O Carro e a Arte de Seguir em Frente

O Carro | Tarot of The Holy Light
Tarot of The Holy Light

Dizem que 2008 será regido pela Roda da Fortuna (2+0+0+8=10) e, astrologicamente, pelo planeta Marte. Não levo nenhuma das duas informações a sério, mas achei boa a ideia de aproveitar a ocasião para falar do Arcano VII, o Carro.

“Como assim, o Carro não rege o signo de Câncer?”.  Então, os que associam o Tarot à Astrologia atribuem o signo de Câncer ao Arcano VII em função da letra hebraica Chet. É assim dentro de algumas escolas, da mesma forma que atribuem a ele a letra Zayn (Gêmeos) em outras. Ainda não apareceu quem me convencesse que Carro é Chet, logo, Câncer. Poderia ser Zayin, mas ainda acho que esta busca de correlações é forçada. É como dizer que eu tenho quatro gatas em casa. João também tem, “logo, eu e João temos muito em comum. Somos quase que a mesma coisa”. Não. Apenas gostamos de gatos – e olhe lá.

Se for para fazer associações astrológicas, a exemplo do Tarot Mitológico, daria como referência Marte (daí o post). Mesmo assim, com ressalvas.

Dentre os Maiores retratados pelo baralho de Marseille, é o único arcano em movimento. A orientação aqui é de alguém disposto a sair de onde se encontra para outro (estado ou lugar), melhor.

E ainda que O Eremita possa sugerir deslocamento, não o vejo como alguém que vai, mas que volta para compartilhar suas experiências.

Carro: pedra que rola não cria limo

Se não nos colocamos em constante movimento, acabamos por ficar enclausurados pelos tijolos mentais e emocionais. Eles vão surgindo e são empilhados ao nosso redor. Nada mais são do que a cristalização de crenças e condicionamentos. É claro que me refiro à Torre, 1+6=7. Sabemos muito bem como esta história termina. É comum dizer que A Torre força as mudanças que A Morte não promoveu por livre e espontânea vontade, mas esta não é toda a história.

A carta que antecede O Carro é O Enamorado: toda vez que chegamos a uma encruzilhada em nossas vidas é preciso cortar (como faz A Morte) com alguma coisa, pois optar é “escolher entre”. Assuma uma postura diferente, mude o rumo das coisas, deixe o velho para trás, abrace o novo. Às vezes é muito fácil fazer isso, mas é preciso.

O herói conta com a ajuda de dois cavalos para impulsioná-lo, símbolos de força e poder. Por serem dois, indicam a necessidade de coordenação e equilibro. As dualidades estão presentes em quase todas as cartas. Podemos pensar aqui em diferentes pares que precisam atuar de forma alinhada para que o Carro evolua como deve: razão e emoção, dentro e fora, matéria e espírito etc.

A Vida como um campo de batalha

A vida é um campo de batalha. Lutamos a cada instante pela nossa sobrevivência e sanidade – ilusão pensar o contrário. All you need is love, tudo bem. Não se trata de desejar a luta ou ter prazer com ela, mas de estar pronto, quando necessário. Muitas vezes a recusa em lutar é exatamente o que nos coloca em uma condição onde o caos prevalece.

Outro ponto importante é que as batalhas mais importantes não são travadas FORA, mas DENTRO de nós.

Antes da maldizer a sorte ou qualquer pessoa de seu relacionamento, busque na sua mente e no seu coração os elementos que verdadeiramente alimentam o seu sofrimento. 

Escreva esta frase em vários lugares para não esquecer.

Na literatura indiana encontramos um clássico de todos os tempo, o Bhagavad Gita. Ele narra a experiência da batalha vivida por Arjuna. O jovem está perdido em meio a uma guerra que ele não pediu para participar, mas não tem como ignorar.

Arjuna está à frente dos Pandavas, enquanto seu primo Duryodhama lidera os Kauravas. Antes que a batalha tenha início, os dois buscam o auxílio de Krishna ao mesmo tempo. Para ser justo, o deus oferece duas alternativas: um poderá contar com todas as suas armas e todo o seu exército; o outro contará apenas com a sua presença como condutor de sua carruagem. Para a felicidade de Duryodhama, Arjuna opta por contar com Krishna ao seu lado.

Olhe de novo para a carta do Carro. Onde estão as rédeas que conduzem os cavalos? Quando é a alma, e não o ego, que escolhe um caminho, entregamos as rédeas de nossa caruagem para D’us – e isso é mais do que suficiente.

A dificuldade que surge é que “entregar para D’us” significa sair do controle das coisas. Admita: tudo o que mais prezamos é a ilusão de que temos tudo sob controle. Dizemos alto “Que seja feita a Vossa Vontade”, mas suplicamos internamente “por favor, que ela não seja diferente da minha”.

A gente “entrega para D’us” e espera que o movimento aconteça, mas, às vezes, O Carro parece (veja bem, “parece”) não sair do lugar. E aí, tanto pode ser porque existe um tempo certo para cada ação ou porque as mudanças ocorrem de dentro para fora e só nesta última etapa a mente consciente consegue acompanhar o processo.

Em um dos comentários a respeito do Bhagavad Gita, encontramos a frase: “Mais vale uma morte merecida do que muitas indevidas”. De fato, algumas coisas precisam morrer, dentro de nós, para que outras tenham vida. Matar o desejo de controle, por exemplo, é necessário. Geralmente, como em Sexta-Feira 13, quando menos você espera, Jason está de volta. Por isso mesmo, orai e vigiai.

De pé entre dois exércitos

Visto a guerra aproximando-se do início, Arjuna pegou o seu arco-e-flecha e falou para Krishna:

“Ó Senhor, por favor, pare a quadriga entre os dois exércitos até que eu observe os que estão de pé, ansiosos para a batalha e a quem eu devo ocupar-me neste ato de guerra” — Bhagavad Gita 1:20-22.

Essa parte é sempre destacada porque general algum vai para o meio do campo de batalha para analisar os exércitos. Devemos entender que se trata do reconhecimento de que, dentro de nós, há duas forças tentando arrastar a nossa consciência para direções opostas.

Moshe Chaim Luzzatto, por exemplo, dizia que o homem nasceu em algum ponto entre a perfeição e a deficiência, com o poder de alcançar a perfeição, sim, mas, sempre sendo puxado pelo outro polo.

Empreender esta jornada requer coragem. Coragem, principalmente, de ser quem você realmente é, e não uma imagem idealizada pelos outros.

Osho dizia que não há grande diferença entre o covarde e o corajoso, além do fato que o covarde escuta os seus medos e os obedece, enquanto o corajoso escuta seus medos, afasta-os e segue em frente. O corajoso não é corajoso porque não tem medos, mas porque os têm e continua assim mesmo.

O medo surge quando estamos desconectados da vida. Desfrute a vida – isso também é do Osho – e o medo desaparecerá. A palavrar coragem vem do latim cor, que significa “coração”, assim, coragem tem a ver somente com “seguir o coração”, experimente.

Lot e a queda de Sodoma

Sodoma e Gomorra é uma história bem conhecida. Uma cidade destruída pela vontade de D’us é algo que podemos alinhar perfeitamente com a carta de número 16, A Torre, para continuarmos a falar do Carro.

De acordo com a tradição judaica, existe a Torá, revelada por D’us no Monte Sinai, e um conjunto de relatos paralelos compilados no ano 500 DC, na forma de um livro, o Midrash Rabbah. Os midrashim descrevem, muitas vezes, os bastidores de cada evento, de modo a trazer uma nova luz a cada ensinamento.

De forma muito resumida, dois anjos vão à casa de Lot, em Sodoma, e avisa que D’us irá destruir tudo. A vida dele e de sua família será poupada, mas eles precisam sair rapidamente da cidade e, em momento algum, olhar para trás.

A mulher de Lot, cujo nome não é revelado em momento algum, denuncia a presença dos forasteiros, de modo que os habitantes tentam capturá-los. Lot arrasta a mulher e as filhas solteiras para fora da cidade. As filhas casadas se recusam a sair.

Va’tabet Ishto Me’Acharav VaThi Netzivb Melach
“E sua mulher, tendo olhado para trás, transformou-se em um pilar de sal”.

Alguns estudiosos dizem que ela se transformou em sal porque foi com sal que os traiu – teria pedido sal nos vizinhos avisando que era para servir os visitantes que haviam chegado de surpresa. Eu arriscaria dizer que isso tem a ver com o poder de preservação do sal. Na própria Torá o pacto entre D’us e os homens é feito com sal para indicar que Ele jamais os abandonaria, mesmo que eles errassem repetidas vezes.

Tal como ocorreu à mulher de Lot, sempre nos transformamos em um pilar de sal quando estancamos entre o lugar/a condição em que não devemos permanecer (simplesmente porque não é boa para nós) e o lugar/a condição para onde devemos ir. Tentamos preservas as coisas, as pessoas, os vínculos – de forma consciente ou não – quando mais nada daquilo agrega às nossas vidas. Salgamos algo fresco para que ele não apodreça, mas não há como deter (pior, retroceder) um processo em franca deterioração. Resistimos, achamos que – passando mais um tempo – tudo melhora, pensamos no trabalho que dará promover mudanças. Bobagem.

Dezesseis que dá sete

Devemos nos afastar da Torre quando ela começa a desmoronar. Pegar o Carro e seguir para além, sem olhar para trás. Se ficamos, corremos o risco de sermos soterrados. Se avançamos de forma vacilante, corremos o risco de olharmos para trás e viramos sal.

O Carro | The Waite-Smith Tarot
The Waite-Smith Tarot

Gosto do Arcano VII do Waite, que coloca uma cidade ao fundo. Sair da cidade é sair da segurança, da zona de conforto. Buda largou tudo o que tinha para viver na floresta. A Torre e os muros da cidade têm a mesma cor. {imagem: Rider-Waite Tarot}

A palavra usada para “pilar”, netsib, deriva de natsab, que significa “ficar parado em pé”, como um soldado em posição de sentido. Ela congelou, estancou, se recusou seguir adiante. Mesmo que Lot tentasse puxá-la, não conseguiria. A mulher de Lot olhou para trás. Quem não olharia? Ela estava deixando toda sua vida para trás, amigos, parentes, duas filhas – talvez netos, não sei.

O sal é extraído das águas do mar. A água evapora, fica o sal. A água é a expressão do Amor. O sal é a expressão do Julgamento. Quando falta o desejo de compartilhar, a água, fica apenas o desejo de receber, o sal. A mulher de Lot não pensou no que poderia estar ganhando, apenas no que estava perdendo. Quantas vezes não agimos da mesma forma?

Talvez ela tenha pensado: “e se aqueles dois caras não são anjos de D’us coisíssima nenhuma?”. As pessoas, por vezes, nos falam de coisas com uma convicção profética. Nos dizem o que devemos e o que não devemos fazer. Seriam todas anjos/mensageiros de D’us? Nem sempre.

Fora o problema de lidar com o nosso próprio ego, por vezes temos que nos desviar do ego dos outros – seus medos, apegos, vaidades etc. Sempre tem alguém que julga ter todas as respostas. Alguém que acha que sabe o que é certo para você, põe o dedo em riste, desafia, faz ameaças. Será que sabe mesmo? Como reconhecer um anjo? Pergunte ao seu coração sem se deixar influenciar por afetos ou aversões. Não basta estar atento aos sinais, é preciso classificá-los para evitar enganos.

Um dos desafios do Carro é exatamente a autonomia, pois, na sequência de cartas, ele foi treinado para seguir ordens que vêm de fora sem maiores questionamentos. Foram anos de condicionamentos. Seguir a intuição poderia ser algo passível de pena de morte. O mundo não quer que você pense, apenas que siga as regras.

O que chamamos de “despertar de uma nova consciência” (lembrando que há vários níveis de consciência a serem alcançados), nada mais é do que o reconhecimento do modo como percebemos a realidade através dos filtros de nossas crenças, associações e interpretações. Quando ele identifica que faz isso ou aquilo com base em motivações que não lhe pertencem, surge a oportunidade de fazer diferente.

Talvez por isso, colocadas lado-a-lado, o Arcano VII ainda olhe para o seu antecessor, refletindo, lucidamente, “ah, no passado eu agiria desta maneira por causa disso e daquilo, mas hoje sou livre para tomar novos rumos”.

Lembrei do texto de introdução de Star Trek:

“Space, the final frontier. These are the voyages of the starship Enterprise. Its five-year mission: To explore strange new worlds. To seek out new life and new civilizations. To boldly go where no man has gone before”.

Que você, como eu, possa entregar de coração as rédeas de seus cavalos e corajosamente ir onde nenhum homem esteve antes para explorar novos mundos, novas vidas, novas civilizações. Nada tema, pois o seu caminho é um caminho de bênçãos. Feliz 2008!

Possam todos se beneficiar.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.