Vida de ponta-cabeça


A carta do Pendurado é uma daquelas lâminas de desconforto do Tarot, pois fala de situações em que, teoricamente, nada pode ser feito a respeito – a decisão ou estágio de um processo não depende da sua ação, mas da ação de outra(s) pessoa(s) e/ou do próprio fluxo da natureza. {imagem: New Palladini Tarot}

É uma lâmina que fala de esperas e, consequentemente, na maioria das vezes, agrega à impotência os sentimentos de ansiedade e frustração. Estar pendurado é estar à mercê dos acontecimentos, é não ter um ponto de apoio.

Dizia Arquimedes, “Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo” – não é o caso aqui, e quanto mais rápido a gente entende esta condição, melhor. Uma vez na areia movediça, quanto mais se debate, mais rápido afunda… Este é um momento que pede – E MUITO – por serenidade.

A figura está presa pela articulação do tornozelo, o que, dentro da linguagem do corpo, está diretamente associada à capacidade de seguir em frente com convicção. Pessoas que tropeçam com frequência, pisam de mau-jeito e torcem os tornozelos não estão emocionalmente centradas. Os passos não são firmes. Há medo, dúvida e/ou insatisfação. Na verdade, o indivíduo enfrenta uma recusa interior (consciente ou não) em seguir uma direção que não lhe agrada, daí a sabotagem.

Isso nos leva a um ensinamento nada fácil, que os hindus chamam de sharanagati (”rendição”). Render-se nunca soa bem. O pensamento imediato é de derrota, algo que o ego rejeita com veemência. Ele sobrevive alimentado pelos problemas/conflitos e pelos desejos de realização. Quando a gente se rende, o ego imediatamente enfraquece. Se para alguns a rendição traz alívio, para a grande maioria acredito que traga um enorme desamparo.

Mas o sharanagati não é uma rendição qualquer. Você não se rende, necessariamente, à outra pessoa ou à obstrução que tem diante de si, mas se rende à D’us. Você não fica desamparado, mas, como fazem os budistas, “toma refúgio” em algo muito maior que você e a realidade (limitada) que consegue perceber.

Para usar uma expressão mais familiar, pense em “que seja feita a Sua Vontade, e não a minha” – algo que falamos muito (quando falamos…) e pouco internalizamos, o que torna tudo sem-efeito. Segundo Leslie Temple-Thurston, no livro Retorno à Unidade, a dificuldade de se realizar isso é uma característica de um bloqueio entre os chakras Cardíaco e Laríngeo, que coloca em xeque a nossa liberdade de escolha.

Geralmente dou como exemplo algumas mulheres que desejam engravidar e sofrem muito por não conseguirem, mesmo depois de inúmeras tentativas e auxílio médico. Não são raros os casos em que o casal opta por adotar uma criança e, pouco tempo depois, acaba engravidando “sem querer”. Quando engravidar deixa de ser um problema (por que não dizer, uma obsessão) a gravidez acontece.

Os cabalistas dizem que o Satan (que significa tanto “opositor” como “obstáculo” em hebraico) está onde colocamos o pensamento. Quando o foco muda, surgem novas possibilidades. Mas quem, verdadeiramente, consegue fazer um sharanagati de coração? Eu encontro muitas dificuldades nisso, dependendo da importância da questão, confesso sem medo. E não adianta “fazer de conta que não quer, querendo”, pois isso nada mais é do que uma tolice da mente despreparada.

Um dos pilares da filosofia taoísta é o conceito de Wu Wei (”não-ação”) ou Wei Wu Wei (”ação sem ação”), que traz consigo a fluidez natural das coisas. Trata-se de não tentar fazer o que não nos compete em determinado momento ou, mais do que isso, é fazer o que tem que ser feito sem a expectativa do resultado – por esta razão citei o “fazer de conta que não quer, querendo” antes, que é só uma forma de tentar enganar a si mesmo.

Temos a compulsão de “fazer alguma coisa” e estamos sempre de olho em algum tipo de recompensa – isto é fato. Somos criador para agir desta forma. Nós cobramos constantemente de nós mesmos uma atitude, uma resposta na ponta da língua. A sociedade também faz isso. Aliás, somos avaliados em função da nossa capacidade de agir e reagir. Achamos, inclusive, que temos que fazer algo mesmo quando não sabemos o que fazer – o que, invariavelmente, resulta em fazer algo errado.

O Wu Wei busca a quietude interior, pois quando você não pensa no que tem que fazer (ou no que esperam que você faça), a mente é desconectada, alcança-se a consciência (alguns baralhos colocam uma aura em torno da cabeça do Pendurado por causa disso) e toma-se a atitude adequada à cada situação. Isto só ocorre, contudo, quando nos rendemos por completo ao momento presente e vivenciamos a opção de “fazer pelo não-fazer”. O ego está sempre no passado e futuro, sempre alicerçado por resultados – os concretos e os imaginários. No presente só existe a consciência.

O estágio XII do Tarot pode ser visto como um castigo ou um precioso momento de reflexão e despertar. É como a história do “meio-copo cheio” ou “meio-copo vazio”. É a carta da parada necessária, por mais que esta seja forçada e/ou ocorra em um momento não oportuno.

A gente não pára porque tudo se desfaz, como ocorre na Torre, mas, na maioria das vezes, pela ausência de recursos – sejam eles quais forem, incluindo a própria vitalidade – para tocar um projeto ou a própria vida.

É um tempo para se pensar, sem atribuir culpas, em nossas escolhas, atitudes e tudo mais que nos trouxe a esta condição, estabelecendo o que precisa ser transformado na etapa seguinte: Arcano XIII – A Morte.

O que fazer quando não há o que se fazer? Simplesmente pare e respire. Não adianta praguejar, amaldiçoar a si mesmo, o outro e/ou as instituições. O antídoto para a raiva é a paciência. Cultive a paciência.

Respirar com consciência é uma atitude que nos leva para dentro. Não queira ir para dentro, alertam os mestres. Apenas fique consciente da respiração e deixe que o resto aconteça naturalmente, incluindo as considerações sobre escolhas e atitudes que citei no parágrafo anterior – de novo a história de não estar preso a um resultado. Se acontecer alguma coisa, ótimo. Se não acontecer nada, ótimo também.

De novo: o importante não é de onde vim ou para onde vou, mas onde estou. O desapego é palavra-chave para o Pendurado. Não estar apegado ao que se tem e/ou ao que se espera alcançar é parte crucial deste processo. Em alguns baralhos, moedas caem dos bolsos quando o Pendurado está com as mãos presas nas costas ou ele segura um saco de moedas em cada uma das mãos, indicando que ele poderia até se soltar, mas não o faz porque resiste em liberar o que conquistou com medo de não recuperar depois, ainda que isso lhe custe a vida.

Existe tranquilidade no primeiro caso e desespero no segundo, a escolha é sua. Talvez por isso encontremos o Ceifador na sequência – a caminhada se torna mais leve quando carregamos apenas o indispensável.

No Yoga, a postura Shirshasana (”apoiado sobre a cabeça”) é considerado “o Rei dos asanas” devido inúmeros benefícios, mas não vou entrar em detalhes que não domino. Se algum instrutor de yoga passar por aqui e quiser contribuir, será bem vindo. Por analogia, contudo, observo a inversão de nossa Árvore da Vida.

Se no seu estado natural o fluxo de energia flui da cabeça para o tronco, pernas e pés, quando estamos no meio da crise ou, antes mesmo disso, quando percebemos a sua aproximação, a mente congestionada desestabiliza a emoção e esta torna nossas ações descuidadas. Logo, invertendo esta ordem, vou considerar que a imobilidade dos membros inferiores – a não-ação – possibilita um estado contemplativo que fortalece a abertura às Forças Superiores, a gratidão, o perdão e o sentimento de equidade (o corpo emocional) e amplia as forças mentais criativas – a expansão da consciência.

Ser colocado (ou se colocar) de cabeça para baixo também á algo que tira as coisas do lugar, quebra padrões e bagunça o pensamento cartesiano – o que pode ser bom. Se agir sempre da mesma forma não está trazendo os resultados desejados, talvez a vida esteja sinalizando que algo precisa mudar.

A Oração da Serenidade, por sinal, deve ser lembrada como um mantra em fases como esta:

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras.

Este é um Arcano que, de alguma forma, desperta a nossa espiritualidade porque, para muitos, é na hora do aperto que se recorre ao Divino, o que pode ser um tanto mercenário (e igualmente infrutífero) se continuamos na tentativa de manter o controle da situação e não confiamos no Universo, pois quando permitimos que ele flua através de nós, verdadeiramente nada nos falta. Se a estagnação se faz presente é porque não há fluidez – simples assim.

Repetindo o mote deste blog, “a vida não muda; quem muda é você”. O Universo não faz barganhas. Promessas, novenas, despachos podem até oferecer soluções temporárias, mas se não houver o despertar de uma nova consciência, o pé fatalmente cairá em uma nova armadilha.

Alguns autores são taxativos e atribuem ao Pendurado a sentença “fracasso”. Não sei se posso concordar. Fracasso é algo muito definitivo. Diria que não é hora, o que é diferente. Pode ser que o que se deseja realmente não aconteça. Também pode ser que, freada a ação pela ação e com introspecção, se consiga reunir os elementos necessários para a sua realização ou se perceba que o processo precise quer quebrado em estágios, concretizando uma coisa de cada vez.

É importante, de qualquer modo, lembrar da frase do Osho que diz “ninguém consegue parar de desejar, mas a realidade só acontece quando o desejo pára”. O que tiver que acontecer, acontece a partir deste ponto, e não antes.

O conselho para quem vivencia o Pendurado é bíblico: Lech Lechá – “vá para dentro de ti”. A chave está dentro, e não fora. Cultive, internamente, a vitalidade, a serenidade e a atenção. Externamente, trabalhe a receptividade. Isto não significa que as coisas vão voltar a andar da noite para o dia, mas, ao menos, irá minimizar as resistências que fazem com que esta experiência se prolongue indefinidamente.

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Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.