Quanto tempo? Tarot e Atendimento


Dia desses recebi um email com perguntas pertinentes ao Tarot para o trabalho de um curso de jornalismo.

A primeira pergunta, em especial, chamou a minha atenção porque tentava descobrir em quanto tempo uma pessoa está apta para fazer atendimentos.

Fiquei na dúvida se “apto para fazer atendimentos” era uma força de expressão para “estar apto para interpretar as cartas” ou se o interesse era algo mais objetivo, do tipo “me inscrevo em um curso hoje e em ‘x’ meses estou pronto para ganhar dinheiro com isso”.

A resposta para qualquer uma das hipóteses é relativa, claro.

Com relação ao aprendizado, boas fontes de referências e dedicação contam muito e agilizam o processo. Vejo algumas pessoas ainda iludidas com a ideia de que o Tarot é algo mágico: basta olhar para as cartas para que as informações “saltem das lâmina” como parte de um processo mediúnico – acontece, mas não conte com isso.

Eu, particularmente, sou muito mental. Os insights surgem com base em um conhecimento adquirido – “coisa de baço”, diria o meu professor de fisiologia chinesa, ao invés de “coisa de berço”, como preferem (ou gostariam que fosse) alguns. É preciso se tornar íntimo dos Arcanos, saber como eles pensam, amam e reagem às adversidades. Quando digo que cada lâmina traz uma gama de ensinamentos não estou fazendo marketing – é fato.

Cursos de Tarot no estilo express não formam (bons) tarólogos – é muita informação. Eu mesmo desenvolvi cursos de 4 meses pressionado pelas solicitações e as pessoas pedem para que eles sejam estendidos no meio do caminho, pois percebem que precisam de mais tempo para adquirir confiança. Na minha época de formação esta preocupação com o tempo não existia: o curso terminava quando chegava ao fim – ponto – e sempre participei de turmas com um bom número de alunos.

Mas a parte do atendimento é ainda mais complexa e foi o que chamou a minha atenção. Nem todo mundo que sabe interpretar as cartas sabe atender e me preocupo ao encontrar com pessoas que fazem qualquer curso oracular que seja pensando em uma carreira.

Entre os tarólogos, é comum encontrar os “navalha na carne” e os “melzinho na chupeta”. Os primeiros são vaidosos e se iludem com a sensação de poder que julgam ter com as cartas. São adeptos da “Tarot-Verdade” e esquecem que há uma pessoa fragilizada, na maioria das vezes, do outro lado das cartas. Falta-lhes empatia e a consciência de que cada indivíduo é único em suas qualidades e fraquezas.

O segundo grupo se subdivide entre aqueles que se sentem desconfortáveis em entrar em pontos delicados da questão e os que não querem aborrecer (e perder!) o cliente. Muitas vezes estão mais comprometidos com a receita ($) do que com a responsabilidade que têm diante de si – e isso é um negócio muito complicado.

Conheci uma astróloga que empregava este estilo Pollyana e tudo era lindo e fofo. Que eu me lembre, possuía uma excelente clientela, mas, efetivamente, contribuía muito pouco para o crescimento das pessoas que ficavam inebriadas por seus conselhos (tolos).

Pensar neste post na rua foi mais fácil do que escrevê-lo agora, mas vamos em frente com foco no que considero básico. São tantas variáveis que as pessoas deveriam fazer um curso – ou um workshop que seja – apenas para trabalhar alguns destes pontos.

Para início de conversa, é preciso ter amor e compaixão. Já escrevi sobre isso antes e, na terminologia budista, amor é desejar a felicidade do outro e compaixão é desejar que ele se liberte do sofrimento. Ser imparcial e ser indiferente são coisas distintas. Se você é incapaz de se importar com o outro, este “trabalho” não é para você – se você se envolve demasiadamente nos problemas dos outros, também não, by the way.

Segunda dica: prepare-se para atender. Cuide do ambiente para torná-lo agradável da forma que julgar apropriado, faça algumas respirações profundas, ore, não importa. Quanto mais você buscar o seu centro, mais será útil. Chegou atrasado ao local da consulta ou o cliente apareceu numa hora em que você estava envolvido com outra coisa? Pare e respire. Preferível investir 5 minutos entrando no clima do que fazer uma leitura desatenta.

Esteja pronto para tudo: consulentes que te testam com mentiras, consulentes em negação, os que se influenciam com qualquer bobagem, os que levam o que você diz ao pé da letra, os que não acreditam em nada, os que acham que tudo é macumba, os teimosos, os exagerados, os que nunca entendem, os que tiram conclusões precipitadas, os que choram, os que ficam zangados (e agridem!), os que não abrem a boca, os que não param de falar, os humildes, os arrogantes, …

Sem contar perguntas e histórias estranhas, pois a gente ouve de tudo e mais um pouco e, por isso mesmo, a dica seguinte é:

Evite julgamentos pessoais. Cada pessoa vive a sua própria realidade com valores que nem sempre coincidem com os nossos. Você pode achar um absurdo traição, por exemplo (um exemplo bem light), mas certamente encontrará trocentos casos em que o seu (a sua) consulente está vivendo algo assim na condição ativa (ele/a trai). Restrinja-se às mensagens das cartas. Claro que opiniões pessoais às vezes são inevitáveis, mas não conduza o jogo pela sua ética, buscando forçosamente o respaldo dos arcanos.

O ponto delicado desta história é quando calha do conteúdo realmente ser de natureza ilícita. Nunca aconteceu comigo e a única história que ouvi foi uma “rádio-tamanco”, de modo que não sei se é fato ou lenda: um tarólogo jogou para um cara sobre os investimentos que ele fazia sem ter muita ideia do que se tratava – só que rolava muito dinheiro. O sucesso da leitura fez com que o cliente retornasse e, em dado momento, ele descobriu que o buraco era mais embaixo.

Por medo de recuar ou de olho na receita gorda – incluindo presentes de gratificação – consta que este tarólogo continuou a serviço por um bom tempo alegando que não tinha nada a ver com isso. Eu, pessoalmente, teria deixado de atender à menor desconfiança de algo errado (entendam: concluiria o atendimento, mas não voltaria a recebê-lo por não me sentir confortável com isso).

Mais um: procure o “x” da questão. Parece óbvio, mas não é. Mesmo se as perguntas giram em torno do clássico “ele(a) vai voltar para mim?”, observe os pontos de vulnerabilidade que podem ser trabalhados, pois mais importante do que saber se ele(a) volta ou não é entender porque isso está acontecendo e o que esta experiência significa.

Por vezes as más notícias são inevitáveis, ok, mas saiba como transmití-las. Se for impossível extrair algo de bom da situação, não caia na tentação de mentir ou omitir para escapar da saia justa, mas faça o que precisa ser feito com compaixão. Cuidado com as palavras, pois elas têm força. Pode parece uma bobagem, por exemplo, substituir “problema” por “desafio”, mas o registro mental é diferente e isso afeta a autoconfiança, a autoestima e a capacidade de lidar com a adversidade.

Este post merece partes 2, 3, … mas fico por aqui – por enquanto e sem fazer promessas. Se você atende ou é cliente habitual, deixe um comentário sobre as suas próprias dicas e opiniões.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.