Alef é o Louco ou o Mago?

Zephyrus Otiyot D'bar
Zephyrus Otiyot D’bar

Repetirei a frase que acabei de ouvir na abertura de um vídeo sobre Tarot. Ela é recorrente em apresentações e livros, não importa quem seja o responsável pela afirmação ou como é feita a construção do pensamento:

“Vamos fazer assim: vamos começar do começo. No começo era o verbo. Então, a primeira letra do alfabeto hebraico é Alef, por isso vamos começar falando do Louco. O que é o Louco no Tarot? O que representa a letra Alef? Alef é o Sopro de D’us. É a origem. É o verbo. Assim como o Louco, que , em qualquer tirada, representa o início de qualquer jornada”. 

Sabemos que, na ocasião do aparecimento do Tarot como livro de sabedoria e oráculo, passou pela cabeça de Antoine Court de Gébelin (assim é contado) que os 22 arcanos maiores do Tarot teriam uma relação direta com as 22 letras do alfabeto hebraico.

Apesar disso, coube a Comte de Mellet ser o primeiro a publicar um ensaio conectando o Mundo à Alef, seguindo de trás para a frente a sequência de letras até colocar o Louco alinhado à Tav.

Eliphas Levi preferiu a associação numérica, colocando o Mago (o arcano 1) ao lado de Alef  (letra hebraica de valor 1). O Louco, no entanto, que no Marseille não possui número, foi colocado entre as cartas do Julgamento e do Mundo, de modo a se tornar equivalente à letra Shin.

Para os adeptos da Golden Dawn, o Louco ganhou o número 0 (zero) e passou a a ser primeira carta da Tarot, por isso mesmo, equivalente à letra Alef. Como as letras hebraicas possuem regências astrológicas, Arthur Waite alterou a sequência de cartas, colocando a Força na nona posição (carta 8), alinhada à letra Tet e ao signo de Leão, levando a Justiça para a décima-segunda posição (carta 11), alinhada à letra Lamed e ao signo de Libra.

Aleister Crowley, alegando ter recebido a “correção” de uma inteligência superior, trocou a posição de duas letras sem mexer na sequência das lâminas: Tsade foi gravada na carta do Imperador e Hei na carta da Estrela. Em mais de 20 anos de estudo, vi outras configurações, mas essas são as mais conhecidas.

[Pausa. Dois passos para trás.]

Lembra da cena do filme Matrix, onde Neo desperta e percebe o “código-fonte” de tudo ao seu redor? Muito antes dos Irmãos Wachowski, contos judaicos falam de rebes que “liam” pessoas, ambientes e situações de acordo com as letras hebraicas que apareciam para eles “do mesmo modo”. Para o judeu, tudo é formado pela permutação de letras, como as células que compõem um indivíduo ou os tijolos que erguem uma parede. Quando se analisa o nome de alguém ou de algo, por exemplo, as letras revelam o que há de mais profundo porque nenhum nome é dado ao acaso – o primeiro trabalho de Adam (Adão) foi dar nome a todas as coisas. E tudo isso porque foi com as letras que D’us criou o universo.

Matrix code
Cena do filme Matrix

Reza a lenda que D’us convocou todas as letras para decidir com quem começaria a Criação. Tav, a última letra, se apresentou primeiro e cada uma foi fazendo o mesmo na ordem inversa, justificando porque era a mais qualificada para a missão. O argumento sempre se baseava em alguma palavra da qual faz parte. Tav, por exemplo, disse que era o final da palavra emet (“verdade”), mas D’us justificou que ela não serviria para aquele propósito por ser a letra final de mavet (“morte”). Se o Satan (“Opositor”) se apropriasse dela, condenaria toda a obra.

E assim foi uma a uma até que chegou a vez de Beit, a segunda letra, e a questão foi fechada, pois Beit é a inicial de berachah (“bênção”). Como tudo o que é abençoado se eleva, se as forças impuras tentassem alguma coisa, seriam naturalmente anuladas.

ABlogoBereshit bara Elohim et hashamayim ve’et ha’arets. Assim começa a Torá: “Em princípio, criou o Eterno os céus e a terra”. Esta frase é interpretada de diferentes formas, revelando camadas de códigos secretos da Torá. Uma dessas formas destaca o “et” da frase, formada por Alef e Tav. Desta forma, é dito que antes de criar os céus e a terra, o Eterno teria criado todas as letras que vão de Alef a Tav – e isso ressalta a importância do alfabeto para que se compreenda a Criação.

Alef não se apresentou diante de D’us. Ele viu que todas as outras letras foram recusadas por um bom motivo e que, uma vez que Beit tinha sido selecionada, o Criador não voltaria na Sua palavra. Mesmo assim ela foi cobrada: “Por que você não se apresentou diante de Mim como todas as outras?”. Alef se explica e D’us lhe diz que apesar de dar início à Criação com Beit, Alef deveria ficar à frente de todas as letras pois representa a Unidade e todas as contas e todos os atos começariam por Alef, assim como toda unidade estaria (e ainda está) em Alef.

[Fim da pausa. Dois passos para frente.]

Então, Alef é o Louco ou Alef é o Mago? Beit é o início da manifestação. Alef é o que antecede o início. Faz sentido o Louco ser Alef e o Mago ser Beit, não? Mas Alef é 1, a base de todas as contas. Os judeus rezam duas vezes ao dia: Sh’ma Yisrael Adonai Eloheinu Adonai Echad (“Ouça, Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um”. Echad (“Um”) = אחד – Alef, Chet, Dalet. O Louco é zero, é o caos, a incerteza, o imprevisto, o abandono… Não serve de base/sustentação para nada.

“Ok, então o Mago é Alef!”. Mas Alef não emite som (é a abertura da boca antes de qualquer som) e alguns sábios afirmam que esta condição existe porque ela se omitiu na candidatura ao papel de ser a letra que daria início à Criação, logo é uma força latente, precisando de Beit, o container, para que possa se manifestar. O Mago, como sabemos, representa o princípio da atividade. Surge um novo impasse.

Um dos primeiros posts do Zephyrus (perdido depois que o blog foi hackeado) perguntava se existe, de fato, um “Tarot Cabalístico” e esse continua a ser o ponto. Cairia bem para a Papisa ser Beit (a casa, o templo, o útero), mas Gimel representa o homem rico que caminha em direção ao homem pobre – Dalet. Se os atributos de fertilidade e nutrição são compatíveis com a terceira letra, como interpretar o Imperador como uma terra estéril? Ainda pior se damos movimento à passiva Sacerdotisa e pobreza à Grande Mãe. A conta não fecha.

O fato é que se você não faz parte de uma escola iniciática (porque aí entramos em questões que eu não saberia discutir sem conversar com alguém do meio), o melhor é desassociar e esquecer esta ideia inconsistente, respeitando e preservando a sabedoria existente em cada corpo de conhecimento. Para saber mais sobre os atributos das 0tiyot, resolvi montar um workshop. Confira na agenda as datas e locais onde ele acontece.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.