Sobre a responsabilidade do aconselhamento

The Zirkus Magi Tarot | Zephyrus Tarot
The Zirkus Magi Tarot

Quero escrever rapidamente sobre uma questão que envolve “a arte do aconselhamento” e tem me incomodado bastante. Serve tanto para quem procura a orientação do oráculo quanto para quem trabalham com um.

É muito comum que consulentes imaginem que todo oraculista seja alguém com mediunidade. Alguns são procurados porque se conta com isso, inclusive. Nas feiras, pessoas fantasiadas atraem mais clientes, a não ser que o profissional tenha um nome consolidado. São contingências de um segmento com muito mitos.

O que desejo abordar, de verdade, independe se o indivíduo tem ou não algum dom. Meu ponto é o cuidado junto ao consulente que, muito provavelmente, acha que isso é algo “inerente à função”. Sabemos que não é. Nem todo mundo que estuda Tarot, por exemplo, é ou será um bom intérprete, mas mediunidade não é pré-requisito. Ajuda, mas, na maioria das vezes, faltam habilidades que são mais importantes.

Três exemplos talvez ajudem a dar base ao que sugiro na sequência:

A força do que você diz

A cliente retornou depois de alguns meses e disse que uma determinada situação permanecia igual. Queria saber do momento, mas eu tinha isso na memória e perguntei a respeito. Para resumir, ela recebeu uma orientação das cartas e, neste intervalo, também consultou uma astróloga. Não sei como essa pessoa trabalha. Ao saber do problema, sentenciou: “Eu, no seu lugar, não faria nada. Ele pode matar você”. Não, não era uma questão de ordem afetiva, mas envolve um oponente rude.

Da forma como ela reproduziu a conversa e pelo que conheço de astrologia, esta profissional emitiu um parecer estritamente pessoal. Talvez estivesse projetando seus próprios medos. Talvez estivesse apenas preocupada com a cliente, lá sei eu. Uma única frase definiu o que a consulente faria – e sem explicações. Melhor, o que ela não faria. Aí veio o que eu mais ou menos esperava: “vai que ela falou isso porque estava vendo alguma coisa além”.

Houston, nós temos um problema.

Eu não sei o que a astróloga viu. Só posso responder pelo que eu interpretei das cartas. O fato é um problema que poderia estar resolvido continua gerando dor e o aconselhamento agora foi desistir. Por quê? Porque o fantasma do “vai morrer” foi plantado, cresceu e deu frutos. As cartas dizem ser inviável reverter o quadro de medo.

O que eu acho?

Em duas aulas distintas, a mesma situação. Na primeira, eu comentava sobre o número crescente de mulheres em relacionamento com homens muito mais velhos. Como exemplo, falei de uma cliente que precisava decidir se estava disposta a abrir mão da maternidade. Seu parceiro já foi casado e havia deixado claro não desejar mais filhos. Ela gosta dele agora, mas será que não se arrependeria no futuro? Uma aluna falou que isso era tolice e apresentou pontos baseada na sua própria experiência. Uma segunda argumentou que entendia o caso porque viveu situação semelhante, levantando prós e contras. Acredito que as duas conduziriam o aconselhamento tal qual demonstraram em aula.

Poucos dias depois, em outra atividade de grupo, interpretávamos o jogo de uma aluna que passa por um dilema. Choveram palpites e exemplos pessoais. Todo mundo sabia o que ela deveria fazer.

Nas duas ocasiões falei que a única orientação que interessava era a das cartas. Que o que eu havia dito até então (especificamente nessa segunda aula) era baseado no que o jogo contava. Mostrei para o grupo onde estavam  as informações que costuravam o discurso, como é de praxe nas Oficinas de Tarot.

No dia a dia eu construo uma resposta na minha cabeça ao ouvir o problema, mas, não raro, as cartas sinalizam algo diferente. Não se trata de lógica. O que o consulente narra é o ponto de vista dele e o que deve prevalecer é a sabedoria do Tarot.

De onde vem o aconselhamento?

As pessoas procuram por um Norte quando se sentem perdidas. Os oráculos, no passado, traziam a voz dos deuses sobre uma questão. Em outras palavras, não se deseja uma perspectiva humana, mas divina. E onde está este divino? Estaria nas cavernas, nos poços ou no fogo? Não, está em cada um de nós.

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Da maneira como vejo, por sinal, a resposta nem está no oraculista, mas no consulente – é muito importante que isso fique claro! O aconselhamento vem da neshamá dele, não da minha. Neshamá, para o judeu, é o aspecto mais elevado da alma. É essa neshamá que seleciona as cartas. Eu, oraculista, apenas as interpreto, pois conheço os códigos – e posso ir um pouco além em contato com a minha própria neshamá. É necessário, contudo, que eu me coloque em uma condição de neutralidade para evitar ruídos.

Se o cliente quisesse uma opinião pessoal, perguntaria a amigos ou pagaria por um profissional especializado no tema em pauta.

Como conduzir um aconselhamento?

1. Começando pelo básico, leia as cartas. Faça isso da forma mais impessoal possível. Não falo sobre ser simpático ou não. Uma atitude acolhedora é sempre bem vinda. Cada um tem seu jeito. Apenas coloque as coisas sem julgamentos. Não importa o quanto você seja inteligente ou vivido, as respostas estão nas cartas.

2. Você está lendo para outra pessoa, não para você. Se você teve experiências ruins em relacionamentos, isso não significa que relacionamentos são sempre difíceis. Se você desempenha outra atividade profissional e o ambiente é ruim ou está com dificuldades de recolocação, isso não significa que todos enfrentam o mesmo desafio. Se você convive(u) com pessoas em estado terminal, alcoólatras, depressivas ou qualquer situação fácil de ser rotulada, tenha em mente que cada um tem seu modo particular de conduzir a vida. O contrário também é verdadeiro: o que é ou foi fácil para você pode não ser para quem se encontra à sua frente (ou do outro lado do computador).

3. Cuidado com os exageros e generalizações. Isso serve bem para mim, no que diz respeito aos exageros. Em conversas informais entre amigos, tudo bem. Atendendo, atenção. Quem convive com você  conhece esta característica. Alguém que o vê esporadicamente (ou pela primeira vez), não. Generalizações não dever ser usadas em momento algum, nem em sonhos. É uma forma limitada de ver a vida. O mesmo vale para qualquer forma de preconceito.

4. Perceba o perfil do seu consulente. Alguns são dramáticos. Outros, facilmente impressionáveis. Podem levar a sério uma brincadeira ou entender errado uma frase dita de forma seca, sem elaboração. Em alguns casos, pergunte o que a pessoa entendeu do que você disse. Já me surpreendi com uma cliente que, por sorte, resolveu fazer um resumo “então você está me dizendo que…” e ela só ouviu o que lhe interessava.

5. Não ocupe o tempo do cliente com suas histórias. Eu mesmo gosto de ‘causos’. Eles ilustram bem algumas situações. Mas fale apenas o necessário e se isso for relevante ao tema. Muito menos dê margem para que a sua experiência entre em discussão.

6. Quer contar histórias? Use as cartas para isso. Já perdi as contas de quantas vezes descrevi a imagem de um arcano para justificar um ponto. Se estão no jogo como alerta ou como orientação, nada melhor do que incorporá-los no aconselhamento.

7. Separe o que é você e o que é o jogo. Normal que se deixe escapar um comentário pessoal vez ou outra. Também que se desenvolva um raciocínio a partir de um conhecimento que domine. Mas tenha o cuidado de pontuar com algo do tipo “mas isso sou eu falando, não o que está nas cartas”.

8. Troque suas certezas por perguntas. Na pior das hipóteses (considerando que você ignorou as sugestões anteriores) trabalhe com suas perspectivas na forma de perguntas. Convide o consulente a ponderar cenários e deixe por conta dele as conclusões.

Estou no papel de consulente, o que faço?

1. Nem todo oraculista tem “visão além do alcance”. Mantenha esta frase em mente mesmo que o profissional afirme ou tente parecer que tem. Questionar é sempre saudável.

2. NUNCA consulte alguém com medo. Seja medo da experiência em si ou medo do que pode vir a saber. O medo intimida, distorce, amplifica. Se está com medo não marque nada. Deixe para quando estiver de boa.

3. Traga a sua pergunta ou contextualize o que está sendo dito de forma breve. Deixe que as cartas deem ou confirmem os detalhes. Muitas vezes você mais atrapalha do que ajuda quando sai contando tudo. E se o profissional fala de algo que já foi dito, fica a dúvida se ele viu isso no jogo ou só pegou carona no seu relato.

4. Se o profissional estiver com muitas histórias, corte com educação. Respeito é bom e todo mundo gosta. Pode ser que a pessoa não tenha se tocado que fala demais da conta. Se você reage com rispidez, cria um ambiente desagradável e isso interfere na qualidade da leitura. Se você não fala nada, talvez fique impaciente e distraído. Se a duração do atendimento é cronometrada ou você mesmo tem hora, é menos tempo de leitura real.

5. Se algo não ficou claro, pergunte. Diante de informações contundentes (inclusive as boas), questione onde ele está vendo isso. Não é para colocar a pessoa contra a parede ou para duvidar de cada virgula. Apenas ajude o profissional a se posicionar melhor, se for necessário. Se ele disser “porque sim” (só porque eu me lembrei do Castelo Ra-tim-bum) você já sabe que “porque sim não é resposta”. Mesmo que a fonte seja mais sutil (intuição) coloque a informação na quarentena. Não é para descartar, mas não compre a ideia só porque foi dito em consulta.

Quer contribuir? O que mais você considera importante listar como dicas de aconselhamento com o foco em como trabalhar com as suas opiniões? Discorda de alguma coisa? Aproveite e deixe tudo nos comentários que eu respondo. É conversando que a gente se entende.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.