O Tarot do crioulo doido

Oswald-Wirth-Tarot-Deck
Box da edição recente do Oswald Wirth Tarot

Quando comecei a aprender o Tarot, me ensinaram que os quatro primeiros arcanos (Mago/1, Papisa/2, Imperatriz/3 e Imperador/4) representavam as energias dos quatro elementos, respectivamente: Fogo, Água, Ar e Terra.

Não que fosse algo pão-pão, queijo-queijo, mas que havia uma predominância deles em cada carta. Explico em linhas gerais (e sempre fez sentido para mim): O Mago é força de ignição para a jornada (ou para qualquer outra coisa), por isso o Fogo; a Papisa representa a Água do inconsciente porque deveríamos primeiro entender as nossas reais motivações antes de tomar qualquer atitude.

A Imperatriz evoca o Ar da inteligência, do discernimento, dos mundos das ideias e da conectividade (as relações humanas, de modo geral, assim como as relações do homem com o meio). Ela é a relações públicas e a eminência parda do Imperador. Como aprendi no Marseille, destacava-se o fato do espaldar do trono lembrar asas – no Oswald Wirth essas asas foram  oficializadas, sustentando o princípio de uma ligação da terra com os céus. Por fim, o Imperador é aquele que traz a mente abstrata da Imperatriz para o mundo concreto, convertendo pensamento em ação. Ele também é o grande provedor, pois o rei deve se responsabilizar pela proteção e segurança de seus súditos, logo, sua energia corresponde ao elemento Terra.

Não sei se você aprendeu assim.

Ocorre que Rachel Pollack e Robert Place estão desenvolvendo um baralho com tema judaico, o Raziel Tarot, e publicando no Facebook cada lâmina que fica pronta. Para o Arcano III, escolheram Miriam, irmã de Moshé (Moisés) e Aaron (Arão). Em meio aos #mimimi’s da Internet, teve então quem implicasse com a afirmação de que a Imperatriz do Raziel  estivesse associada ao elemento Água porque, “afinal, a Imperatriz representa a Terra”.

The Raziel Tarot
The Raziel Tarot

É fácil imaginar de onde vem esta percepção, pois muitos são fortemente influenciados pelo campo verdejante criado por Arthur Waite e Pamela Colman Smith no Rider-Waite e reproduzido por vários outros autores depois disso. Mas aí eu me deparei, em meio à troca de opiniões, com outra configuração destas quatro lâminas, onde o Imperador é o Fogo e o Mago é o Ar, entre outras justificativas, porque o Mago é regido por Mercúrio e o Imperador é regido por Áries, de acordo com a tabela da Golden Dawn.

Isso continuou a não ser muito importante até que outras pessoas começaram  falar mais ou menos a mesma coisa, agora com relação à imagem do Eremita, com  Moshé diante da sarça ardente. Para uma pessoa, a carta parecia perder a “a regência de Terra” (“porque o Eremita é Virgem”) ao se dar demasiado destaque ao fogo. o.O

Apenas pare.

Pare de justificar o Tarot , com letras hebraicas, pare de justificar o Tarot com signos e planetas, pare de justificar o Tarot com atributos numerológicos ou qualquer outra coisa que já exista ou se invente. Só pare. Este tipo de desinformação faz com que alguém afirme que o auriga do Carro sempre volta para casa “porque ele é Câncer” e isso, minha gente, non ecziste!

Talvez você esteja se coçando para dizer “Tarot é Tarot”. Se for o caso, pare com isso também. A frase é boa, ok, mas desde a primeira vez que a li em algum lugar tenho acompanhado várias distorções. Também gente que a usa tentando ganhar discussões no grito de forma rasa, como se fosse um jogo de truco. Não se trata disso.

B.O.T.A. Tarot
B.O.T.A. Tarot

Veja só: por que a Temperança é associada ao signo de Sagitário? Você já parou para pensar nisso? Que atributos astrológicos podem ser claramente conectados com as características que conhecemos da carta? Para mim é um tanto confuso, até porque o arcano fala de moderação e o signo é expansivo por natureza, dado a excessos quando mal trabalhado. O B.O.T.A. (Builders of the Adytum), aí ao lado, acrescentou uma tocha à imagem (além do leão e da águia)  talvez para justificar o fogo sagitariano em uma ilustração em que a principal característica, até então, era a água sendo vertida de uma ânfora para a outra. O Thoth Tarot, por sua vez, adotou o discurso de uma operação alquímica em andamento diante de um caldeirão.

A resposta está na letra hebraica Samech, a décima-quinta do alfabeto hebraico, que rege o signo de Keshet (Sagitário). Então a “lógica” é que se Samech rege a Temperança e o signo de Keshet, “logo”, Keshet está associado (ou rege) ao Arcano XIV. Por favor, não. Samech sequer tem atributos pertinentes à Temperança. Quem já fez o curso do Alef-Beit comigo sabe disso.

Se você pertence a uma escola iniciática, estas associações talvez sirvam para outro propósito, não discuto isso, mas para o aprendizado do Tarot, esqueça. O Tarot é um sistema completo em si mesmo, tal como outros corpos de conhecimento. Como todos se referem à mesma realidade, é claro que teremos abordagens que se aproximam em algum momento, mas muitas correlações 1×1 são, no mínimo, equivocadas – e é preciso tomar cuidado com isso.

“Ah, mas pelo menos todo mundo concorda que a Papisa é regente da (ou regida pela) Água!”. Olha só: os quatro elementos estão presentes em qualquer uma das lâminas, seja na proporção que for. Isso, de verdade, nem é importante, mas quer tomar a Papisa como exemplo? Vamos lá:

Não pense na Água apenas porque a ilustração do Rider-Waite sugere isso. Busque os fundamentos. Se o Mago fala de um impulso para fora, para desbravar a vida, a carta seguinte, a Papisa, evoca um olhar para dentro, buscando pelo equilíbrio e pela sabedoria que residem em cada um de nós. Como eu me sinto com relação a isso? Por que (ou de que forma) esta experiência afeta o meu equilíbrio interno, quer seja perturbando ou restaurando? Parece algo simples, mas não é. Primeiro porque a gente pouco para para fazer este tipo de reflexão. Depois, porque a resposta certa nem sempre é a primeira. É preciso ir fundo e lidar com as motivações inconscientes – e isso é Água.

Arte de mari-na no DeviantArt
Arte de mari-na no DeviantArt

O livro (ou pergaminho) no seu colo traz o registro de conhecimentos ocultos. É preciso mostrar o seu valor para que ela compartilhe o seu conteúdo. Mas as informações gravadas em suas páginas não estão ali para serem meramente lidas. Elas precisam ser interpretadas. Aos olhos de um leigo talvez seja apenas uma história como outra qualquer, mas, para quem possui as chaves, os códigos surgem e revelam o que realmente interessa – isso é o Ar.

A Papisa encontra-se na porta de um templo, sendo a sua guardiã. Fora o fato de existir algo, aparentemente, físico a ser protegido, gosto de pensar que, de verdade, ninguém tem acesso ao seu interior. Waite escreveu “Tora” no papiro. Torá, em hebraico, significa “direção”. A Torá, para os judeus, não é um livro que conta a criação do mundo e a história de um povo, mas um livro de instruções sobre a forma correta de se conduzir nesta existência. E o que eu quero afirmar com isso é que o conhecimento pode até ser transcendente, mas foi colocado à disposição (por quem fizer por merecer) para ser aplicado neste mundo, neste tempo, aqui e agora – e isso é a Terra.

Pare, converse com a Papisa(caso ela permita), mas não se detenha por muito tempo, entende o que eu digo? Ela não te convida para algo que te deixe confortável. Ela não vai te contar tudo o que você deseja (diferente de “precisa”) saber. Tudo ali é austeridade porque você precisa seguir viagem. O papel dela é te mostrar um sentido para o que você está fazendo (ou pretende fazer) e uma direção. Algumas pessoas desempenham papéis importantes em mosteiros e ashrams, mas essa vida não é para todo mundo. A gente entra, aprende, recicla e sai para aplicar tudo o que conseguiu assimilar em um mundo com contas para pagar, relacionamentos dos mais variados, filhos para criar… e por aí vai.

A Papisa (ou Sacerdotisa) traz em seu nome um papel espiritual. O Fogo, que muitas vezes alimenta as paixões, aqui não apenas é contido, mas também canalizado para a busca do que é mais elevado. A Ner Tamid (Luz Perpétua) preservada no altar como uma lembrança constante da presença do Divino em nossas vidas.

Para fechar a tenda, foco no que é básico. Os símbolos presentes em cada lâmina (especialmente nos baralhos tradicionais) oferecem tudo o que você necessita aprender para seu desenvolvimento pessoal, previsão e aconselhamento em consultas. O Tarot conversa com outras artes? Claro, mas saiba sempre respeitar as individualidades.

Possam todos se beneficiar.

————

“Samba do Crioulo Doido” é uma música satírica composta pelo escritor e jornalista Sérgio Porto, sob pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, em 1968, para o Teatro de Revista, em que procura ironizar a obrigatoriedade imposta às escolas de samba de retratarem nos seus sambas de enredo somente fatos históricos. A expressão do título é usada, no Brasil, para se referir a coisas sem sentido, a textos mirabolantes e sem nexo – fonte: Wikipedia

Posts Relacionados:

About Marcelo Bueno 86 Articles
Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.
  • Zoe

    As correlações com outros sistemas, ao invés de nos ajudarem a esclarecer o conteúdo das cartas, só atrapalham. A não ser que só usemos o Tarot do Crowley, por exemplo, e aí respeitemos essas associações como regra, inclusive e principalmente no plano imagético. Nesse caso, a associação do Carro com o signo de Câncer pode sim significar que para começar um empreendimento, um caminho, uma ação, é bom estar inteiro, com a carapaça, o corpo em ordem. Entronizado, como diz o próprio Crowley. E o Santo Graal e sua associação com a lua cheia (o Grande Mar de Binah) também propicia a interpretação que as emoções deveriam estar sob controle. Então, mais do que voltar para casa O Carro precisa saber SAIR de casa.

    • Baralhos temáticos ‘complexos’, por assim dizer, são ‘reinvenções’ da matriz com códigos próprios e precisam ser respeitados com esse olhar. A pessoa precisa ter consciência disso e não se deixar contaminar, pois corre o risco de fazer exatamente isso: o Carro é partida, mas, como também é Câncer, sempre volta. Isso é limar os atributos do arcano, agora transformado em um bumerangue. A letra Chet, regente de Câncer, fala, dentre outras coisas, de limites. É a cerca que separa as propriedades e estabelece um ‘dentro’ e ‘fora’, mas tem uma pegadinha de ‘dentro’, ‘fora’ e ‘além’ porque Chet também é oito e oito é um número que fala de transcendência. Algumas das celebrações judaicas têm oito dias porque evocam esta energia que está acima do mundo natural e suas regras. É um samba confuso mesmo.