Homens são de Marte. Mulheres são de Vênus


Terceiro e último post sobre a Força dentro da série Virtudes.

Quando o leão dominado passou a integrar a carta da Força alguém achou muito pertinente associar a carta ao mito de Hércules contra o Leão de Neméia, o primeiro de seus doze trabalhos. {imagem: Dürer Tarot}

De acordo com a história, o leão era invunerável, logo, só morre quando Hércule o sufoca. E ele não apenas faz isso, como toma a sua pele e a usa sobre o corpo tal qual uma armadura.

A experiência do Arcano 11 é interna e se refere à expressão da vontade superior. Em alguns baralhos, o animal reage, tenta sair do domínio – e faz sentido que isso ocorra – mas uma coisa é ter a consciência do que é prejudicial para si e conter o impulso através da disciplina, outra é impor auto-flagelo como forma de purificação dos desejos.

Exageros a parte, é mais ou menos assim que vejo a coisa. O animal acuado está sempre em busca de uma falha do seu opressor para fugir ou atacar… como tirar alguma produtividade dele?

“Mas Hércules mata o leão – fim da história”, talvez você argumente. Sim, eu sei, e reside aí outro erro, pois não podemos matar aquilo que representa a nossa vitalidade e algumas de nossas funções básicas, como o instinto de sobrevivência. É como dar um tiro no próprio pé.

O leão é, entre outras coisas, o nosso ego e as pessoas falam mal do ego o tempo todo esquecendo que ele – como tudo mais – também possui um propósito.

O verdadeiro só pode ser conhecido através do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele. Ele é uma disciplina. O verdadeiro só pode ser conhecido através da ilusão. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que encontrar o falso. Através desse encontro, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade nascerá em você

— Osho, em Além das Fronteiras da Mente

A mulher de finas vestes que doma o leão, ainda que use de alguma força física, como vemos no Ancient Italian Tarot, expressa a alma humana que, de verdade, não vê o animal como algo inferior. Para os judeus, por exemplo, a alma possui 5 níveis, que vai do instinto animal (nefesh) até o seu aspecto plenamente conectado com a Totalidade (yechida), de modo que bela e fera são uma só coisa.

Interessante observar que na mitologia hindu cada deidade possui um animal que lhe serve de veículo (vahana) e funciona como uma extensão de seu poder, como é o caso do rato de Ganesha, o cisne de Saraswati e o tigre (ou leão) de Durga – só para citar alguns. Estes animais representam forças demoníacas específicas que foram convertidas pelas qualidades atribuídas à divindade que carrega. {imagem: Ancient Italian Tarot}

Esta integração entre o divino e o animal é algo que precisa ser reproduzido por cada um de nós, pois o que for reprimido será continuamente projetado nas situações do dia-a-dia até que se possa compreender a mensagem por trás das cincustâncias.

Na disposição dos septenários, a carta da Força ocupa a posição central (o coração ou o eixo, lembrando da simbologia original da Fortaleza) do tabuleiro. Se dividimos os Maiores em dois grupos, o primeiro vai do Louco (0) à Roda (10) e o segundo tem início com a Força (11) e marca o começo da nossa jornada de auto-realização.

Se sou eu que de fato crio minha vida, que parte de mim cria situações que reputo absolutamente desagradáveis? Por que meu trabalho de criação não dá origem à vida que acredito querer? Por que é tão difícil mudar aspectos meus?

— Eva Pierrakos, em O Caminho da Autotransformação

Escrevi no Eremita que é sinal de maturidade buscar dentro, e não fora, a resposta para nossas aflições. Ocorre que, muitas vezes, nos deparamos com “monstros” no meio do caminho – aspectos bestiais de nós mesmos que por muito tempo escondemos dentro do armário ou debaixo da cama e, eventualmente, só davam o ar da graça em alguns dos nossos piores pesadelos.

É nessa hora que contamos com a coragem e a determinação da Força para nos manter firmes, sem deviar o olhar da fera, até que se liberte a Luz que se esconde em cada uma de nossas imperfeições.

Não poderia encerrar sem escrever algo sobre o Arcano XI no Thoth Tarot, que ganhou o nome “Luxúria” e traz Babalon, a Mulher Escarlate. Todas as referências soam meio confusas para mim e, na melhor das hipóteses, entendo que ela encarna a livre expressão da sexualidade feminina dentro da Escola de Thelema.

De qualquer modo, e pensando nos vahanas hindus, vejo a paixão, a alegria de viver, a criatividade, a força de vontade e, por que não, a sexualidade – diferentes atributos do leão – transformados positivamente em poder pessoal quando abandonamos a ilusão do Eu fragmentado.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.