Rei de Paus: Blogagem Coletiva


Este é um texto feito sob encomenda, para o Emanuel, do Conversas Cartomânticas. Ele está promovendo uma série de Blogagens Coletivas, reunindo diferentes tarólogos para falar das cartas. A primeira fase foi com os Arcanos Maiores e agora temos as Figuras das Cortes, onde coube a mim falar do Rei de Paus. Aproveite! {imagem: Afro-Brazilian Tarot}

O curioso do exercício de uma blogagem coletiva é aparecer no meio do caminho – provavelmente, no final – sem saber ao certo como o conjunto das Figuras da Corte foi apresentado, o que se atribuiu à Corte de Paus e o que os companheiros escreveram sobre o resto da família – Pajem, Cavaleiro e Rainha. O que eu posso garantir é que agora as coisas vão esquentar. Se não for muito óbvio (ok, mesmo que seja), “pode vir quente que estou fervendo”.

Diante de nós temos a expressão encarnada do elemento Fogo. Ele é Fogo em sua natureza, Paus, e Fogo na sua expressão, Rei. Estamos falando do aspecto maduro (porque é Rei) da motivação, da vitalidade, da expansão, da alegria e do poder (Paus).

O bacana da minha experiência em interpretações é que na maioria das vezes em que alguém apareceu como Rei de Paus a pessoa não se reconhecia assim, cabendo a mim o papel de conduzi-la para verdadeiramente “confiar no próprio taco”. Isso é interessante por dois bons motivos: o primeiro é que a pessoa, de modo geral, não se apresenta com um estilo Rei de Paus (ainda que um RP mal trabalhado); segundo, porque também não descrevo o Rei de Paus para que ela se espelhe nele.

Esta, por sinal, foi uma das duas perguntas sugeridas pelo Emanuel para a composição deste texto: “como é vestir a sua mascara, interpretar sua atitude, vivenciar sua influência?”.

De cara, digo que não há máscaras ou interpretações que se enquadrem neste aconselhamento, pois uma das características deste arcano é a autenticidade. Em outras palavras, não interprete nada, apenas seja você mesmo, com suas poucas qualidades e muitos defeitos. O comentário, contudo, é precipitado – como podem ser impulsivas as atitudes de qualquer figura da corte de Paus. Vamos começar direito.

Como já escrevi, o Rei de qualquer naipe é uma personalidade madura. Não necessariamente madura por conta da idade, mas madura porque soube consolidar suas experiências, evoluindo a partir delas – lembrando Sai Baba, “não basta engolir, é preciso mastigar”. As Rainhas também são assim, mas os gêneros desempenham papéis diferentes. O feminino nutre e acolhe, enquanto o masculino põe limites e dá autonomia.

Reis de Paus são empreendedores, independentes, tecnológicos e visionários. Não são particularmente motivadores, no sentido de dar tapinhas nas costas e recorrer a palavras de autoajuda (mais fácil uma Rainha de Paus fazer isso), mas poderão servir de bom exemplo e adotarão a política do “aqueles que estiverem dispostos, que me sigam” – e será difícil alguém não aceitar o convite-desafio.

A liderança é inerente à sua personalidade carismática, lembrando que líder não é aquele que manda, mas aquele que inspira com sabedoria e entusiasmo (do grego en + theos, literalmente ‘em Deus’). Como líder, também reconhece o talento de cada um e não delega nada que o outro não possa fazer – ainda que o delegado não saiba disso. {imagem: Marseille Conver Tarot}

Esse Rei, assim como o elemento que representa, se espalha. A medicina chinesa ensina que o Fogo equilibrado é aquele que não excede a Água (que o domina) e é capaz de produzir a Terra, ou seja, ele precisa conhecer seus limites para não destruir tudo ao redor e usar a sua criatividade para tornar solo fértil.

Vou me ater aos aspectos positivos deste arcano. Um Rei de Paus desequilibrado é egóico, exibicionista, fanfarrão, invasivo, autoritário, blá-blá-blá… Como estamos todos no Samsara, estes tipos pipocam aqui e ali com maior frequência, e isso tudo ocorre porque o indivíduo não está em contato com a sua verdadeira natureza.

Como ‘transpira verdade’ (a sua verdade, claro), pode ser muito sincero, o que é louvável, mas excesso de sinceridade (necessidade de autoafirmação, talvez) corre o risco de inclinar a balança para o lado da arrogância – e é bom estar atento a isso. De qualquer modo, trata-se de alguém confiável.

Em alguns momentos eu penso no RP como alguém que passou pelo ‘fogo da purificação’, o calcinatio alquímico, que elimina os desejos primitivos identificados com o ego para que o indivíduo se veja livre de medos e condicionamentos para adotar padrões mais amplos e flexíveis – o despertar de uma nova consciência, não no sentido estritamente espiritual, mas incluindo este aspecto.

Espiritualidade, por sinal, é um tema sempre associado a este Rei, muitas vezes visto com um grande mestre. No Osho Zen Tarot, é dito que “existem dois tipos de criadores no mundo: um deles trabalha com objetos — um poeta, um pintor, trabalham com objetos e criam coisas; o outro tipo de criador, o místico, cria a si mesmo”. Destaco esta passagem porque, particularmente, vejo o Rei de Paus mestre de si mesmo – o que é fantástico – mais do que mestre de outros.

Isso significa que tenho um avatar diante de mim? Muito provavelmente, não. Mas certamente é alguém a quem aconselharia descobrir mais da espiritualidade através de suas próprias experiências e impressões do que através da orientação de outra(s) pessoa(s).

E como lidar com esta criatura, seja no trabalho, no convívio social ou no afeto? O Senhor do Fogo tende a ser uma pessoa otimista, divertida, falante, cheia de insights e de energia. Se você teme os holofotes, não fique do lado. Se não está num dia de muito bom humor, pense duas vezes antes de se lamentar ou aparecer com a cara de coitado: talvez esta presença incandescente transmute as nuvens negras sobre a sua cabeça, mas pode ser que você queira alguém solidário no clima “ó dia, ó azar” e então poderá se aborrecer, pois todos os seus argumentos parecerão pequenos diante de alguém sempre disposto a lidar com os desafios – inclusive se ele resolver falar exatamente o que pensa a respeito da situação.

A polidez não é só por uma questão de respeito que deve servir de base em qualquer relação, mas porque esta figura precisa trabalhar em si, muitas vezes, a cortesia e a civilidade para refrear o tom imperativo da voz e a tal inclinação para a arrogância que já citei antes. Se você aumenta a temperatura, esta personalidade inflamável poderá se tornar impulsiva e irracional, colocando tudo a perder. {imagem: New Vision Tarot}

Dar espaço para um Rei de Paus é uma recomendação importante. Não tente controlar seus passos ou limitar seus movimentos. Se for para ser do contra, tenha argumentos consistentes e cuidado para criticar a ideia, não a pessoa – ainda que exista o risco dele achar que tudo é uma coisa só. Mas se for para levantar realmente uma crítica a respeito do seu comportamento, trate-o com polidez e olho no olho.

Entenda também que se trata de um visionário (diferente de ‘sonhador’) e que muitas vezes nem ele mesmo saberá explicar o que se passa por sua cabeça. Lembrei-me de um diálogo com o dono de uma empresa. Ele queria saber a minha opinião sobre um projeto apresentado por um terceiro e que o sócio parecia muito favorável. Disse que achava tudo inconsistente e que o melhor era cair fora. Esta pessoa, no entanto, respondeu que até concordava comigo, mas que o sócio tinha uma ‘antena apurada’ para vislumbrar possibilidades onde ninguém mais percebia.

E se este sócio não é alguém que identifico como Rei de Paus por vários outros motivos (me aproprio apenas deste momento), cito um legítimo na mesma linha de raciocínio: Steve Jobs, que criou gadgets como o iPhone e o iPad, não para atender uma necessidade do mercado, mas para criar esta necessidade e transformar toda uma cultura de tecnologia e relacionamentos.

Enfim, dentre os 16 arcanos, foi muito interessante o Emanuel sugerir o Rei de Paus, que acabou virando conselho para mim também ao longo da semana. As cartas nem sempre estão sobre a mesa; elas também mandam recados de outra forma. Então, se o Rei de Paus apareceu no seu jogo, esteja preparado para o desafio, certo de que ele foi feito à sua altura, que o Universo conspira a seu favor e que a responsabilidade não é só com o que você faz, mas envolve o bem estar de outras pessoas.

Possam todos se beneficiar!

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About Marcelo Bueno 86 Articles
Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.
  • Marcus Lima

    Olá Marcelo, tudo bem?Cara existe alguma relação entre as 16 figuras de corte e os 16 Orixas?

    • Oi, Marcus, apesar da coincidência numérica, qualquer tentativa de correlação não deve apresentar, a meu ver, um resultado consistente.

      • Marcus Lima

        Obrigado Marcelo!