Liberdades Simbólicas – 5 de Copas


Surgiu uma pergunta interessante no Orkut esta semana, mas que deixei de responder porque reinava uma certa confusão entre algumas pessoas e achei melhor ficar quieto, mas aproveito alguns comentários feitos aqui e ali para compor 2 posts a respeito de “liberdades simbólicas”, sendo este o primeiro. {imagem: Dragons Tarot}

Por que o cinco de copas tem um significado taromântico negativo? Por que no tarô de Marselha temos uma representação ilustrativa que parece não ser compatível com de outros tarôs?

Esta é uma síntese do questionamento, apenas para pontuar. O Cinco de Copas é uma carta de atributos delicados, indicando o sentimento de perda. O amigo, certamente acostumado com versões modernas do Tarot que decodificam o significado das cartas em suas ilustrações, estranha o Marseille ter cinco taças devidamente ordenadas.

Os primeiros baralhos de Tarot eram realmente assim: ícones simples, em quantidades de 1 a 10, representando o naipe e seu número de ordem. Acredita-se que as “cartas de jogar” tenham surgido na China, foram absorvidas pelos Persas e, através das rotas comerciais, chegaram à Europa. Sugiro dar uma olhada em um artigo do Clube do Tarô a respeito do Mamlûk, que é o registro mais antigo que se tem conhecimento.

Só a partir da publicação do Rider-Waite, 1909, que os Arcanos Menores passaram a ser ilustrados da forma como você conhece. Muitos trabalhos posteriores criaram cópias exatas ou pequenas variações do trabalho de Pamela Colman Smith. Mais adiante, outros autores começaram a criar ilustrações dentro de contextos temáticos e interpretações pessoais, daí encontrarmos hoje uma grande diversidade de significados. Bom exemplo disso são os livros de Jana Riley e de Bill Butler que trazem uma relação de interpretações para cada lâmina a partir dos baralhos mais conhecidos.

Se tomamos o número como referência para “pensar a carta”, temos no dicionário de símbolos de Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, por exemplo, que o  cinco representa o “centro da harmonia e do equilíbrio, os cinco sentidos, união, número nupcial segundo os pitagóricos”, etc. Mas o número 5, tradicionalmente, impõe alguma rebeldia, instabilidade e inquietação. É a imagem, por exemplo, do “aborrecente” que questiona as regras que lhe são impostas sem ter o correto entendimento da vida e suas responsabilidades. Confesso que, até então, é a primeira vez que vejo o 5 associado a equilíbrio – um atributo natural do número 6.

Os chineses dizem que é o número da Terra e que se a seqüência de 1 a 4 constrói e de 6 a 9 conclui, é no 5 que as forças são reorganizadas, sendo um período de reorientação.

Dan Millman, em um livro que gosto muito, Um Novo Sistema de Numerologia, diz que ter o 5 como propósito de vida é “encontrar a liberdade interior através da disciplina, da concentração e da profundeza da experiência”, sendo exatamente a ausência de liberdade e de disciplina seus maiores obstáculos.

A minha visão dos Arcanos Menores é fortemente influenciada pela tradição judaica. Deixo para falar em outro tópico sobre abordagens cabalísticas. Mas para não deixar o 5 de Copas passar em branco, sempre digo que as cartas cartas 4, 5 e 6 se referem ao plano emocional: a primeira expande, a segunda contrai e a terceira equilibra.

Depois de experimentar todos os prazeres no estágio 4 (o que alguns autores discordam, atribuindo expressões como “tédio” a ele), no 5 de Copas buscamos internamente o significado desta vivência, talvez porque ela não satisfaça mais ou porque é necessário compreender a lei da impermanência – nada permanece do jeito que foi um dia e a gente sofre em função do apego ao que é inconstante e pode, de uma hora para outra, escapar pelos dedos.

“Mas será que, a despeito da diferença simbólica do Tarot de Marseille, o 5 de Copas  devo utilizar a mesma interpretação  em uma leitura onde se usa um Waite Rider ou um Crowley?”

A gente tem que se ligar a uma escola e ser fiel a ela. O Tarot funciona de acordo com as convenções de quem joga. Obviamente, se cada um resolve criar seus próprios critérios, a coisa vira uma Torre de Babel e uma convivência no Orkut, por exemplo, se torna impossível.

Quando dou uma opinião, apresento a minha visão das cartas de acordo com os parâmetros da escola que escolhi e acrescento algumas opiniões pessoais. Se tivesse que perguntar para cada pessoa o baralho que ela utilizou, teria que ter em mente uns 10 significados diferentes para aplicar o pertinente ao jogo por conta da ilustração x, y ou z – e isso para mim não faz sentido.

A experiência me conduziu a ter uma opinião ou outra diferente, mas não recriei o Tarot. Por vezes chego à mesma definição, mas por uma abordagem diferente, que me soa mais coerente e pode trazer mais esclarecimento ao consulente – se o Tarot não tem nada a ensinar, passa a ser um instrumento da fatalidade, o que não é o caso. {imagem: Thoth Tarot}

Paul Marteau, por exemplo, acha o 5 de Copas tudo de bom: é “clareza de concepção” no plano mental, “amor universal” no plano anímico e “aporte de segurança para orientar os acontecimento” no plano físico. Se você adotar Paul Marteu como referência e se sentir confortável com isso, não importa qual baralho use, será esta a sua definição.

De novo, esta é uma defesa minha. Há quem siga a regra do WYSIWYG (“What You See Is What You Get”), mas, bom… você já entendeu o que penso a respeito.

Espero que tenha te ajudado. Caso contrário, deixe um comentário aqui ou escreva diretamente para mim que eu complemento, ok?

 Esta ilustração não estava no post original. É uma lâmina que repito em algumas apresentações sobre Tarot. Para o mesmo 4 de Copas, 5 interpretações – uma para cada baralho.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.