Roda da Fortuna, Roda da Vida


Então, 2008 será regido pelo Arcano X do Tarot… o que isso quer dizer? Sinceramente, para mim a coisa funciona meio no esquema “com que roupa eu vou?”. {imagem: Visconti Tarot}

Trocando em miúdos, me chama muito mais atenção em qual contexto estaremos envolvidos (individualmente e em grupo) do ponto-de-vista da energia interna (logo, temos algo a aprender com isso) do que fazer previsões.

Agrega pouco valor, a meu ver, dizer que será um ano de instabilidade e grandes mudanças, mas quando afirmo que estaremos muito mais conscientes de que a vida é mudança as coisas mudam de figura.

Falar é fácil, fazer é que são elas. Temos vários pacotinhos internos que precisam ser abertos, um a um. Aprendemos na escola: tudo nasce, cresce, alcança o seu apogeu, definha e morre. Os budista ensinam: tudo é impermanência. Da teoria para a prática, contudo, enfrentamos a ignorância, medos, apegos e vaidades – entre outros venenos da mente – e desejamos que a vida siga o roteiro que nós estabelecemos para ela – daí o sucesso de caça-níquéis como “O Segredo”.

Quando vem a informação que estamos entrando em um período onde será mais fácil trabalhar com isso, surge então a oportunidade de crescimento pessoal, liberação daquilo que nos limita e a capacidade de vivermos plenamente cada aspecto da nossa natureza – quero dizer, vivermos com maior qualidade de vida tanto as partes como o todo.

A Roda da Fortuna fala de ciclos. Na verdade, dois Arcanos Maiores falam de ciclos: A Roda da Fortuna e O Julgamento. A diferença é que, na Roda, tudo ao meu redor muda – eu, eventualmente. Com a carta do Julgamento, eu mudo, ainda que a realidade permaneça, aparentemente, a mesma – mas por pouco tempo, garanto.

Com uma Roda aplicada ao trabalho, sou promovido, rebaixado, mudo de setor, mudo de emprego, sou demitido. Com um Julgamento aplicado à mesma questão, muda a minha percepção a respeito do trabalho a partir do despertar de uma “nova consciência”. A partir deste novo ponto-de-vista, a maneira como eu me relaciono com todos estes elementos muda e é de mim que tudo mais se transforma.

Numa situação dessas, eu posso largar todos os meus diplomas, um nome de prestígio no mercado e um salário fabuloso para ser um shiatsu-terapeuta começando do zero, sei lá, simplesmente porque percebo que é essa a verdadeira vocação da minha alma – o exemplo é exagerado, mas não é, de todo, fantasioso.

Talvez, não por acaso, o Julgamento (20) seja a Roda (10) duplicada.

O fato é que, enquanto não despertarmos para a Unidade, temos que ter em mente que tudo é ilusão. Acreditamos que a vida, por exemplo, ora nos eleva, ora nos esmaga, mas alegria e sofrimento são percepções da mente limitada. É ela quem atribui valor a cada evento. Prova disso é que se você está mal-humorado por uma razão qualquer, mesmo que alguém queira te agradar cheio de bondade no coração isso será recebido com desconforto – a ação que vem de fora é boa, mas você, internamente, a rejeita – de modo que o prazer e o desprazer são relativos.

A fortuna da Roda não nos fala de riqueza, como parece sugerir, mas de “sorte” – é latim. Sorte – etimologicamente falando – significa “acaso”, o que pode ser bom ou ruim, por isso também se traduz fortuna por “destino”. Essa é a razão pela qual se dizia “boa sorte” ou “má sorte”.

Associar sorte a algo fortuito e azar a um evento desastroso é uma distorção nossa (um regionalismo, para ser mais exato), pois azar indica “dar oportunidade a”, e nada mais do que isso – você sabia?

Em algumas representações da Roda (e da deusa grega Fortuna – Tyche, para os gregos), encontramos pessoas ou animais presos a uma roda com as inscrições regnabo (“eu devo reinar”) à esquerda, regno (“eu reino”) na parte de cima, reganvi (“eu reinei”) no lado direito, e sum sine regno (“eu não tenho reino”) na parte de baixo – tudo isso para reforçar a ideia de ciclos que se renovam continuamente.

Omnia mutantur, nos et mutamur in illis (”todas as coisas mudam, e nós mudamos com elas”).

No livro Os Portões da Prática Budista, Chagdud Tulku Rinpoche nos aconselha a desfrutar bastante – e sem apegos – o caminho de subida, pois descer, depois de ter alcançado o ponto mais alto, é certo. Por outro lado, a boa notícia é que ao alcançarmos o ponto mais baixo da roda, só nos restará subir.

As práticas budistas se referem quase todo o tempo à impermanência exatamente por este motivo. Se a impermanência é inevitável, devemos aprender a lidar com ela para não sofrermos. Se fosse para adotar um lema, uma palavra-chave, para este Arcano, adotaria “isto também vai passar” – existe um conto onde esta frase se repete, vale a leitura.

Precisamos estar convictos, principalmente, que estamos exatamente onde devemos estar. Está tudo muito bom? Ótimo, compartilhe. Está tudo péssimo? Pergunte-se: o que existe aqui de aprendizado? Quem sou eu para estar vivendo esta situação?

Nos baralhos como o de Marseille e correlatos, A Roda traz uma manivela. Não tem ninguém ali, de modo a propor que talvez você possa ou deva influenciar na velocidade, ritmo ou direção. {imagem: Universal Tarot of Marseille}

Eu, particularmente, acho que existe uma pegadinha aí, pois se a Roda anda emperrada ou se está girando rápido demais, é preciso dar uma checada na engrenagem como um todo. Será que o ritmo não é intenso porque você não sabe o que fazer com o tempo, teoricamente, ocioso? Será que parar ou diminuir não implica em ter mais tempo para refletir sobre aquilo que você prefere ignorar? Se, por outro lado, a Roda anda meio lenta ou presa, o que precisa ser “azeitado” na sua vida? Onde estão as suas resistências?

O que eu quero dizer é que meter a mão sem critério só para impor uma vontade do ego pode resultar em um tremendo desastre. É como entregar um aparelho caro e sofisticado nas mãos de um mero curioso para consertar. Deu problema? Procure um especialista.

E por que, na seqüência das cartas, temos O Eremita de costas para A Roda? Porque ele está regressando depois de várias experiências de vida, incluindo a sua passagem pela Roda, e nos ensina que o segredo (ops!) é manter-se no centro, em contato com a própria essência, pois, na medida em que nos identificamos com as coisas externas, permitimos que elas determinem nossas alegrias e tristezas – o que é sempre um erro.

Lembre-se que O Eremita não evoca apenas a virtude da prudência, mas também da serenidade. O desespero é reflexo da falta de confiança no Universo. As águas sob a base da Roda são as águas das suas próprias emoções. É você quem faz a com que a superfície se agite ou permaneça estável.

Robert Place resolveu ilustrar os ciclos da Roda inserindo Fortuna no centro de uma mandala com os 12 signos do zodíaco – arte para o Tarot of the Sevenfold Mystery. Achei que a arte pode confundir alguém desavisado por causa da “semelhança” com a carta do Mundo, mas entendi a ideia, que fala do curso do Sol ao longo do ano.

Isto me fez pensar que o Sol em trânsito ilumina diferentes aspectos da nossa vida – representados pelas casas astrológicas de um mapa natal – e me ocorreu outra leitura a respeito da Roda da Fortuna, que passei a chamar também Roda da Vida – daí o título do post.

Achei até que estava sendo muito original, mas descobri que ideia e nome já são amplamente utilizados dentro de técnicas de coaching como uma ferramenta para se determinar o quanto de energia se vem empregando em diferentes setores da vida e o provável desequilíbrio no todo.

O centro tem valor 0 e a graduação varia de “totalmente insatisfeito” até “plenamente satisfeito”, na borda. Encontrei na Internet modelos de 8 e de 12 áreas. Quanto maior e mais uniforme for o círculo, melhor.

Trazendo esta informação para o propósito deste post, talvez 2008 também seja especialmente favorável para se trabalhar, com sucesso, o realinhamento das nossas prioridades, até porque a aerodinâmica de nossas Rodas (a da Vida e a da Fortuna, que, na verdade, são uma só) irá contribuir para a sua fluidez em torno do eixo, que somos nós mesmos.

Reduzindo os dígitos da Roda encontramos O Mago (1+0= 1) . Lembrando Elis Regina, que neste ano de Roda da Fortuna, ainda que nem sempre se ganhe, nem sempre se perca, possamos todos aprender a jogar – o resto é conversa.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.