A letra Kuf: conversando com a sombra

Eu escrevi este artigo aqui, mas agora criei um endereço próprio para o Oráculo Otiot. Vou mantê-lo, mas qualquer outro texto sobre o deck será publicado lá.

A melhor forma de apresentar o oráculo Otiot é falando um pouco de suas lâminas. Resolvi sortear uma letra para dissertar sobre alguns de seus  atributos. Não me surpreende, face ao momento atual, que tenha saído Kuf.

Observação: Este artigo foi publicado na semana anterior ao 2º turno da eleição presidencial de 2018.  Ele me deixou um tanto impactado com a possibilidade de uma virada de última hora, o que sabemos que acabou não acontecendo. Deixo para fazer um acréscimo no final do texto com as minhas considerações a respeito.

Kuf, a letra que mais desce

Carta da letra Kuf do Otiot, o oraculo das letras hebraicas
A carta Kuf do Otiot

A primeira coisa que chama a nossa atenção é que Kuf é a letra que mais se projeta para baixo. O Alef-Beit possui cinco letras que assumem outra forma no final de uma palavra. Quatro delas também se estentem para baixo, mas estou me referindo somente às 22 letras regulares.

É dito que, por conta desta característica, Kuf toca (faz contato com) as dimensões inferiores. Dentro de uma perspectiva particular, com a nossa sombra. Como se trata de uma via de mão dupla, podemos considerar duas abordagens:

A primeira, é que temos a oportunidade de identificar e curar os aspectos reprimidos e negligenciados da personalidade. Isso, óbvio, quando falamos de uma pessoa. Em uma esfera mais ampla, podemos elevar o padrão ambientes e consciências pouco evoluídas e/ou em sofrimento. Para ilustrar, imagine que alguém entra com uma lanterna e ilumina um quarto escuro ou desce um poço para resgatar alguém no fundo. Este é um aspecto positivo de Kuf e, até aqui, beleza.

Isso significa que, no sentido contrário, é possível que aspectos inconscientes primitivos aflorem sem controle. No momento em que escrevo (out/2018), podemos observar essas características no discurso de preconceito e ódio em quase todo lugar. Sim, o discurso em si não é novo, mas eu me assusto quando surge de onde menos espero. Também por ficar claro que ele é compartilhado por um número absurdo de pessoas. Estavam todos guardados em algum lugar. Talvez esquecidos. Mas agora se exibem sem pudor.

Essas expressões, claro, ganham força quando existe um ambiente social favorável a isso, que é o que está acontecendo. A gíria “o bicho está solto” nunca fez tanto sentido. E, por “bicho”, falo do nosso lado mais animalesco mesmo. Vale também para as situações particulares do cotidiano, quer o indivíduo seja apanhado de surpresa ou já flerte com este lado obscuro naturalmente. Estados depressivos estão na lista.

De forma indireta, é afetado mesmo quem absorve esta energia por tabela. A pessoa até quer ficar de boas, mas lê e ouve tantas coisas que deprime, fica angustiada ou com medo. Pode acontecer por motivos macros, como o clima político do país. Pode surgir em um contexto específico, como os funcionários insatisfeitos de uma empresa que tornam o ambiente tóxico. Também somos inevitavelmente influenciados pelo humor daqueles com quem dividimos a moradia, por exemplo. Enfim, quem nunca se sentiu desconfortável, sem ter um motivo tangível, em um lugar ou depois de encontrar com um amigo?

Ok, temos aí duas dimensões fundamentais da letra, mas como trabalhar isso?

Olhando para além das cascas

Kuf é a inicial da palavra klipá (“casca”) que fala da nossa cegueira porque assumimos como verdade o mundo das aparências. Dentro de uma perspectiva espiritual, a klipá é o que reveste todas as coisas e nos distancia da percepção de Unidade. Eu sou eu, você é você e o equipamento que você acessa para ler este texto é uma terceira coisa. Escrever apenas sobre isso daria um livro. O fato é que vivemos em uma realidade virtual repleta de percepções condicionadas.

Enquanto escrevo, surge no Facebook a frase destacada de um artigo:

Quando avançamos no caminho, começamos a perceber que a natureza das coisas não é separativa. Ela é mágica, inseparável. Assim, começamos a dizer que todas as coisas têm a natureza vajra.

Esta “natureza vajra” (o texto é budista) equivale a tantos outros termos que querem dizer a mesma coisa em diferentes escolas. Para fazer uma citação nerd, “there is no spoon”.

Mas podemos analisar também do ponto de vista da psicologia, por exemplo. Você sente a raiva e pode ficar apenas nela: “estou com raiva”. Obviamente a raiva tem um elemento motivador: “tenho raiva porque fui ofendido”. Olhar para além da klipá seria entender de onde essa raiva nasce. Talvez (e esta é uma análise muito rasa), ela nem tenha a ver com a situação que funcionou como gatilho, mas seja uma reação ligada a elementos inconscientes mais antigos. Quando se chega a esse nível de consciência a raiva é dissipada.

Outra coisa é que Kuf também é inicial de kedushá, usualmente traduzida como “santidade”, mas que também significa “separado”. Na Torá, kesushá serve, em alguns momentos, para dizer que os judeus devem se afastar daquilo que macula a conexão deles com D’us. Se você quiser substituir “D’us” por “o fluxo da vida”, tudo bem.

Sim, apartar-se do que é errado ou faz mal é sempre um conselho oportuno. Não estou entrando aqui nos parâmetros judaicos do que é considerado o puro (tahará) e impuro (tumá). Mas podemos entender também que, num estado de kedushá, que vou colocar agora como “equilibrado e pleno”, você não teme a “contaminação” vinda de uma pessoa A ou um ambiente B. Pelo contrário, é você quem muda o padrão de quem se aproxima ou de um espaço onde esteja presente. Tenha sempre em mente que Kuf tem a capacidade de resgatar/revelar a centelha luminosa de algo potencialmente negativo.

Realizando o impossível

Kuf tem valor numérico de 100. Várias palavras na Torá, obviamente, têm 100 como gematria. Tecnicamente, tudo conversa com a natureza de Kuf.

Pensando apenas no número 100, o meu insight imediato é que cada sefirá da Árvore da Vida tem outra Árvore da Vida dentro, o que seria 10×10 = 100. 100, neste caso, evoca plenitude, mas uma plenitude que não é claramente percebida. Aparentemente você vê 10 “coisas” e precisa ir além das klipót para saber o que elas totalizam todas as possibilidades, 100.

Uma referência clara da Torá é que Avraham (Abraão) tinha 100 anos quando engravidou Sarah. O feito seria algo inconcebível, mas aconteceu por intervenção divina. Então, para alguns, 100 fala do impossível que acontece – principalmente quando você se coloca “acima das estrelas”. Quando D’us falou que Sarah ficaria grávida, Avraham duvidou. Eles não tinham sinais astrológicos (“as estrelas”) para terem filhos, daí a frase.

Colocar-se acima das estrelas é não ser influenciado por um destino que parece óbvio ou inexorável porque, afinal, “a colher não existe”. Na sequência deste diálogo, temos que “não é a colher que entorta, é você mesmo” – bingo!

“Vá para ti”

Tem algo que eu gosto muito, que é a gematria da frase lech lechá (לֶךְ-לְךָ). Ela soma 100. Lech Lechá é o nome da parashá (“porção” da Torá) em que D’us ordena que Avraham “saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei” (Bereshit/Gênesis 12:1). A frase em hebraico é:

Lech lecha me’artzecha umimoladetecha umibeit avicha el-ha’aretz asher ar’eka.

Lech realmente tem o tom imperativo de “vá”. A pegadinha está em lechá, que, a princípio, seria um reforço para imprimir urgência. No entanto, lechá aponta de volta para Avraham: “vá para ti” (para dentro de você mesmo).  A ordem não é para sair de casa apenas, mas para dê início a um processo de autodescoberta.

Rashi (1040 – 1105) disse que não se tratava de cumprir os propósitos de D’us. Antes disso, Avraham deveria encontrar a sua essência, a sua verdade, seu próprio prazer e seu próprio bem. Avraham deveria romper com tudo que esperavam dele para ser ele mesmo.

A tendência de Avram (ele e Sarai receberam o acréscimo da letra Hei que mudou a condição inicial dos dois) era dar continuidade às suas vidas seguindo um fluxo medíocre. Tem um texto do Reb Jeff em que ele diz que:

Abrão tornou-se judeu no momento em que obedeceu à ordem de deixar para trás a dor do passado, de romper com o familiar e abraçar um futuro desconhecido com um destino desconhecido. Esse é o segredo da vida. Nenhum de nós sabe onde a vida está nos levando. A vida é mais rica, mais significativa e mais gratificante quando abraçamos o desconhecido e resistimos à tendência de agir de maneira segura, de se calar ou de se acomodar. A jornada é o que importa. Aproveite.

Esta orientação, para mim, faz parte do mergulho interior que Kuf pode proporcionar. Quando você ilumina seus medos e condicionamentos, surge a possibilidade de crescer. É descer até o fundo do poço, pegar o impulso para a superfície e emergir como outra pessoa.

A marcha de Abraão, de József Molnár

Adar, quando o choro se transforma em alegria

Os meses são listados no oráculo Otiot pela sua qualidade energética, não para uma programação preditiva (ex: algo que vai acontecer “x” dias).

Kuf, no tempo, rege o mês de Adar. É quando os judeus celebram Purim. A palavra Adar é correlata a adir, que significa “forte”. Vejo, em função do enredo, que se trata de uma força que a gente nem imaginava ter, mas está lá quando se faz necessária. É dito que “quando chega Adar, nós intensificamos em júbilo”. Mas se tudo parece bom, devo dizer que não é bem assim que inicia.

De forma bem sintética (no link acima você encontra como ela é contada), temos o rei da Pérsia, Achashverosh, e o seu conselheiro Haman. Estamos no ano de 3394 do calendário judaico. A história começa com o rei buscando uma nova esposa e encontrando Ester, que toma por rainha. Ele não sabe, mas Ester é judia, sobrinha de Mordechai.

Haman era um homem perverso e ambicioso. Para piorar as coisas, odiava Mordechai. Ele esperava que as pessoas se curvassem em reverência por onde ele passasse. Mordechai, no entanto, e por princípios religiosos, só se inclinava para D’us. Por vingança, Haman convenceu o rei que os judeus eram perigosos e sugeriu o extermínio de todos eles nas 127 províncias da Pérsia. A ideia soava absurda, a princípio, mas ele alegou que eles formavam uma minoria capaz de comprometer a estabilidade do reino. O extermínio, em si, não seria um grande problema. Ninguém se importava com eles. De fato, ninguém daria falta. Seu discurso era convincente. O rei comprou a ideia da ameaça, ainda que não houvesse indícios. Se isso de alguma forma isso parece familiar, você não está  sozinho(a).

O nome da festividade é Purim porque vem de pur (“sorteio”).  Haman conhecia  a fama dos judeus em superar grandes adversidades com a ajuda de seu deus, por isso consultou astrólogos para descobrir uma “data de vulnerabilidade” e foi aconselhado: 13 de Adar.

Mordechai fica sabendo antecipadamente do destino do seu povo. Procura Ester e pede para que ela interceda junto a Achashverosh. Ela, no entanto, não poderia abordá-lo diretamente, sob o risco de ser punida com a morte – regras da época. Então pede para que todos os judeus, incluindo ela, façam jejum por 3 dias. No terceiro dia, Ester se posiciona no palácio de modo a ser vista pelo rei, que fica feliz ao encontrá-la e lhe concede um desejo. Ela pede que o rei e Haman se juntem a ela em um jantar na noite seguinte. E assim acontece.

Satisfeito com o banquete, o rei resolve conceder a Ester segundo pedido. E então Ester se joga no chão aos prantos  pede que o rei poupe a sua vida, assim como a vida de seu povo. Quando ela explica tudo e cai a ficha do que está acontecendo, Achashverosh ordena que Haman seja enforcado no patíbulo que o próprio havia preparado para matar Mordechai. #chupaHaman

Ester e Achashverosh

Como não poderia revogar o decreto anterior, Achashverosh autorizou que os judeus fossem alertados e se armassem para a própria defesa. No dia 13 de Adar, data na qual eles deveriam ser condenados à morte, todos se reuniram nas praças para lutar. E venceram!

A única maneira de mudar o destino deles foi criar união através do despertar da generosidade. O jejum proporcionou isso. As pessoas se solidarizaram. Não apenas as que temiam pela própria vida, mas as que não corriam riscos, mas se importavam com elas.

O jejum também foi um korban (“sacrifício”), outra palavra com Kuf. Korban tem a mesma raiz que karov,  que significa “aproximar-se”. O sacrifício religioso é feito para que o indivíduo se aproxime de D’us. No passado, o sacrifício de animais tinha a ver com abrir mão de algo de valor. O texto bíblico pode ser interpretado de forma literal ou como metáfora para o sacrifício da alma animal (o desejo de receber só para si) de cada um.

Você pode entender que o korban é algo que te aproxima do seu objetivo, como restringir (sacrificar) de alguns prazeres para melhorar a sua qualificação para um concurso.

Há diversos códigos na Meguilá de Ester. Estou me atendo ao básico.

Olho para Kuf dentro do cenário desta semana, ouço pessoas que nem são favoráveis ao PT se unindo (fazendo o sacrifício de votar no Haddad) para combater o “fantasma de Haman” que paira sobre nossas cabeças. Se as pesquisas, até esta data, parecem favoráveis ao Bolsonaro, pode ser que a mensagem de Kuf (também) indique uma virada de última hora. Quero muito acreditar nisso e lamento se você não compartilha da mesma opinião política que eu.

Se Kuf for confirmado, o choro e o medo de hoje serão convertidos em alegria no próximo domingo. Estamos longe do próximo Purim (20 de março, em 2019), mas quero fortemente acreditar nesta possibilidade que Kuf apresenta. Talvez agora você entenda porque esta carta me deixou um tanto maluco durante a semana.

O Kabbalah Centre recomenda a meditação no Nome de D’us Caf-Hei-Tav para todas as vezes em que você sente que a energia de Haman está na espreita.

E se não acontecer “a virada”? Bem, há duas coisas ainda a serem ditas.

A primeira é que a principal mitsvá (“mandamento” – na verdade, “conexão”) de Purim é beber ao ponto de não saber mais reconhecer a diferença entre o “almaldiçoado Haman” e o “abençoado Mordechai”. As duas sentenças têm a mesma gematria em hebraico. Isto significa que, em um nível de compreensão mais elevado, não há diferença entre eles.

A polarização (vilão x herói) é ilusória. A celebração de Purim ensina que nada é o que parece ser, por isso há máscaras, como no nosso Carnaval.  Purim também ensina que algumas maldições são bênçãos disfarçadas – o problema é que não conseguimos ver assim num primeiro momento. Em meio à escuridão,  mantenha o foco na sua integridade, na sua cura, na revelação da sua Luz.

A segunda coisa é que Kuf recomenda a conexão com o riso (tzchoc) e com a alegria (simchá). A tristeza fala daquilo que nos falta. A alegria, daquilo que nos preenche. Acho que é no livro “Dançando o sonho” (não tenho mais para confirmar) que Jamie Sams ensina que a alegria cria uma “oleosidade na aura” que não permite que a negatividade grude.

E é isso. Quanto maior a bad vibe, pior as coisas ficam. Se, por outro lado, vibramos na alegria, a vida expande. Não é o caso de fazer o papel de Pollyana, mas não se deixar enredar por pensamentos, sentimentos e atitudes que nos encouraçam.

Kuf e a preocupação do baço

Os Quatro Humores

Eu não sei se as coisas são apenas curiosas ou se nada é por acaso. O signo de Peixes, em hebraico, tem o nome de Dagim. É um peixe que sobe e se conecta com o Divino. Outro que desce e se afasta Dele. No segundo dia da Criação, D’us separou as águas das águas. Os dois peixes estão ligados por um fio, mas um nada nas águas de cima e, o outro, nas águas de baixo. O singular de dagim é dag. Da’ag significa “preocupar-se”. O segredo aqui, assim como na visão entre alegria e tristeza, é saber com qual peixe você se sintoniza.

Na Medicina Tradicional Chinesa, o baço é regido pela Terra e gera a preocupação. Um estado mental que também se fixa naquilo que não temos ou pode nos faltar a qualquer momento.

Dentre os  quatro humores – sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico – o baço (techol) rege o último. Ocorre que, segundo a tradição judaica, ele também é controlador do senso de riso, indicando que o riso tem o poder de transformar a melancolia em alegria. Um dos motivo ao se atribuir isso está na função do baço em purificar o sangue.

Talvez por isso  “humor negro” (marah shechorah – מרה שחורה) e “pensamento feliz” (hirhur sameach – הרהור שמח) sejam escritos com as mesmas letras. Bílis negra ou humor negro são outros nomes dados ao estado melancólico.

As máscaras, fantasias e imitações de Kuf

Kuf, a letra. Kof, o macaco

Por conta de Purim fica fácil entender que a letra Kuf pode servir de alerta para graves enganos, até porque Kuf, em seu aspecto negativo, está ligada à falsidade.

Quando D’us estava para criar o mundo, convocou todas as letras para discutir com elas com quem começaria a Sua obra.

A letra Shin, no seu tempo, se apresentou com a justificativa de que era a inicial do nome divino Shadai. D’us, no entanto, negou a sua candidatura “porque as letras da falsidade (Resh e Kuf) se servem de ti”.

Sheker (שקר) é “falsidade”, em hebraico. Formada pelas letras Shin, Kuf e Resh, é dito que a pessoa má se apresenta como confiável (Shin), mas esconde Kuf-Resh atrás de si. Estas duas letras podem ser lidas como kar (“frio”), representando a energia da morte, ou reik (“vazio”) – de modo geral, usada para indicar uma condição onde não existe espiritualidade. Lembre-se do dito popular: “cabeça vazia é oficina do diabo”.

Somado a isso, temos kof (“macaco”). O macaco gosta de imitar o que vê. Faz isso naturalmente por curiosidade ou porque é treinado para se comportar assim. E ainda que seja brilhante na sua performance, não deixa de ser macaco. No contexto de Kuf, esta característica pode alertar sobre alguém que se faz passar pelo que não é.

Podemos entender a situação de duas formas. No primeiro caso, temos alguém que, premeditadamente, finge ser alguém com segundas intenções. Eu adoto, por exemplo, uma atitude generosa para obter favores ou aplicar um golpe. É muito difundida no meio corporativo, por exemplo, a técnica de negociação e venda chamada rapport. A palavra deriva do francês rapporter (“trazer de volta”) e é utilizada para criar empatia. Nem todo rapport é aplicado para o mal, maaaaaas há controvérsias. Um de seus métodos é o espelhamento, por exemplo,o que  lembra bem a história do macaco. Quando eu começo a reproduzir a linguagem corporal, expressões e pensamentos da pessoa com quem eu converso, ela, sem perceber, se torna mais receptiva aos meus argumentos. É um Kuf em andamento.

No segundo caso, o comportamento pode até ser inconsciente, mas revela uma pessoa que esconde a sua verdadeira natureza para ser socialmente aceita. Estamos descrevendo situações que podem envolver questões de baixa autoestima, medo de rejeição e vaidade, entre outras coisas. O problema de um Kuf assim é que nem sempre o indivíduo se percebe mimetizando seu par ou a tribo. Esta é uma das características do “comportamento de manada”, onde assimilamos os pensamentos e as reações do coletivo mesmo quando isso contraria, inicialmente, nossos valores.

Então é sempre ruim? Não, em absoluto. Pense na condição contrária. O ponto aqui é que nem tudo é como parece. Precisamos olhar para além da klipá. Da mesma forma que uma pessoa pode parecer incrível e não ser, podemos ficar na defensiva sem motivo. Um exemplo banal é alguém que muda de calçada por medo ao ver que um homem humilde, mal vestido e negro vindo em sua direção. Uma coisa é o alarme interno soar antecipando uma situação de risco (mesmo diante de alguém acima de qualquer suspeita). A outra é reagir por puro preconceito.

Gosto muito da passagem do filme Stigmata onde o padre Andrew vê uma possuída Frankie Paige escrevendo na parede. Ele pergunta: “Quem é você?”. E Frankie responde com uma voz que não é dela: “O mensageiro não é importante”.  Kuf pede para que você tenha alguns filtros. O próprio Buda intruía seus discípulos para questionar seus ensinamentos ao invés de simplesmente acatar tudo o que dizia.

Kuf na Árvore da Vida

O caminho de Kuf na Árvore da Vida

Vamos lá: Kether, Chochmá e Biná correspondem aos processos superiores da Criação. Kether se refere ao estado potencial e Chochmá é a inspiração inicial. Biná, a terceira sefirá, organiza e revela Chochmá. É a dimensão do Entendimento (a tradução de Biná) e do propósito. Entenda melhor a Árvore da Vida neste outro artigo.

Chesed é a primeira das midót (atributos emocionais), representando a graça, o amor e a generosidade, entre outras coisas. Corresponde também ao primeiro dia da Criação: “E disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Beresit/Gênesis 1:3). É através dela que  D’us criou e continuamente renova o mundo.

Quando falo que Kuf se projeta para os planos inferiores, parto da definição clássica do homem posicionado entre os céus (acima) e a terra (abaixo). Metaforicamente, Kuf se projeta para baixo como a raíz que penetra a terra.

Na Árvore da Vida, num primeiro momento, este mergulho não é para uma dimensão inferior à nossa porque o ponto de partida é uma dimensão acima. Ao colocar o diagrama sobre o corpo humano, as sefirót Chochmá e Biná são associadas aos hemisférios cerebrais direito e esquerdo, respectivamente. Sabemos que o hemisfério esquerdo é responsável pelo pensamento lógico e estruturado, cálculos, objetividade, síntese etc.

Os hemisférios cerebrais

Muitas vezes eu converso com alguém que diz ter plena consciência do seu problema e do que precisa fazer, mas não consegue promover mudança alguma. Por quê? Porque tudo fica apenas na cabeça – elaborações, medos e expectativas. A expressão que eu uso, geralmente, é que ele(a) não “desce o elevador” da cabeça para o corpo. O pensamento não aterra, logo não é convertido em atitude. Tem cabeça, mas  falta coração. Não por acaso, a forma de Kuf pode ser vista como a letra Resh (cabeça) ligada à letra Zayin.

Kuf sai da contração da coluna da esquerda para a expansão do coluna da direita, da mente lógica que busca complexidade de Biná para a atitude de abertura e receptividade de Chesed. Embora a diferença seja de “apenas” um nível, a distância entre as sefirót superiores para a Zeir Anpin (“Face Menor” – as seis sefirót seguintes) é enorme. Precisamos de Kuf para realizar a travessia.

Se temos um fluxo livre, perfeito. Kuf pode indicar essa transição do pensamento para um princípio de ação. As coisas começam a acontecer. E se existe algum bloqueio? De volta ao começo deste artigo, precisamos de Kuf para investigar os aspectos inconsciente para transformar a sombra em luz.

Dá para resumir?

Ok, escrevi sobre várias coisas. Queria mostrar, através de Kuf, o quanto há de riqueza na interpretação das otiot. No meio judaico há muitas outras abordagens. Como sintetizar os ensinamentos de Kuf? Vamos a cinco tópicos:

  1. Contato com as dimensões inferiores. Em uma leitura positiva, oportunidade de acessar e curar os aspectos inconscientes restritivos ou de sofrimento. Em outras condições, revela a Luz ou eleva a natureza de algo. Como desafio, é provável que forças tóxicas esteja se manifestando sem controle.
  2. Não confie nas aparências, na fala sedutora. As klipót estão sempre encobrindo algo. Talvez uma armadilha. Por outro lado, há tesouros escondidos onde menos se espera. A regra é ir sempre para além das cascas.
  3. Mergulhe dentro de si. Busque a sua verdade, a sua essência. Desafie os caminhos que foram escritos para você por outras pessoas. Haja de acordo com as suas aspirações.
  4. Não deixe nunca de buscar a alegria e a leveza em todas as situações, mesmo as mais difíceis. Quando você ri com a vida ela também ri com você. Existe uma força incrível na alegria. Acredite nisso.
  5. Afaste-se daquilo que não faz bem, mas não se isole do mundo. Revele a Centelha Divina que há em todas as coisas. Torne sagrado o chão que você pisa.

Kuf depois das eleições de 2018

No domingo, dia 28 de outubro, foi eleito novo Presidente da República, Haman. Há quem discorde, mas este é um espaço para as minhas opiniões. Por conta da associação com Purim, fiquei cogitando, incomodado, a possibilidade de uma virada histórica de última hora. O resultado, agora, sabemos.

E como fica a interpretação de Kuf? Kuf continua sendo a letra que mais desce e, no momento, o que se vê é o pior de muitas pessoas. Parte delas, próximas e queridas, o que aumenta o desalento.

Li o comentário do filósofo húngaro residente no Brasil, Peter Pál Pelbart, e ele faz muito sentido:

“Eu acho tudo isso que está acontecendo positivo no macro, embora esteja sendo dificílimo no micro. Explico: todo esse ódio, toda essa ignorância, essa violência, isso tudo já existia ao nosso redor. Agora é como se tivessem tirado da gente a possibilidade de fingir que não viu. Caíram as máscaras. O Brasil é um país construído em bases violentas, mas que acreditou no mito do “brasileiro cordial”. (…) Estamos sendo obrigados a ver que o Brasil é violento, racista, machista e homofóbico. (…) Como todo processo de cura emocional, esse também envolve olhar pras nossas sombras e é doloroso, sim, mas é o trabalho que calhou à nossa geração.

O lado positivo é que, agora que estamos todos fora dos armários, a gente acaba descobrindo alguns aliados inesperados. Percebemos que se há muito ódio, há ainda mais amor. Saber que não estamos sós e que somos muitos nos deixa mais fortes. Precisamos nos fortalecer, amores. Essa luta ela não é dos próximos 15 dias, é dos próximos 15 anos. Mais: é a luta das nossas vidas. Não cedam ao desespero. Não entrem na vibe da raiva. Não vai ser com raiva que vamos vencer a violência. E se preparem, tem muito chão pela frente”.

Isso é Kuf. No momento em que encontramos tantas pessoas cegas pelas klipót (cascas), é necessário que a gente revele mais e mais a kedushá (santidade) que existe em nós. Tudo o que a gente julga errado no outro conversa, de alguma forma, com algo dentro da gente. Olhe para isso. É investindo na nossa cura que curamos o mundo. Torne sagrado o seu corpo e o chão que você pisa.

Temos TODOS o direito de estar aqui, de sermos quem somos, de acreditar nos deuses que quisermos (em nenhum deus, inclusive), e de amar quem desejarmos. Não se desespere. A medicina de Kuf é o riso. E uma de suas lições é que nem tudo é o que parece. Vamos em frente. Meu abraço em cada um.

Perguntas? Escreva nos comentários.

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Possam todos se beneficiar!

Sobre Marcelo Bueno 92 Artigos
Marcelo Bueno é cartomante com especialização no Tarot. Além de editor do Zephyrus Tarot, promove cursos, workshops e atendimentos com este oráculo.