Quando a Morte chama


Faz algum tempo que não escrevo sobre as lâminas do Tarot (faz um tempo que não escrevo aqui, by the way) e retomo o compromisso abordando uma carta que, já pelo nome, faz com que as pessoas se ajeitem na cadeira. {imagem: Thoth Tarot}

Não importa em que momento da linha do tempo do Tarot, a imagem de um esqueleto segurando uma foice é a clássica representação do Anjo da Morte – aquele que raramente é bem vindo e muitas vezes encerra sonhos e esperanças. Claro, essa é uma forma de ver as coisas, mas não se trata de uma visão do Tarot, a começar pelo fato que a carta da Morte não se refere a um agente externo (a não ser que o jogo indique) e muito menos a morte física, mas à própria iniciativa do consulente em promover mudanças significativas em sua vida.

“Então, se é assim, por que incomoda?”

Porque, uma vez no jogo, a carta da Morte sinaliza que algo em nossas vidas se encontra em estágio de deteriorização e precisa ser transformado – uma coisa que nem sempre queremos ou nos sentimos aptos a fazer. Lógico que o primeiro pensamento que se segue à Morte é “fim” e, neste sentido, podemos imaginar que a presença do Arcano XIII em uma relação afetiva, por exemplo, decretaria a necessidade de rompimento, mas o que precisa ser rompido é um padrão de comportamento antes de qualquer outra coisa.

E aí, sim, se percebemos que o padrão não pode ser mudado – que está além da capacidade/interesse das partes – nada mas resta do que encerrar o processo como um todo antes que o casal, no caso, entre em colapso (Torre).

Esta relação entre Morte e Torre, por sinal, é de grande importância, pois aquilo que negligenciamos num primeiro momento se vira contra nós depois. Guardadas as devidas proporções, é como uma pessoa que começa a sentir uma dor e não procura o médico para um tratamento sem maiores inconvenientes (13) e acaba parando em uma cirurgia de emergência (16) quando a coisa chega a um ponto crítico.

Em outras palavras, se você não muda, a vida promove as mudanças por você. Encare o Ceifador, então, como um alerta para o realinhamento de suas perspectivas, principalmente se considerarmos a condição de ponta-cabeça do arcano anterior – o Pendurado.

A situação geralmente complica quando sabemos que algo não vai bem e apostamos errado na Roda da Fortuna, achando que tudo é uma fase e o problema vai se resolver sozinho, quer façamos isso por acomodação, ignorância ou medo. Também quando não somos verdadeiros em nossas mudanças. Vejo muitas destas armadilhas disfarçadas de falsa-mudança e blefes vazios em consulta. Se fosse um almoço, seria como tomar café com adoçante depois de uma refeição para lá de calórica alegando estar de regime.

Nas relações humanas, são aqueles golpes em que o tiro sai pela culatra e depois rola um baita arrependimento, cabendo ao tarólogo trazer alguma esperança para um fato que – na maioria das vezes – está consumado.

Explorando diferentes níveis de interpretação desta lâmina, temos que a palavra hebraica para “osso” é etzem e que etzem, metaforicamente, se refere ao que é (mais) “interno” ou “essencial”. Muito comum encontrar expressões como etzem ha’inyan, por exemplo, que endereçam a conversa para o “cerne da questão”.

Em “tarologuês moderno”, isto significa que as mudanças devem ocorrer no ponto nevrálgico. Não varra a sujeira para debaixo do tapete. Evite maquiagens e medidas paliativas. Faça o que precisa ser feito. É preciso entender, sem culpas, que algo que já foi bom não é mais. Às vezes a gente corre da carta da Morte porque ela envolve aborrecimentos e/ou dá trabalho… talvez magoe alguém – sem contar o bom e velho apego até ao que nos faz mal – mas não tem outro jeito. Separe o que é necessidade do que é desejo. Fique com aquilo que é fundamental (etzem). Todo o resto será substituído com o que for melhor para você.

Uma amiga falou que passar a mensagem de que um relacionamento precisa chegar ao fim é de difícil assimilação porque muitas pessoas, mesmo insatisfeitas, não querem ficar sozinhas e temem que isso aconteça, a não ser que se “prometa um novo amor em breve”. Não, isso não entra na minha cabeça. Ainda sou do tempo que “antes só do que mal acompanhado”, mas o comentário me faz lembrar que o famigerado número 13, para nós ocidentais, tem um outro sentido para os judeus, por exemplo. {imagem: Wildwood Tarot}

Treze, para eles, é o valor numérico (gematria) das palavras Echad e Ahavah. Echad é um dos nomes de D’us como “Um”. Ahavah, por sua vez, é “amor” e, em especial, destaco o amor como um atributo espiritual, que é a perfeita confiança de que “O Eterno é meu pastor, nada me falta”. O judeu ensina que o contrário de amor não é ódio, mas medo – medo de ficar sem, medo do vazio, da solidão. O apego vem do medo. No entanto, se você tem Ahavah, também tem a consciência de que, fazendo a sua parte (e com a motivação correta), o Universo providencia o que for melhor para você – tudo no tempo certo e na medida exata (a sabedoria da Temperança).

De forma muito prática, gosto de ilustrar em aula que entre o homem suspenso pelo pé (12) e o ser alado (14) existe alguém com uma lâmina nas mãos (13): para você voar, não basta ter asas, é preciso cortar a corda. . .

Do blá-blá-blá pra a realidade, cabe ao tarólogo identificar as possíveis razões para que as mudanças não aconteçam e, dentro dos seus conhecimentos/habilidades, sugerir alguma ferramenta de auxílio.

Para ser bem sincero, muitas destas questões deveriam ser tratadas debaixo de um acompanhamento psicológico, pois a impotência diante de algo que nos incomoda sempre tem um conteúdo mais profundo que precisa ser trabalhado primeiro.

Algumas terapias alternativas podem ajudar, claro, sem substituir a orientação médica qualificada. Regrinhas de almanaque parecem fáceis de serem seguidas, mas não confie 100% nelas. É uma bobagem achar que “porque é natural, não faz mal” e muitas vezes precisamos de um olhar neutro para perceber onde o bicho realmente pega.

Dentre os Florais de Bach, Walnut é recomendado para a necessidade de adaptação às mudanças, mas não fica só nisso. Ele também nos ajuda a resgatar quem somos verdadeiramente, livres de quaisquer influências externas e/ou padrões de comportamento adquiridos, para darmos os passos necessários em uma nova direção. Escrevendo isso, me lembrei do Centaury, que ajuda a dizer “não”. Muito bom quando precisamos nos libertar de uma personalidade dominadora, quer pela imposição da vontade ou pela sedução.

No trabalho com os óleos, Ylang Ylang lida os medos, Gerânio atua na autoestima e o Cipreste ajuda no desapego, na clareza da mente e no direcionamento que permite a visão do novo. Repetindo: as indicações servem para informar que os recursos existem. Procure um terapeuta credenciado para formulações.

Dois pontos de acupressura também podem ser úteis. Massageá-los e, especial, massageá-los com os óleos indicados devidamente diluídos em um óleo carreador, pode trazer alívio e clareza. O primeiro faz parte do meridiano dos Pulmões e, o segundo, do Fígado. Não por acaso, eles estão próximos e, de alguma forma, interligados. O LU1 (ponto marcado em vermelho mais alto) para fortalecer o desapego e o LR14 (ponto marcado em vermelho mais baixo) que, em linhas gerais, traz aspirações e esperança, além da necessidade de se reinventar.

Que os ventos da mudança sejam sempre generosos e o leve a um bom destino.

 

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.