O que um israelense fala de Tarot e letras hebraicas?

Oswald Wirth Tarot | Zephyrus Tarot
Oswald Wirth Tarot

O estudo inicial do Tarot, há mais de 25 anos, me levou a pesquisar ensinamentos da tradição judaica. As letras hebraicas, em especial, sempre exerceram um certo fascínio em mim. Os livros herméticos, no entanto, não me deram respostas satisfatórias, ainda que fossem íntimos do Tarot. Embora acessíveis, pareciam olhar as coisas por um buraco da fechadura, no que diz respeito às letras e seus atributos. Foi como apostar numa promessa que não se cumpriu e por isso acredito que este vínculo é forçado.

Se alguém disser que isso é ignorância da minha parte, não discutirei. Pode ser que sim. Por outro lado, o que eu aprendi tem o respaldo de estudiosos da Torá, tanto escrita quanto oral. Isso traz alguma segurança, claro, mas continuo sendo alguém que não domina o idioma hebraico, um detalhe que faz muita diferença.

Por isso um comentário de Yoav Ben-Dov é bem relevante. Ele nasceu em Tel Aviv e foi aluno de Alejandro Jodorowsky em Paris. Vejam bem: um tarólogo israelense! É dele o primeiro livro de Tarot publicado em hebraico, sendo também autor do CBD Tarot de Marseille.

Em um capítulo de Tarot-The Open Reading, de 2013, ele fala um pouco sobre duas principais correntes que correlacionam os 22 Arcanos Maiores do Tarot com as 22 letras do alfabeto hebraico. Vale conferir e pensar a respeito.

Aleph - Letras Hebraicas | Zephyrus Tarot

Letras Hebraicas

Por Yoav Ben-Dov, em Tarot-The Open Reading

Muitos escritores, tanto da escola francesa quanto da escola inglesa, acreditavam que os 22 os arcanos maiores correspondiam às 22 letras do alfabeto hebraico. Esta correspondência era significativa para eles porque os textos tradicionais cabalístas traziam vários significados espirituais e poderes mágicos para as letras hebraicas. No entanto, cada uma das duas escolas teve seu próprio critério para estabelecer essas correspondências.

O  fundador da tradição francesa, Eliphas Levi, combinou com a primeira letra Alef com o Mago, que é a primeira letra deste naipe [os arcanos maiores são considerados um quinto naipe]. Levi também viu na forma do corpo do Mago, com um braço levantado acima e outro abaixo, como similar à forma da letra hebraica Alef.  Ele combinou a segunda letra, Beit, com a carta  da Papisa (número 2) e assim por diante, seguindo a ordenação natural do alfabeto hebraico.

Esta correspondência cria outras relações interessantes entre as cartas e as letras, algumas das quais Lévi pode ter feito com conhecimento. A letra Caf foi associada à carta da Força.  Caf, em hebraico, significa “palma [da mão]”, como as palmas que seguram o leão na lâmina. O Pendurado com a perna dobrada se assemelha à forma da letra Lamed.  A letra Mem foi combinada com o arcano 13, que algumas vezes é chamado de Morte (maved, em hebraico). O Diabo tem Samech, a letra inicial de Samael que é o nome do diabo em hebraico. O corpo e as pernas da figura caindo no lado esquerdo da da carta da Torre são semelhantes à forma da letra Ayin.

Lévi também colocar o Louco em uma posição antes da última [carta], combinando-o com a letra Shin. Esta é a letra inicial de shoteh, que em hebraico significa tolo. Tav é a inicial de tevel, que, em hebraico, significa o mundo

A escola inglesa de Tarot adotou um sistema diferente. Como a carta do Louco foi transferido para a parte superior [o início] do naipe, ele foi associado à primeira letra Alef. O restante das cartas foi organizado de acordo com a sequência [das letras], o que fez Beit correspondesse ao Mago, Gimel (a terceira letra) à Papisa e assim por diante. Esta correspondência pode parecer estranha para aqueles que conhecem a Gematria, o tradicional sistema de numeração que atribui um valor a cada letra hebraica e que é muito importante na Cabalá. Por exemplo, Beit possui Gematria é 2, mas no método da Golden Dawn corresponde à carta de número 1 [O Mago]. No entanto, os líderes da Golden Dawn adotaram [este modelo] assim mesmo. Mais tarde, Crowley promoveu outra modificação, trocando as letras do Imperador e da Estrela.

O resultado é que existem diferentes formas de adequar as letras hebraicas às cartas do Tarot. Isto é um pouco confuso, porque em muitos baralhos novos as letras hebraicas são escritas de forma explícita nas cartas. Como alguns seguem o sistema de inglês e, outros, o sistema francês, baralhos diferentes mostram diferentes letras para o mesmo arcano.

Em uma leitura livre sobre questões pessoais com o Tarot de Marselha, a questão não é tão importante, porque as letras hebraicas não aparecem nas lâminas. Portanto, o assunto pode simplesmente ser ignorado como um todo. Ainda assim, os leitores que falam hebraico ou conhecem a Cabalá pode usar as correspondências como uma camada adicional ao significado das cartas.

CBD Tarot de Marseille | Zephyrus Tarot
CBD Tarot de Marseille

Por exemplo há muitos que acreditam que o nome de uma pessoa tem uma influência sobre sua vida. Para entender a influência de um nome específico, podemos escrevê-lo em hebraico, deitar os arcanos correspondentes em fila e interpretá-los. Um método semelhante pode ser usado com combinações cabalísticas de letras que se supõe ter efeitos positivos. Fazendo deste modo, podemos criar um talismã de sorte formado a partir de cartas do Tarot. Alternativamente, uma carta ocupando um posição importante dentro de um método pode conter um significado específico, indicando um pessoa ou local cuja letra inicial do nome possua a letra hebraica correspondente.

Se quisermos usar uma correspondência com as letras hebraicas, que sistema deve ser  adotado? A escolha razoável seria seguir o baralho que estamos usando. Com o Tarot de Marselha e outros baralhos da escola francesa podemos usar o sistema de correspondências de Eliphas Levi. Com baralhos da escola inglesa, como Waite, podemos usar o sistema Golden Dawn. Se você não sabe a qual escola o seu baralho pertence, uma boa dica é verificar os números da Justiça e da Força. Na escola francesa a Justiça é 8 e a Força é 11. Na escola inglesa é o contrário.

Trecho extraído do livro “The Marseille Tarot Revealed” (também conhecido como “Tarot – The Open Reading”), de autoria de Yoav Ben-Dov, www.cbdtarot.com. Reproduzindo com permissão. 

Posts Relacionados:

About Marcelo Bueno 87 Articles
Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.
  • Luiz Antonio Carlin

    @Marcelo, você já tem um exemplar dessa versão do Yoav Ben-Dov ?
    Abs.