Combatendo a Ira

The Tarot of the New Vision
The Tarot of the New Vision

Não sou fã de previsões nesta época do ano. Acho complicado avaliar através das cartas como irá se comportar a Economia, a Política, o Meio Ambiente, entre outras coisas do gênero, no Brasil e no mundo. Muito menos me proponho a analisar a vida de outra pessoa que não esteja na minha frente solicitando uma consulta – questão pessoal de ética.

Para 2008 eu escrevi um texto sobre a Roda da Fortuna dizendo que a “energia do ano” tem a ver com o contexto no qual estaremos envolvidos (individualmente e em grupo) e o que temos a aprender com isso.

Posso falar de minha própria experiência. Tive uma vivência de Torre no final do ano passado e estar consciente da Roda me ensinou a entrar no clima keep walking: fui fazendo o que estava ao meu alcance certo de que as derrotas, assim como os sucessos, passam – sem contar com a receptividade para entender para que lado a vida estava me levando.

“Todas as coisas mudam, e nós mudamos com elas”, escrevi na ocasião. Talvez por isso saí da fase sum sine regno para uma fase regnabo – estou brincando com as inscrições latinas presentes em algumas ilustrações da Roda da Fortuna.

O ano de 2009 será regido, astrologicamente, pelo Sol. Numerologicamente, 2+0+0+9 resulta em 11. Temos o hábito de pegar esta redução e associar com uma das lâminas do Tarot, embora não se possa afirmar que se trata de um processo perfeito: nem sempre as lâminas tiveram os números que conhecemos hoje, não há uma ligação íntima entre os atributos da lâmina e o seu valor numerológico e, especialmente com relação ao número 11, há quem considere a carta da Força e há quem considere a carta da Justiça…

O que faço aqui é um exercício com base em algumas insanidades/reflexões pessoais. Se pudermos trabalhar todo um ano aprimorando, ao menos, uma qualidade da alma, com certeza não teremos qualquer desperdício de esforço ou tempo. O ano é regido pelo Sol na Astrologia e, na minha numeração das cartas, pela Força.

Tarot des Alchimistes
Tarot des Alchimistes

A dama segura um leão e Leão é a constelação associada ao Sol. Não resisto à tentação de ir além: para os judeus (sim, pode pensar “lá vem ele…”), um dos nomes dado ao Sol é Chamah, palavra associada à chemah, que significa “ira” com alguma flexibilidade de tradução, podendo englobar “raiva”, “cólera”, “indignação”, “fúria”, “agitação”, “furor”, “envenenamento” (da mente), etc.

Olho ao meu redor e percebo o quanto esta energia está cada vez mais exacerbada no mundo, com pessoas discutindo por qualquer coisa, fora as questões mais graves estampadas nos jornais todos os dias.

E não me refiro somente a balas perdidas, guerras, intolerância religiosa, porradaria em estádios e agressões no trânsito e/ou dentro de casa; a sexualidade como válvula de escape se agrava (ou está mais exposta, não sei) com um números alarmantes de casos de incesto, abusos sexuais variados e pessoas correndo toda sorte de risco por alguns momentos de prazer.

Como vou de Moshé a Sidarta com certa facilidade, não poderia deixar passar a oportunidade de citar o bom e velho Shantideva. Ele ensina que toda a vez que a mente se distrai (a “Mulher de Vermelho”, em Matrix, lembra?), os kleshas (aflições/contaminações mentais) dominam as circunstâncias. Na estrofe 5:12 do Bodhicharyavatara (”O Caminho da Iluminação”) diz que:

As hordas de malfeitores são tão vastas quanto o próprio espaço –
Que chances há de que venham todas a ser suplantadas?
Basta que a mente raivosa seja derrubada,
E todos os inimigos serão, por este ato, destruídos.

Pema Chödrön resume com a frase: “sem raiva, não há inimigos”. Observo diariamente pessoas que vêem inimigos por toda parte e, logicamente, reagem à altura. Uma, no outro dia, disse que tinha vontade de matar velhinhos na rua porque eles atrapalham nos ônibus e nos bancos, sem contar os indecisos que a irritam nas fila dos restaurantes a quilo. E tudo isso dito com passionalidade, face rubra, olhos arregalados. Se pudesse, talvez matasse mesmo.

São pessoas que estão sempre brigando com tudo e com todos. A vida é algo que alterna ataque e defesa, nada mais. O leão desequilibrado (sem a Dama para lhe conter) indica pessoas auto-centradas, auto-absorventes, dominadas pela impulsividade e a necessidade de terem seus desejos satisfeitos na hora que eles emergem. Não são reis, são tiranos. Elas não querem sofrer, mas o sofrimento é uma condição permanente – e ainda causam sofrimento nos outros, pois não há quem saia ileso quando o tornado passa por perto e eles, de alguma forma, sentem um certo prazer perverso nisso.

A cura está na meditação. A meditação que atrai as irmãs Paciência e Serenidade para nossas vidas. A meditação que nos dota de plena atenção (trenpa) e estado de alerta (sheshin). Quando Pema Chödrön nos apresenta trenpa e sheshin no livro “Sem Tempo a Perder” – estava lendo sobre isso esta semana – diz que estas qualidades estão sempre presentes em nós, mesmo que adormecidas, e a meditação as revigora. Precisamos das duas para termos consciência dos mecanismos internos de sabotagem, pois “os kleshas e a distração andam juntos”, afirma.

Tarot Grand Belline
Tarot Grand Belline

Existe aquela máxima, “gentileza gera gentileza”, criada por José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza. Se vale algum conselho como se conduzir em 2009, faça disso um mantra, lembrando que esta gentileza começa consigo mesmo. A carta se chama Força, mas o leão é dominado pelo amor, não pela brutalidade.

A gente, de modo geral, exterioriza o que rola internamente de forma inconsciente. A raiva que o outro promove e/ou o desejo que alguém (ou um objeto) desperta devem ser percebidos como sinais para o que precisa ser eliminado – nossos medos, carências e mágoas – seja pela observação seguida de disciplina ou pelo acompanhamento de um profissional qualificado.

A agressividade é vista por muitos como uma expressão de poder, por isso o destemperado se orgulha de suas ações, acha que é “O” cara, que faz e acontece e que “ai de quem fica na minha frente”. Mas este leão, antes de qualquer outra coisa, vive em um mundo de ilusão tentando proteger suas fraquezas com orgulho.

Olho para a “matadora de velhinhos” e outras figuras quase folclóricas que passam pela minha vida e vejo pessoas com muito medo de perder algo que, na verdade, nunca tiveram e nunca irão conseguir por este caminho.

A carta da Força é o ponto central do Tabuleiro. Tanto a carta como o Sol astrológico falam de vitalidade. Se bem trabalhados, tudo corre bem. Se tendem para o excesso ou deficiência, o sistema fica imediatamente comprometido.
Cuidemos de nossas feras como elas devem ser tratadas, elevando a sua natureza não apenas para termos um bom ano, mas, principalmente, para sermos melhores pais, filhos, companheiros de trabalho, maridos/esposas… enfim, melhores seres humanos.

Bom 2009 para todos.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.