cumpra a promessa de voltar e que nada de mal aconteça a ele enquanto estiver fora. A âncora ao seu lado (como a coluna de mármore na representação mais antiga da Força), evoca estabilidade (emocional), convicção e perseverança na espera, pois não há certezas e se desesperar (perder a esperança) não ajudará em nada.

Ok, mas onde quero chegar? Dia desses li uma frase atribuída ao Dalai Lama, “As coisas boas não acontecem por vontade própria, temos que fazê-las acontecer” (sim, qualquer outra pessoa poderia ter dito isso, eu sei). Em leituras, as pessoas aconselham: “Não perca a fé e a esperança” – ou qualquer derivação do gênero. As coisas, muito provavelmente, estão ruins agora, mas o consulente deve se manter positivo e acreditar na mudança, por mais difícil ou improvável que pareça. Mas será que se trata disso?

Em hebraico, traduzimos emuná como “fé”, mas a palavra significa “certeza”, o que indica que se trata de algo que faz parte do próprio ser, um conceito que “desce o elevador” da cabeça ao coração e se converte em hábito, ou seja, ação.

Apenas uma semana após os judeus terem deixado o Egito, eles se veem aprisionados entre o exército egípcio, que os perseguia, e o Mar dos Juncos (o nome real do que chamamos “Mar Vermelho” – Marcelo). D’us diz a Moshé que erga seu cajado para que as águas se abram. Moshé assim faz, mas nada acontece. O povo se desespera. Até que um homem, de nome Nachshon ben Aminadav, líder da Tribo de Yehudá, é o primeiro a se aventurar mar adentro, suas águas caudalosas, impenetráveis. Como ele sinceramente crê na promessa Divina de salvação, Nachshon enfrenta as águas, com dificuldade, até a altura de suas narinas. Foi somente então – depois dele provar sua confiança em D’us – que as águas se partiram, salvando todo o Povo Judeu – trecho extraído da revista Morashá.

Eu adoro contar esta história e para mim é impossível resumi-la com essa clareza porque me empolgo. Isso é emuná. Os hebreus escravizados no Egito viram o poder de D’us nas 10 pragas, mas, imprensados entre o faraó e o mar, alguns queriam se entregar, outros cogitaram o enfrentamento, um grupo começou a orar e não foram poucos os que pensaram no suicídio. A expectativa era que o mar se abrisse, mas D’us não disse “peraí que vou abrir o mar”, Ele disse “ande”. Nachshon estava tão convicto de que algo aconteceria que… andou. Muitos passos à frente pareciam contrariar a lucidez de sua decisão, mas, então, o mar se abriu (em 12 trilhas, diga-se de passagem, um para cada tribo). Somos parte fundamental de qualquer milagre. Não basta esperar. É preciso que cada um faça a sua parte em direção ao resultado que se deseja.

Tarot Mitológico
Tarot Mitológico

Pandora abriu a caixa que libertou várias calamidades que colocaram fim à era de ouro da humanidade. No susto, fechou a tampa, deixando a Esperança lá dentro. Interpretamos isso como um alento, a preservação de  algo bom e precioso em meio a tantos males, mas isso é uma visão distorcida das coisas. Se estava dentro da caixa, era uma maldição de Zeus como todas as outras.  Segundo alguns intérpretes, a esperança nos conduz a um estado de passividade extremamente prejudicial à espera de uma solução que virá de D’us (os dos deuses) a qual nos devotamos (através da fé).

Neste sentido, trazer para a consulta a necessidade de se manter sereno é uma coisa. Sugerir o simples cultivo de bons pensamentos “porque isso desencadeia um processo quântico que nos conduz à uma solução”, não. Não é porque só penso em coisas boas que coisas boas acontecem. Não é porque sou uma pessoa íntegra que estou imune aos infortúnios. A equação é um tanto mais complexa que isso.

“Deixai toda esperança (de rever o Céu), ó vós que entrais (no Inferno)!” – Divina Comédia, Dante Alighieri. De real só existe o aqui e o agora. Trabalhe sobre isso com firmeza. Pode parecer que estou diminuindo a carta com este tipo de abordagem, mas é o contrário.  A Estrela pede consciência, confiança em si mesmo e plano. O que você deseja? O que é o Paraíso para você? Planejamento (o meu próximo tópico) é isso: reconheça onde você está, avalie a melhor das possibilidades e trace uma rota de um ponto para outro, considerando, destemidamente, as oportunidades e desafios que terá pela frente

A Estrela segue em um segundo post para não tornar este maçante. Aguarde.

Possam todos se beneficiar!

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.
  • Bruno Bazzoli

    Grande artigo, Marcelo! Vou pensar nesses conceitos em uma próxima leitura. Acho que uma possível explicação para minha dificuldade com a Estrela tem a ver com o conceito de esperança que você comenta. Também não me sinto confortável em dizer “tenha esperança, tenha fé”. Sempre prefiro aconselhar alguma ação ou no mínimo uma decisão. Por isso um arcano tão ligado à “esperança”, em uma referência mais pobre pela palavra-chave clássica, resulta em mim uma certa rejeição… Vou a partir de agora ampliar um pouco esse espectro. Valeu.