Por um Tarot sem rótulos

Tarot de Marseille Conver-Heron

O dicionário define estereótipo como um “padrão, geralmente formado de idéias preconcebidas e alimentado pela falta de conhecimento real sobre o assunto em questão”. Regina Célia de Souza escreve no artigo Atitude, Preconceito e Estereótipo, para o site Brasil Escola, que “quando nossa primeira impressão sobre uma pessoa é orientada por um estereótipo, tendemos a deduzir coisas sobre a pessoa de maneira seletiva ou imprecisa, perpetuando, assim, nosso estereótipo inicial”. Não poderia colocar melhor esta questão.

Não sabemos exatamente de onde o Tarot veio e qual o seu propósito original. Sabemos, contudo, o que ele se tornou e trabalhamos com isso.

Nos últimos 20 anos – tempo em que me dedico ao estudo do Tarot – percebo claramente muitas distorções provocadas, principalmente, pelo desinteresse das pessoas em se aprofundar no significado das cartas e o que elas têm, verdadeiramente, para oferecer. Algumas leituras são construídas como uma colcha de retalhos de palavras-chaves ou frases viciadas nem sempre compatíveis com a estrutura do jogo escolhido ou com as circunstâncias em pauta, pois se convencionou, por exemplo, que um 4 de Copas é tédio, um 7 de Espadas é furto, um Enamorado é afeto, uma Temperança fala de atrasos e isso, assombrosamente, satisfaz um número considerável de intérpretes que privam seus consulentes de um percepção mais ampla a respeito de si mesmos e do mundo que os cerca.

Dia desses, em aula, propus um exercício: em um evento social, as Rainhas dos quatro naipes são convidadas. Pedi que o grupo descrevesse como elas se prepararam para a ocasião e o que vestiam. Fica muito clara a questão dos estereótipos numa situação como essa, quando poucos fragmentos são tratados como o todo. Ninguém é uma coisa só; o mesmo vale para as cartas.

A índole não é boa ou má por se tratar de uma Rainha de Copas ou Espadas. Qualquer uma das duas pode ser profunda como o oceano ou tão superficial quanto uma poça d’água; suave como uma brisa ou destrutiva como um vendaval. O que as diferencia é o que prioritariamente as mobiliza: qualquer carta de Copas reforça os atributos do coração, assim como qualquer carta de Espadas reforça os atributos da mente. Achei engraçado, inclusive, ter ouvido pela primeira vez – e parece que isto é referência de livros, não entro neste mérito – que uma Rainha de Copas “é feia, mas romântica”… Isto é tão cartomancia quanto identificar uma Rainha de Espadas como “viúva ou amante”.

Funciona? Bom, se você estabelece estas convenções, sim. Mas as cartas irão responder apenas estas pequenas coisas, resultando em uma leitura pobre.

“Mas quem me procura quer saber é disso mesmo, fazer o quê?”. Geralmente ouço este argumento. E o que penso a respeito é que mais importante que o desemprego, a traição, a doença ou qualquer outra coisa que represente um problema neste momento é o entendimento de como nossos pensamentos, emoções e atitudes contribuem para que estas coisas aconteçam. Todo desconforto é um sinal de alerta, um indicativo de que algo em nosso sistema necessita de um pouco mais de atenção.

É preciso ter em mente que a “pobreza” do 5 de Ouros nem sempre reflete, com exclusividade, a ausência de recursos, mas um estado de espírito onde não valorizamos nossos talentos ou aquilo que nos é colocado à disposição. Ensina o Pirkei Avót (a “Ética dos Pais”) judaico: “Quem é o homem rico? Aquele que é feliz com sua porção” (4:1). Quando assumimos a responsabilidade por tudo o que vivemos, ganhamos reais condições de promover mudanças, pois tudo reside no entendimento – ou a falta dele.

O conhecimento do Tarot está nos livros e no discurso dos que ensinam Tarot, mas também se revela em outros saberes. Não, não se trata da criação de novas vertentes do Tarot, mas do reconhecimento dos mesmos ensinamentos em outras fontes de informação de modo a enriquecer o seu discurso. Não é por acaso que muitos dos meus livros trazem números à lápis ao lado de algum parágrafo ou apontando para única frase.

Eva Pierrakos, do método Pathwork, por exemplo, ao transcrever a palestra do Guia que fala da crise como um processo de desconstrução necessário para o crescimento, nos dá uma bela aula a respeito da Torre sem fazer qualquer referência ao Tarot. Isto não muda o desconforto emocional e prático que uma reviravolta em nossas vidas promove, mas quando entendemos a função da crise, vamos além do conceito de “rupturas sobre as quais não se tem qualquer controle”.

Modern-Medieval Tarot

O Tarot não descreve como as coisas SÃO, mas como elas ESTÃO. Brinque com isso. Exercite todas as possibilidades. Colocar as 4 Rainhas de uma vez numa festa não é muito didático, mas pense em um arcano por vez em diferentes situações. Quais as reações possíveis do Louco numa fila do banco, desenvolvendo um projeto, educando os filhos, dentro de um relacionamento, respondendo a uma entrevista de emprego, …?

E não pegue qualquer atalho descrevendo apenas uma criatura inconseqüente. Se a carta do Diabo ou da Lua aparecem em um jogo como conselho, isto não significa que você deve ser, alguma forma, inescrupuloso ou evasivo. Sempre há muito mais o que se dizer.

O tarólogo Giancarlo Kind Schmid sugeriu, em sua palestra no 17º Encontro da Nova Consciência, que as pessoas tirassem a carta do dia pela manhã, mas só virassem a lâmina à noite – você passa o dia inteiro sem saber a carta que sorteou. Acompanhei de perto uma pessoa que fez este exercício diariamente durante algum tempo e é muito interessante observar as nuances que se revelam através da própria experiência, incluindo vivências bem distintas em dias associados ao mesmo arcano.

Este, obviamente, é um discurso e um convite de alguém que aprendeu e continua aprendendo com as cartas e gostaria que outras pessoas usufruíssem do mesmo benefício. Se estas palavras ganham ressonância em você, invista em bons profissionais e boas fontes de referência.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.