Liberdades Simbólicas – 2 de Espadas

teste – post 1

Hanson-Roberts Tarot
Hanson-Roberts Tarot

Escrevi na parte I que esta seqüência é baseada em um tópico aberto no Orkut. A conversa começou em torno do 5 de Copas e terminou com o 2 de Espadas. Como a própria natureza da discussão tomou outro rumo (e para não fazer um texto enorme), achei melhor abordar as duas questões em posts separados.

Tarot, Guerra e Paz

A imagem do Rider-Waite que se perpetua em muitas outras ilustrações do 2 de Espadas é de uma mulher vendada segurando duas espadas que se cruzam à sua frente. Para Waite a carta indica harmonia, equilíbrio e concórdia, lembrando que, apesar disso, “Espadas em geral não simbolizam forças benéficas nos assuntos humanos”. Outros autores seguem basicamente a mesma linha, falam de acordos temporários e adotam a máxima “quando um não quer, dois não brigam”.

O Thoth Tarot dá à carta o nome de “Senhor da Paz”, além da associação astrológica da Lua em Libra. Gerd Ziegler, em Tarot – Espelho da Alma, conclui que há “disposição para o amor e a realização ao invés da luta”, o que tem muito a ver a inclinação desta Lua libriana para o refinamento, a diplomacia e a cooperação.

Esta é a opinião de um grupo. Outro, por sua vez, defende que 2 é um número de polarização, logo, espadas colocadas em campos opostos indicam o confronto real ou iminente de idéias.

A idéia aqui não é dizer que um está certo e o outro errado – até porque sou repetitivo com a história que cada um segue a escola que lhe parece mais conveniente – mas a contradição a respeito do 2 de Espadas é especialmente curiosa em função de algo que percebo e lanço aqui como ponderação.

Temos aqui o aspecto aéreo de Chokmah, o Pai de Tudo, a forma mais abstrata da força. Para alguns, o chakra mundano de Chokmah é Urano e, para outros, Mazloth, o Zodíaco, sendo sua experiência espiritual a Visão da Totalidade. A ação de Chokmah no mundo do intelecto faz com que a mente deixe a calma do Ás e entre em movimento. A vibração do Dois polariza a mente, introduz o ritmo, as idéias opostas, o positivo e o negativo, o correto e o errado. Aqui aparecem a ambivalência, a dúvida e a confusão.

— Veet Pramad, no livro Curso de Tarot e seu Uso Terapêutico

Tirei esta citação do tópico no Orkut em pauta. Sabe-se que tanto Waite como Crowley foram fortemente influenciados em seus trabalhos pelo Livro T, um conjunto de textos da ordem hermética Golden Dawn que sugere que a Árvore da Vida cabalista é a chave para acessar os significados mais profundos do Tarot.

Já escrevi sobre isso antes e continuo afirmando que algumas conclusões são equivocadas porque não se tem real conhecimento de importantes conceitos judaicos – e isto não significa que sou o rei no assunto, veja bem. Devemos levar em consideração também que as fontes confiáveis são mais abundantes agora do que no passado.

Na época em que todos estes estudos foram desenvolvidos, o conhecimento disponível a respeito Cabalá era restrito aos judeus ortodoxos e muito do material que se propagou foram dissertações sobre fragmentos coletados aqui e ali. Muitos rabinos, hoje, ensinam o que é Cabalá para que inúmeros judeus não pratiquem o que se vende como a “verdadeira” Cabalá, mas não é – somos gratos ao Kabbalah Centre por isso. No momento em que se tornou muito fácil acessar informações mais confiáveis, devemos reformular nossos conceitos.

Chochmah (”Sabedoria”), por exemplo, é uma dimensão além do espaço, tempo e movimento que guarda o estado potencial de todas as coisas – o Zohar “brinca” com as letras e transforma Chochmah (חכמה) em ko’ach (כח – “potential”) e mah (מה – “o que é”). Em outras palavras, não se pode falar de polaridade aqui porque não existe ainda qualquer diferenciação da energia primordial.

As pessoas olham para Chochmah na Árvore da Vida e pensam em 2 (1 é Kether), mas Chochmah não é 2, Chochmah é Beit. Beit é a segunda letra do alfabeto hebraico. Para os israelitas, as letras possuem uma atribuição fonética e outra numérica, sendo que cada letra traz consigo uma série de ensinamentos espirituais.

Sim, Beit é o número dois, mas é com a segunda letra do alfabeto que a Torá tem início e isso faz toda a diferença.

Bereshit (בראשית) bara Elohim et hashamayim ve’et ha’arets
(”No Princípio criou D’us os céus e a terra”).

É tão forte a idéia que Chochmah representa o início da Criação que há quem traduza a frase como “Com Chochmah criou D’us os céus e a terra” e isso é amplamente aceito entre os estudiosos.

Seqüências ascendentes e descendentes

Encontramos de tudo um pouco quando decidimos estudar os Arcanos Menores do Tarot. Há quem olhe, por exemplo, cada lâmina como um elemento independente/ isolado (forte influência da cartomancia) e há quem estabeleça uma ligação entre as cartas de acordo com a sua numeração.

Mas isso não é tudo: os que adotam uma evolução lógica das cartas têm a opção de começar a jornada do Ás ou do 10.

Para adotar uma terminologia técnica, temos um caminho diabático, que vai de Ás a Dez e descreve o processo da Criação tal qual a energia se manifesta na Árvore da Vida, de Kether a Malchut. E temos um caminho anabático, que vai do Dez ao Ás, que descreve o processo de evolução do homem do caos à Unidade.

A Golden Dawn, como tantos outros grupos, é uma escola iniciática, logo, Kether (1) não é o ponto de partida, mas onde se deseja chegar.

Neste sentido, fica muito fácil entender o papel do 2: o sujeito estendido na praia com 10 espadas cravadas nas costas está completamente imerso na separatividade, enquanto a mão que sai das nuvens segurando uma única espada representa a Mente Unificada.

Os que analisam a seqüência diabática entendem que o 2 dá os primeiros sinais de um desafio que precisamos enfrentar, mas, para os anabáticos, a paz é um estado de antecede a comunhão plena com “as Raízes dos Poderes do Ar”, sendo esta condição precária porque a mente ordinária sempre pode nos trair e nos derrubar às portas do Nirvana.

DruidCraft Tarot
DruidCraft Tarot

Mutatis mutandis, a pessoa não se ilumina com um Ás de Espadas, mas, neste caso, atinge o correto entendimento da questão em pauta, dispersando as nuvens do obscurecimento mental, daí a espada passar por dentro de uma coroa, inclusive, tanto no Rider-Waite como no Thoth.

E por que acho tudo isso interessante? Porque devemos sempre respeitar a pergunta que está sendo feita. Quero dizer com isso que o valor da carta muda de acordo com a questão e, apoiado pela posição dele no jogo, cartas complementares e informações do consulente, um 2 de Espadas pode aconselhar que se vista a armadura ou que se coloque as armas de lado.

Não devemos ser flexíveis com o Tarot ao ponto de descaracterizá-lo, mas não cabe em momento algum a rigidez que limita a sua abrangência. Isto é especialmente relevante quando temos cartas de Espadas, pois atrás de todo problema existe a necessidade de entendermos em que momento atraímos esta história para as nossas vidas.

Se por um lado os aspectos da dor se desenvolvem em direção à Malchut, a mente deve se elevar a Kether. É fato, inclusive, que se a mente alcança primeiro o seu objetivo, muito provavelmente o fluxo descendente irá se desfazer no meio do caminho, evitando o nosso envolvimento com os níveis mais densos do sofrimento.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.