Liberdades Simbólicas – 5 de Copas

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Dragons Tarot

Surgiu uma pergunta interessante no Orkut esta semana que eu deixei de responder porque reinava uma certa confusão entre algumas pessoas. Achei melhor ficar quieto, mas aproveito alguns comentários feitos aqui e ali para compor dois posts a respeito de “liberdades simbólicas”, sendo este o primeiro.

“Por que o cinco de copas tem um significado taromântico negativo? Por que no tarô de Marselha temos uma representação ilustrativa que parece não ser compatível com de outros tarôs?

Esta é uma síntese do questionamento, apenas para pontuar. O Cinco de Copas é uma carta de atributos delicados, indicando o sentimento de perda. O amigo, certamente acostumado com versões modernas do Tarot que decodificam o significado das cartas em suas ilustrações, estranha o Marseille ter cinco taças devidamente ordenadas.

Os primeiros baralhos de Tarot eram realmente assim: ícones simples, em quantidades de 1 a 10, representando o naipe e seu número de ordem. Acredita-se que as “cartas de jogar” tenham surgido na China, foram absorvidas pelos Persas e, através das rotas comerciais, chegaram à Europa. Sugiro dar uma olhada em um artigo do Clube do Tarô a respeito do Mamlûk, que é o registro mais antigo que se tem conhecimento.

Só a partir da publicação do Rider-Waite, 1910, que os Arcanos Menores passaram a ser ilustrados da forma como você conhece. Muitos trabalhos posteriores criaram cópias exatas ou pequenas variações do trabalho de Pamela Colman Smith. Mais adiante, outros autores começaram a criar ilustrações dentro de contextos temáticos e interpretações pessoais, daí encontrarmos hoje uma grande diversidade de significados. Bom exemplo disso são os livros de Jana Riley e de Bill Butler que trazem uma relação de interpretações para cada lâmina a partir dos baralhos mais conhecidos.

Se tomamos o número como referência para “pensar a carta”, temos no Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier & Alain Gheerbrant, por exemplo, que o  cinco representa o “centro da harmonia e do equilíbrio, os cinco sentidos, união, número nupcial segundo os pitagóricos”, etc. Mas o número 5, tradicionalmente, impõe alguma rebeldia, instabilidade e inquietação. É a imagem, por exemplo, do “aborrecente” que questiona as regras que lhe são impostas sem ter o correto entendimento da vida e suas responsabilidades. Confesso que, até então, é a primeira vez que vejo o 5 associado a equilíbrio – um atributo natural do número 6.

Os chineses dizem que é o número da Terra e que se a seqüência de 1 a 4 constrói e de 6 a 9 conclui, é no 5 que as forças são reorganizadas, sendo um período de reorientação.

Dan Millman, em um livro que gosto muito, Um Novo Sistema de Numerologia, diz que ter o 5 como propósito de vida é “encontrar a liberdade interior através da disciplina, da concentração e da profundeza da experiência”, sendo exatamente a ausência de liberdade e de disciplina seus maiores obstáculos.

A minha visão dos Arcanos Menores é fortemente influenciada pela tradição judaica. Deixo para falar em outro tópico sobre abordagens cabalísticas. Mas para não deixar o 5 de Copas passar em branco, sempre digo que as cartas cartas 4, 5 e 6 se referem ao plano emocional: a primeira expande, a segunda contrai e a terceira equilibra.

Depois de experimentar todos os prazeres no estágio 4 (o que alguns autores discordam, atribuindo expressões como “tédio” a ele), no 5 de Copas buscamos internamente o significado desta vivência, talvez porque ela não satisfaça mais ou porque é necessário compreender a lei da impermanência – nada permanece do jeito que foi um dia e a gente sofre em função do apego ao que é inconstante e pode, de uma hora para outra, escapar pelos dedos.

“Mas será que, a despeito da diferença simbólica do Tarot de Marseille, o 5 de Copas  devo utilizar a mesma interpretação  em uma leitura onde se usa um Waite Rider ou um Crowley?”

A gente tem que se ligar a uma escola e ser fiel a ela. O Tarot funciona de acordo com as convenções de quem joga. Obviamente, se cada um resolve criar seus próprios critérios, a coisa vira uma Torre de Babel e uma convivência no Orkut, por exemplo, se torna impossível.

Quando dou uma opinião, apresento a minha visão das cartas de acordo com os parâmetros da escola que escolhi e acrescento algumas opiniões pessoais. Se tivesse que perguntar para cada pessoa o baralho que ela utilizou, teria que ter em mente uns 10 significados diferentes para aplicar o pertinente ao jogo por conta da ilustração x, y ou z – e isso para mim não faz sentido.

Thoth Tarot

A experiência me conduziu a ter uma opinião ou outra diferente, mas não recriei o Tarot. Por vezes chego à mesma definição, mas por uma abordagem diferente, que me soa mais coerente e pode trazer mais esclarecimento ao consulente – se o Tarot não tem nada a ensinar, passa a ser um instrumento da fatalidade, o que não é o caso.

Paul Marteau, por exemplo, acha o 5 de Copas tudo de bom: é “clareza de concepção” no plano mental, “amor universal” no plano anímico e “aporte de segurança para orientar os acontecimento” no plano físico. Se você adotar Paul Marteu como referência e se sentir confortável com isso, não importa qual baralho use, será esta a sua definição.

De novo, esta é uma defesa minha. Há quem siga a regra do WYSIWYG (“What You See Is What You Get”), mas, bom… você já entendeu o que penso a respeito.

Espero que tenha te ajudado. Caso contrário, deixe um comentário aqui ou escreva diretamente para mim que eu complemento, ok?

 Esta ilustração não estava no post original. É uma lâmina que repito em algumas apresentações sobre Tarot. Para o mesmo 4 de Copas, com cinco interpretações – uma para cada baralho.

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About Marcelo Bueno 89 Articles
Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.