Imperatriz: a natureza da Mãe Natureza

Imperatriz - Estensi Tarot
Estensi Tarot

2010 é o Ano da Imperatriz? Em 2 anos de Zephyrus, escrevi sobre a Força e a Roda em 2009 e 2008, respectivamente. Importante ressaltar que, apesar da referência de alguns profissionais, vejo o arcano por regente do ano como uma enorme bobagem. Duvido muito que, do ponto de vista da previsão, tenha real valor individual ou coletivo – principalmente coletivo!

Como um dos objetivos do blog é escrever sobre Tarot, esta é sempre uma boa desculpa para abordar um Arcano. Sendo assim, acabo embarcando nessa do meu próprio jeito, obviamente.

Muitas pessoas escreveram ou estão por escrever sobre a Imperatriz ressaltando atributos, como: comunicação, criatividade, fertilidade, feminilidade, diplomacia… todos  válidos, claro, e eu não vejo razão para insistir em um lugar comum.

Forma e conteúdo

Chama a minha atenção, por exemplo, a condição de “Mãe Natureza”. Desde então fala-se muito sobre os frutos da terra e quase nada sobre a força que viabiliza a sua manifestação. Eu explico:

O mundo das formas é domínio do Imperador – o número 4. Semana passada ouvia um ensinamento budista que, ao cometermos uma falta, temos até 4h para corrigi-la. Não sei exatamente qual a explicação budista para 4h, exceto, talvez, o fato de 4h dividir o dia em 6 turnos. Seis é o número de paramitas (“perfeições”) com a qual estamos comprometidos. A referência é curiosa: com 4h o mal que você cometeu se “cristaliza” como semente de um karma negativo – antes disso, não.

O que eu quero dizer com isso que a Imperatriz não é a colheita, mas todos os preparativos para que ela ocorra (planejamento, energia, dedicação…). O resultado é Imperador. Não é forma, mas conteúdo. Ela é uma mulher grávida, e não a mãe que carrega um bebê no colo. Apesar de gostar do Alchemical Tarot,  não concordo com a criança aos seus pés.

A fertilidade (e o seu oposto, a esterilidade), desta forma, não é algo que está assegurado. Se não houver dedicação, nada acontece. Ninguém precisa chegar à Justiça para encarar com as consequências do trabalho mal feito ou omissão.

Trabalhando as paramitas

E isso vale para tudo. Quando abordamos a Imperatriz como comunicação, pense bem antes de se expressar, use de forma correta e inteligente as ferramentas colocadas à sua disposição. Isso é especialmente em nossa era de comunicação global, instantânea e vulnerável a críticas de onde menos se espera.

Se a Imperatriz é relacionamento, observe e cultive apropriadamente a generosidade, a virtude e a tolerância (só aí, citei 3 paramitas). As pessoas pensam que agir diplomaticamente envolve hipocrisia  Não, de forma alguma. Seja verdadeiro com você mesmo, sempre, e evite, tanto quanto possível, causar sofrimento ao outro. Inclua aí mentir ou enganar de forma deliberada.

Mesclando comunicação e relacionamento, por sinal, a comunicação nunca foi tão ampla e as pessoas nunca estiveram tão isoladas. E como se não bastassem as complicações de relacionamentos virtuais à distância, ainda corremos o risco da virtualidade presencial. É comum observar em uma mesa de bar duas pessoas onde uma está teclando todo o tempo sem lhe dar atenção à outra. Veja, quando escrevo “relacionamento”, encare de forma ampla, e não restrita a afetos.

A Imperatriz e o número três

Dan Millman diz que a pessoa de número 3 deve utilizar a sua sensibilidade emocional para trazer para o mundo a expressão sincera da sua personalidade. Seu primeiro desafio é enfrentar a falta de fé em si mesmo (uma condição deficiente do Pendurado: 12 = 1 3 = 3). Por vezes, para ser aceito socialmente (ou por alguém, em especial), a gente usa máscaras que nos distanciam da nossa verdadeira natureza e isso é ruim, pois nunca seremos inteiros desta forma (O Mundo: 21 = 2 1 = 3).

Imperatriz - The Alchemical Tarot
The Alchemical Tarot

Ser Imperatriz, neste sentido, começa com o compromisso de fidelidade consigo mesmo e a correta atribuição de valor pessoal. É gostar de estar com outras pessoas, mas não depender delas, pois existe uma diferença entre solidão e solitude (O Eremita: 9 = 3 3 3).

Você se ama e se respeita, logo atrai quem também o faça. Não se trata de “dane-se o que os outros pensam”, mas dar o devido peso a cada coisa.  Ao olhar para fora, lembre-se que sinceridade em demasia vira arrogância. A virtude se perde tanto nos excessos quanto nas deficiências. Adote amorosidade em tudo, incluindo na percepção do que você precisar mudar no seu processo de autorrealização.

As Rainhas do Tarot

Uma coisa que eu gosto é o fato da Imperatriz ser representada de frente em alguns baralhos. Isso significar que ela encara a vida (oportunidades e desafios) sem desviar o olhar. A Imperatriz sucede a Papisa e seus ensinamentos, logo, sabe que o mundo externo é reflexo daquilo que estamos continuamente gestando. Dentro e fora se alternam como a respiração. Se algo não parece bom, ela não recua, mas busca dentro de si onde está o desequilíbrio.

E aí é muito importante lembrar que as Rainhas dos Arcanos Menores são primas-irmãs da Imperatriz, responsáveis por dar suporte aos Reis. Reis e Rainhas não se referem a homens e mulheres, por favor. Antes que me acuse de machismo, tenha em mente a função do masculino e do feminino que todos trazem dentro de si.

A Imperatriz , de fato, reúne a energia fragmentada em quatro formas de expressão – os quatro naipes/elementos – a saber:

* A Imperatriz como Rainha de Ouros nutre, protege e cura a si mesma e ao outro com grande senso prático e estético. Cuidar só de si é uma patologia; cuidar só do outro, também.

* A Imperatriz como Rainha de Espadas é a mãe que educa para a vida, usando a mente para entender – e não para tolher – as emoções. Ela reconhece a sua parcela de responsabilidade (diferente de culpa) por cada experiência do passado, sem medos e/ou ressentimentos.

* A Imperatriz como Rainha de Copas exercita, em especial, a empatia, que é um dos pré-requisitos para a verdadeira compaixão – o desejo, com equidade, de que todos se libertem do sofrimento.

* A Imperatriz como Rainha de Paus ajuda a cada um descobrir o melhor de si mesmo, despertando a fé e a alegria de viver.

O que são as Seis Paramitas?

Como usei o termo paramita algumas vezes, finalizo com este resumo, extraído da página Budismo de Petrópolis e escrito por Thich Nhat Hanh. Siga o link para o texto completo. Vale a pena a leitura.

As seis paramitas são ensinamentos do Budismo Mahayana. Paramita é uma palavra que pode ser traduzida como “perfeição” ou “realização perfeita”. O ideograma chinês para este termo significa “atravessar para a outra margem”, que é a margem da coragem, da paz e da libertação. As perfeições devem ser praticadas em nossa vida diária. Estamos atualmente na margem do sofrimento, da raiva e da depressão, e queremos atravessar para a margem do bem-estar. Para atravessar, é preciso fazer alguma coisa, e é a isso que chamamos de perfeição. Assim, voltamos para nós mesmos, praticamos a respiração consciente e olhando nosso sofrimento, nossa raiva, nossa depressão, e sorrimos. Ao fazer isso, superamos a dor e atravessamos. Devemos praticar as “perfeições” todos os dias.

(1) Dana paramita – Doação, generosidade, oferta.
(2) Shila paramita – Os preceitos ou treinamentos da atenção plena.
(3) Kshanti paramita – Tolerância, a capacidade de acolher, suportar e transformar a dor infligida a você por seus inimigos e também pelas pessoas que o amam.
(4) Virya paramita – O esforço, energia, perseverança.
(5) Dhyana paramita – A meditação.
(6) Prajna paramita – A sabedoria, compreensão, insight.

 

Que cada um possa meditar e entrar em contato com a Imperatriz que traz consigo para tornar a sua vida – e a vida de todos os seres sencientes – mais significativa.

Possam todos se beneficiar!

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.