O Naipe de Espadas e as Quatro Nobres Verdades

Este texto foi produzido para o site Draco’s Home Page, criado por mim em 1997, e publicado no jornal Universus, em 1999. É, de certa forma, um clássico entre os textos de Tarot que circulam por aí, com cópia e citações em alguns outros sites, blogs e fóruns. Sendo assim, não pode ficar de fora do Zephyrus. O trecho que fazia uma pequena preleção sobre sofrimento foi trocada, pois a fonte (descobri bem mais tarde), .

Naipe de Espadas | Engels Tarot
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O Naipe de Espadas está ligado ao elemento Ar e a Yetzirah, o “Mundo Formativo” da Árvore da Vida, representando a necessidade de libertação das ilusões dos mundos inferiores (ego) para a verdadeira comunhão com o espírito (self) – definição de G.O. Mebes.

Astrologicamente, o Ar representa as faculdades da mente, a expansão, a energia das idéias em movimento: o vento que liga o Céu à Terra, a eterna juventude, a rapidez, a superficialidade, a dualidade (Gêmeos); os pesos e medidas, o equilíbrio dos opostos, as relações, o eterno desequilíbrio em busca do equilíbrio (Libra); o vendaval que derruba o velho e traz o novo, a renovação da atmosfera através das tempestades (Aquário).

O Naipe de Espadas quando se faz presente no plano físico representa diferentes tipos de restrições e oposições; no plano anímico representa a negação dos valores atuais; e no plano espiritual representa os desafios que põem à prova a fé do indivíduo.

De um modo geral, a maior dificuldade de quem estuda o Naipe de Espadas é conciliar os fortes conceitos do elemento Ar oriundos da astrologia (principalmente a chamada Astrologia Psicológica) com o curso desta energia dentro da Árvore da Vida, pois estaremos lidando com o desafio da mente em perceber a realidade como ela é, e não necessariamente com o mundo da comunicação e relacionamentos, que é o que as pessoas normalmente esperam.

A consequência imediata deste labirinto de informações e expectativas é um número enorme de diferentes (e confusas) interpretações a respeito das cartas de Espadas. A única coisa que a grande maioria concorda é que “cartas de Espadas são ruins”, o que é equivocado e não ajuda muito sem os devidos esclarecimentos.

A começar pelo símbolo do naipe, podemos concluir, num primeiro momento e sem muita filosofia, que existe um desafio no ar, caso contrário não haveria necessidade de uma arma. Embora alguns baralhos representem Paus por lanças ou tacapes e Ouros por escudos, o certo seria termos sempre cetros (autoridade, poder) e moedas (mundo material).

Aquele que carrega uma espada deveria ser um cavaleiro ou guerreiro, treinado e disciplinado em termos de agressividade. Nas mãos de um leigo, uma espada pode ser tanto uma ameaça para seus oponentes como para si próprio. Eu diria, inclusive, que é uma ameaça maior para si do que para os outros. Em outras palavras, aquele que não entende o propósito da espada em suas mãos e a nega ou a usa indevidamente estará sempre entregue à sua própria sorte.

Embora possa parecer estranho para alguns, foi nos fundamentos do Budismo que encontrei toda a explicação que precisava a respeito do Naipe de Espadas, a começar pela expressão “sofrimento”, muito utilizada quando se estuda sobre uma coisa ou outra. Para quem não sabe muito a respeito, as “Quatro Nobres Verdades” anunciadas por Buda em seu primeiro sermão são de extrema importância:

  • A verdade da existência do sofrimento (existe em função da desarmonia entre o eu pessoal condicionado – o Ego – e o mundo real não-condicionado);
  • A verdade da causa ou origem do sofrimento (trata-se da necessidade do Ego em satisfazer os sentidos, e como no Universo tudo é transitório, mutável e perecível, os prazeres obtidos não se sustentam por muito tempo, fazendo com que o Ego procure continuamente novas formas de satisfação);
  • A verdade da cessação do sofrimento (obtida através da total erradicação de todas as formas de desejo);
  • A verdade do caminho que conduz à extinção do sofrimento (conhecido por muitos como o “Caminho do Meio”, pois evita os dois extremos: o primeiro, ligado à auto-indulgência, o conforto, o prazer físico e tudo o que nos traz apego às paixões; o segundo, ligado às disciplinas severas de auto-mortificação).

Segundo Buda, tudo está na dependência da mente (que no Tarot está ligado ao Naipe de Espadas).

“Ainda que nos esforcemos muito para encontrar felicidade, ela continua sendo esquiva para nós, ao passo que sofrimentos e problemas parecem vir naturalmente, sem nenhum esforço. O que acontece é que normalmente buscamos felicidade fora de nós mesmos. Tentamos conseguir as melhores condições materiais, o melhor emprego, o mais elevado status social, e assim por diante; mas, independente do sucesso de nossa situação exterior, continuamos a ter muitos problemas e muita insatisfação.

Nunca sentimos felicidade pura, duradoura. Nos ensinamentos de dharma, Buddha nos aconselha a não buscar felicidade fora de nós mesmos, e sim incuti-la dentro de nossa mente. Como fazer isso? Purificando e controlando nossa mente por meio da prática sincera do Buddhadharma. Se treinarmos deste modo, poderemos garantir que nossa mente se manterá calma e feliz o tempo todo. Então, não obstante o quão difíceis possam ser nossas circunstâncias exteriores, estaremos sempre felizes e em paz. A partir disso, podemos perceber que as principais causas de ambos, felicidade e sofrimento, estão na mente, não no mundo exterior”.

E é aí que se encontra a grande questão do Naipe de Espadas: a busca da felicidade (Copas) em meio ao sofrimento gerado pelos valores da matéria (Ouros).

A expressão “sofrimento” no Budismo, inclusive, merece por si só alguns esclarecimentos, pois foi a melhor forma que nós, ocidentais, encontramos para traduzir duhkha, que é um termo muito mais próximo de “insatisfação” do que de “sofrimento”. O sofrimento, para nós, está muito fortemente associado à agonia e à dor, o que não é exatamente o ponto a ser abordado. A insatisfação, por outro lado, envolve o desapontamento, a desilusão, a perda, a vergonha, o descontentamento, a doença, a decadência, a ansiedade, e por aí afora. Em Copas, por exemplo, isso acontece muitas vezes quando a nossa expectativa é muito maior do que as possibilidades.

Outra expressão muito utilizada entre os praticantes do Budismo no ocidente é delusão, pouco conhecida em nosso idioma. Delusão é um fator mental que nasce a partir de uma observação imprópria e cujo funcionamento torna a mente agitada. Há três delusões primordiais: ignorância, apego e ódio, e delas derivam muitas outras, tais como ciúmes, orgulho e dúvida delusória, entre tantas outras. Delusão e ilusão diferenciam-se a partir do momento em que ilusão refere-se a algo que parece verdadeiro aos sentidos embora a mente reconheça como falso e delusão refere-se a algo que, embora falso, é tido como verdadeiro tanto para a mente como para os sentidos.

Em síntese, o principal objetivo do Budismo é a libertação do sofrimento para que alcancemos um estado de permanente paz interior por meio do completo abandono das delusões.

Mesclando estes princípios ao estudo do Tarot, temos que o fluxo ininterrupto de pensamentos, idéias, lembranças e emoções geram o caos e a falta de discernimento. Isso ocorre porque, para o indivíduo comum, o conceito de realidade está intimamente ligado às percepções de sua mente e, influenciada pelo ego, a mente nem sempre percebe que toda existência é transitória, e nossa percepção, superficial. Então, constantemente dominado pelo apego, valores e desejos, este homem acaba achando “normal” ficar aborrecido e revoltado (e sentir ódio, ciúme, ansiedade, etc.) toda vez que é contrariado em seus interesses, sem notar que, de fato, é única e exclusivamente a sua ignorância que o torna tão limitado. São dessas impurezas da mente que surgem todos os problemas humanos.

É importante ressaltar, contudo, que não que resida na mente a fonte de toda a realização, mas somente através dela que o ser humano encontra a comunhão com o self (experiência alcançada no Naipe de Copas) ou permanece indefinidamente isolado dele (experiência vivida em Espadas).

I-Ching Holitzka Deck

Usando também de alguns elementos no I Ching, especificamente no hexagrama 39 – Obstrução, descobrimos que as dificuldades e obstáculos sugerem uma interiorização. E enquanto o homem inferior culpa o mundo e incrimina o destino, o homem superior procura o erro em si mesmo, transformando o impedimento em oportunidade. Em outras palavras, somente quando a vida nos maltrata é que aprendemos a lidar com ela. Por isso, a necessidade de vivenciarmos Espadas em alguns (ou vários) momentos de nossa existência para que busquemos o verdadeiro sentido de todas as coisas. 

Considerando então a sequência de Espadas como uma experiência exclusivamente interna, portanto profundamente individual, toda e qualquer interpretação vai depender de pelo menos três fatores: 1. da personalidade do consulente; 2. do nível em que o mesmo está vivendo sua experiência (daí o erro em se “generalizar a tragédia”); 3. do grau de consciência do consulente com relação ao seu momento, ou seja, quanto mais identificáveis forem os fatores dissonantes mais fácil será discuti-los (e resolvê-los).

Os que julgam que “o destino é cruel” são sem sombra de dúvida, os mais difíceis de se lidar. Na maioria das vezes é recomendável, inclusive, o encaminhamento destas pessoas para profissionais competentes para que, com a ajuda deles, elas encontrem as respostas para suas angústias e tormentos de forma gradual, controlada e, consequentemente, segura.

Num jogo com muitas cartas de Espadas, cabe ao tarólogo descobrir quais são as mensagens por trás do desconforto no trabalho, da agonia pela falta de recursos para um projeto ou para a manutenção satisfatória do dia-a-dia, ou ainda, da posição clara de conflito entre o consulente e uma pessoa de sua relação íntima, profissional ou social.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.