Pajem de Espadas: nem tudo é intriga

Muito, muito antes de He-Man, meninos já gostavam de brincar de luta com espadas (sem trocadilhos). Quando pensei no post, lembrei de ter visto este projeto de design em algum lugar e fui atrás: uma simples peça de borracha que dá cara de espada a um galho de árvore – quem nunca? As pessoas geralmente têm uma visão ruim do Pajem de Espadas (alguns, de fato, não valem nada), mas começo construindo uma imagem simpática para que possamos explorar sem preconceito outras possibilidades de interpretação.

Tive 3 atendimentos programados para o mesmo dia, esta semana, e uma das clientes desistiu na hora. Não ficou muito claro se a amiga que atendi primeiro que havia ‘forçando a barra’ com a intenção de ajudar ou se ela pediu o agendamento, aproveitando a oportunidade da companhia, e amarelou no caminho – isso nem vem ao caso. O meu sentimento foi que ela ficou com medo de ouvir o que já sabe. Uma consulta de Tarot pode colocar em xeque uma situação que a ignorância protege, a gente sabe.

Sacred Rose Tarot
Sacred Rose Tarot

Tanto a amiga quanto a menina que atendi mais tarde saíram de Pajem de Espadas como Significador. Com 56 cartas embaralhadas, a escolha da mesma Figura da Corte em duas consultas seguidas é algo curioso. E citei a menina que desistiu apenas porque, de alguma forma, não sei se o Pajem de Espadas também não se fez presente no momento em que ela recuou diante daquilo que poderia vir a saber – mais uma expressão negativa da carta, que é a incapacidade de remover os véus uma situação.

Do outro lado do Tabuleiro, duas mulheres maduras (falo de atitude, não de idade) vivendo um período de transição e mais ou menos conscientes do que precisam fazer. O céu não lhes cai sobre a cabeça, mas existe um desconforto – a Morte que lhes cutuca antes que a Torre precise desmoronar. As consultas serviram de empurrão para ambas. É da natureza de um Pajem precisar de encorajamento para crescer e não existe nada de errado nisso, pois a sua condição é sempre de aprendiz.

No caso de um Pajem de Espadas, esse encorajamento pode vir na validação de uma percepção, pois existe uma enorme necessidade de compreensão dos fatos, mas nem sempre ele está preparado para decodificar as informações que chegam, por mais que a experiência em si não seja nova – e pior ainda se for.

A simbologia é clara: o naipe de Espadas anuncia um desafio, um enigma a ser decifrado e a possibilidade de se libertar de uma dor. Se fosse Paus, “desafio” e “enigma” soariam como uma aventura a ser vivida cheia de entusiasmo, mas não é o caso. É preciso coragem e muita imparcialidade nessa hora. Imparcialidade, inclusive, para reconhecer, em algumas circunstâncias, que o inimigo não está fora, mas dentro dele, na forma de condicionamentos, vícios, apegos, medos, mágoas etc.

Pajens são crianças e, por isso são impressionáveis, acreditam em primeiras impressões e naquilo que é dito por pessoas em quem confiam. Crianças também falam o que pensam, sem filtro. Portar uma espada pela primeira vez é o início de um processo de expurgo e desenvolvimento da análise crítica. Como espadachins em treinamento, não querem ferir mortalmente, ainda que saibam que machucar, por vezes, é inevitável. Por isso não apenas as decisões, mas também as palavras também precisam ser planejadas. Nem sempre é o que se diz (e nem tudo precisa ser dito), mas a forma como isso é feito.

O legal é que embora as duas tenham saído de Pajem de Espadas, o jogo revelou que a primeira deveria descobrir a sua verdadeira condição de Rainha de Ouros, enquanto a segunda guarda uma Rainha de Paus pronta para assumir a situação. O Pajem, nos dois casos, revelou mais a insegurança do momento do que uma real limitação para resolver o assunto.

E como lidar com um Pajem de Espadas? Se a pessoa for do bem (e se não for, leia o texto do Leo Chioda que marquei no início do post), você está diante de alguém que precisa de respostas, e nenhuma delas poderá ser “porque sim” ou  “porque não”.  Lembre-se que “porque sim não é resposta”, já dizia Telekid, no Castelo Rá-Tim-Bum. 

Respeite a pergunta, por mais tola que ela possa parecer, e prepare-se para adaptar a resposta ao nível de compreensão do seu Pajem. Não force a barra e não o trate como idiota. Contextualize, estimule a reflexão, pondere colocações incorretas e permita que ele chegue às suas próprias conclusões. Comecei a falar disso por causa de um jogo, mas não é difícil encontrar este Pajem nas suas relações pessoais onde as cartas não estarão disponíveis para conduzir uma orientação. Ajude, tanto quanto possível e consciente de suas próprias limitações, para que ele alcance, em algum momento, o estado de Cavaleiro.

Confesso que este texto era bem maior (e um tanto mais complexo) na minha cabeça, enquanto voltava para casa depois dessas consultas. Como não quero correr o risco dele se transformar em mais um post que existe exclusivamente em um blog imaginário, compartilho o que tenho para oferecer neste instante.

Não é o primeiro post em que arrisco falar bem do Naipe de Espadas, incluindo a sua Corte, e o objetivo é sempre sair do lugar comum. Espero que através de uma experiência real e alguma reflexão você aumente o seu repertório. Se você concorda ou discorda, se tem algo para acrescentar, escreva nos comentários e transformamos isso numa conversa.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.
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    Essa foi a melhor e porque não dizer talvez a única explanação mais bem colocada que já li sobre o Pajem de Espadas. Realmente é fato que toda criança não permanecerá criança para todo sempre e sendo assim, se bem conduzida, sairá da ignorância para adentrar no mundo adulto. O que eu vejo por ai, é muita gente achincalhando os Pajens porque são imaturos emocionalmente e independentes da idade em questão, mas através dessa nova ótica a relação na leitura será diferente.